Se você ainda não sabia que Cillian Murphy está entre os melhores intérpretes desta sua geração, o triunfo como Melhor Ator no Oscar do ano passado – pelo filme “Oppenheimer” – afastou qualquer sombra de dúvida. O personagem no filme mais recente, “Pequenas Coisas Como Essas” – um carvoeiro na Irlanda dos anos 1980 que tropeça em segredos angustiantes – não poderia ser mais diferente do que aquele de “pai da bomba atômica”. Mas o que os dois filmes compartilham é este grande artista que sabe como comandar a tela enquanto fala pouco, externando com poder surpreendente um abismo de tormento interior.

“Small Things Like These” - em exibição até quarta-feira (19) em Londrina, numa única sala e com prazo de validade perigosamente curto - adaptado de aclamada novela minimalista de Claire Keegan, narra a história de Bill Furlong (Murphy), carvoeiro portador de sinceridade discreta e monossilábica, dividindo o lar com cinco filhas e a esposa, Eileen (Eileen Walsh). Enquanto faz suas entregas de carvão para prover a cidade de olho nas preparações natalinas, ele tropeça por acaso em descoberta chocante: maus tratos inomináveis estão ocorrendo na escola do convento local para meninas. Ele sabe que o poder institucional da Igreja Católica é forte realidade no país e para toda a população do lugar. E que este poder ilimitado poderia, de fato e com certeza, tornar a vida ainda muito mais difícil para um homem comum de cidade pequena, como ele.

Esta primeira grande, e ao mesmo tempo modesta, realização cinematográfica de Murphy como produtor executivo (com o aporte na co-produção também executiva dos atores Matt Damon e Ben Afleck) é um projeto de paixão para o ator: é ambientado em sua Irlanda natal e filmado em locações na cidade de County Wexford, onde a história se passa. Este é um conto fictício, mas aqui o lado pessoal está fortemente entrelaçado com a realidade do pano de fundo social.

"Pequenas Coisas Como Essas": filme aborda o horror das lavanderias de Magdalene onde 58 mil mulheres e meninas irlandesas, solteiras e na maioria grávidas, foram separadas de seus bebês
"Pequenas Coisas Como Essas": filme aborda o horror das lavanderias de Magdalene onde 58 mil mulheres e meninas irlandesas, solteiras e na maioria grávidas, foram separadas de seus bebês | Foto: Divulgação

LAVANDERIAS DE MAGDALENE

O que é o verdadeiro horror conhecido como “As Lavanderias Magdalene”, os locais que ficaram tristemente conhecidos onde, entre 1920 e 1998, 58 mil mulheres e meninas irlandesas, solteiras e na maioria grávidas, foram separadas de seus bebês, abusadas e jogadas em trabalhos forçados como punição por “comportamento moralmente condenável”.

Em sequência sutil e assustadora, Furlong toma chá com a intimidante Madre Superiora (Emily Watson, formidável em sua “sacra” malignidade ), quem, com naturalidade, coloca notas de libras em um cartão de Natal para a família dele, como suborno para silenciá-lo.

Para consumar este desejo de levar à tela e tornar público este deplorável e doloroso segmento da história irlandesa do século passado, Murphy trouxe a bordo do projeto um dos diretores de vários capítulos de “Peaky Blinders”, o belga Tim Mielants, que empresta ao filme um olhar autêntico capaz de realçar a intimidade gélida, lenta e constante do entorno, tão necessária à narrativa. Há uma série de close-ups de Murphy assistindo televisão, sem expressão ou olhando em lágrimas para um espelho; dificilmente há cenas no filme em que ele, suas dúvidas e seu conflito moral não estejam presentes.

Tal onipresençça é vital para o sentido de interioridade que marca o andamento do filme: boa parte dele se desenrola na cabeça de Furlong. Com flashbacks de sua própria criação dolorosa como uma criança "bastarda" – e da inesperada gentileza de outros quando ele estava em necessidade – Furlong fica cada vez mais angustiado com a ideia de que ele deve ignorar e esquecer o que está acontecendo por trás dos muros do convento.

História bela de coragem moral que afronta a inescrupulosa cumplicidade, “Coisas Pequenas Como Essas” já se inclui com méritos absolutos numa lista precoce de melhores filmes do ano.

Em tempo: em 2002, o ator e diretor irlandês Peter Mullan ganhou o Leão de Ouro em Veneza com o drama “Em Nome de Deus”, com foco no mesmo tema, porém com maior intensidade na denúncia.

* Confira a programação de cinema no site da FOLHA.

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