Pequena felicidade com o máximo de lucidez
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Não é sempre que pensadores conseguem, de maneira íntegra, rejeitar o niilismo e o sofismo e ao mesmo tempo manter o bom senso filosófico. Argumentos que caminham para uma dose de otimismo para com a vida humana. Associado a isso, a clareza de raciocínio sem exageros acadêmicos. Um desses exemplos está em A Sabedoria dos Modernos escritos pelos pensadores franceses André Comte-Sponville e Luc Ferry.
Lançado pela Editora Martins Fontes, a obra é uma discussão sobre assuntos contemporâneos utilizando os instrumentos da filosofia. Partindo do fato de que o mundo sofreu grandes transformações nos últimos milênios, procura encontrar para a atualidade uma sabedoria condizente com o mundo e a vida moderna. A questão central proposta pelos autores é: Qual sabedoria depois de religião e além da moral?
Não trata-se de um livro escrito, literalmente, a quatro mãos. Foi criado primeiro seguindo o ponto de vista de cada um, segundo através de um colóquio entre os dois pensadores. A partir de questões e temas previamente propostos, cada um dos autores compunha suas reflexões. Depois trocavam correspondência para, no final do processo, realizar um debate oral.
Como resultado, A Sabedoria dos Modernos apresenta, para cada questão filosófica, duas visões, duas investigações para num terceiro momento apresentar o embate entre os dois lados. Embate esse que não significa necessariamente um conflito direto e violento, mas complementar no entendimento das questões propostas.
Com raciocínio claro, os textos são pautados por uma existência sensata e lúcida. Uma afirmação da vida enquanto aprendizado: a vida é breve demais, preciosa demais, difícil demais, para que nos resignemos a vivê-la de qualquer jeito. E interessante demais para não nos darmos tempo de refletir a seu respeito e debatê-la.
André Comte-Sponville e Luc Ferry começam abordando os dois caminhos possíveis da filosofia contemporânea, o materialismo e o humanismo. Depois partem para o embate entre neurobiologia e filosofia com o objetivo de investigar se existem fundamentos naturais na ética. Na sequência, humanismo e bioética são colocados lado a lado numa discussão sobre a sacralização do humano. Entre os outros assuntos abordados estão a religião após a religião, a crise da arte contemporânea, a sociedade midiática, a crise política e a utilidade da filosofia atual.
A Sabedoria dos Modernos de André Comte-Sponville e Luc Ferry, Editora Martins Fontes, tradução de Eduardo Brandão, 560 páginas, R$ 39,80.





