Pequena galeria de ilustres cada vez menos conhecidos (I)
Pequena galeria de ilustres cada vez menos conhecidos (I)
... sobre os quais agrada-me escrever algumas linhas, tanto mais que assim aproveito anotações biobibliográficas que julgava perdidas e recentemente localizei em meio a inutilidades de que pretendia desfazer-me (e não o fiz). Ao final, esta série (que poderá ter vida mais curta do que prevejo) talvez inclua uma menor galeria de conhecidos meus, bem pouco ilustres. Começo com...
Brás Garcia de Mascarenhas - Dele sei pouco mais do que diz o seu primeiro editor, um tal Bento Madeyra de Castro, que em 1699 publicou-lhe o Viriato Trágico (poema com vinte cantos em oitava-rima considerado a última das epopéias em estilo camoniano): Mascarenhas nasceu na era de 1596 e em madura e robusta velhice faltou aos dias na era de 1656, a 8 de agosto. Foi poeta e guerreiro, qualificando-se, ainda segundo Madeyra de Castro no prefácio do Viriato, por não menos favorecido de Marte que mimoso de Apolo. No Brasil, lutou contra os holandeses e achou tempo para fazer versos e um belo pé-de-meia. Por fim, satisfeito de sua sorte em nosso país, me parti delle contente.
De volta a Portugal, sobre nove anos de importuna absencia, torna a gosar da Pátria dezejada e escolhe destino bucólico para a sua robusta velhice:
Retiro-me a estes valles, a estas fontes,
A estes frescos jardins, & patrios Rios.
(Em tempo: se a prefeitura de Olinda, Pernambuco, não o fez, bem que devia gravar a ouro, em monumento, estes singelos - e para que melhores? - versos que Mascarenhas dedicou à cidade:
Na Olinda parei, tendo a de Olinda
Por mayor, por melhor, & por mais linda.)
Savinien de Cyrano - São bem conhecidos o Cyrano de Bergerac da comédia heróica de Edmond Rostand, o Cyrano cinematográfico interpretado por Gérard Depardieu, bem como o de Steve Martin (na adaptação livre Roxanne, 1987, de Fred Schepisi, que às vezes é reprisada na tevê na sessão da tarde), mas o mesmo não se pode dizer do verdadeiro Cyrano (1619-1655), autor da tragédia A Morte de Agripina, da comédia O Pedante Enganado e, principalmente, de dois livros (postumamente publicados) que, se não fossem tão loucos e tão engraçados, poderiam figurar como precursores da ficção científica: a História Cômica dos Estados e Impérios da Lua(1657) e a História Cômica dos Estados e Impérios do Sol (1662). Para se ter uma idéia, no primeiro deles, Cyrano (narrador e protagonista imaginário das peripécias do enredo) situa o Éden na lua. Do paraíso o profeta Elias não demora a expulsar o nosso herói, que então visita as cidades do satélite, tendo como guia o demônio de Sócrates. Este lhe explica que os habitantes da lua, além de se absterem de comer carne, também tomam especiais cuidados em relação às hortaliças: só comem repolhos mortos de morte natural, pois decapitar um repolho é, para eles, um assassinato. - Sobre isso escreveu Ítalo Calvino num dos ensaios de Por que Ler os Clássicos (tradução de Nilson Moulin, São Paulo, Companhia das Letras, 1993): De fato, nada nos garante que os homens, depois do pecado de Adão, sejam mais queridos por Deus que os repolhos. (...) E... mesmo admitindo que os repolhos não têm uma alma imortal, talvez participem de uma inteligência universal e se de seus conhecimentos ocultos jamais se nos revelou nada talvez seja só porque não estejamos à altura de receber as mensagens que nos mandam.
Luciano de Samósata (c. 125 - c. 192) - Autor de diversos opúsculos nos quais ridiculariza os costumes e os preconceitos da sociedade grega de seu tempo. Dele o grande Otto Maria Carpeaux (que também merecia um lugar nesta galeria, em verbete à parte) disse que foi o speaker de um show humorístico, no qual homens e deuses dançam o último cancã do mundo greco-romano. (A propósito, a editora da Universidade de Brasília acaba de publicar uma boa tradução, feita por Américo da Costa Ramalho, da obra mais importante de Luciano, o Diálogo dos Mortos, mas duvido e faço pouco que isso colabore para tornar este autor melhor conhecido num país como o nosso, onde se confunde Paulo Coelho com literatura.)





