Pensando na morte para viver a vida
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Reportagem Local 
''A Partida'', de Yojiro Takita, mostra como um tema dos mais indigestos pode ser tratado de forma palatável. E muito agradável. O filme, que ganhou este ano o Oscar de melhor produção estrangeira e estréia hoje em Londrina (confira a programação de cinema na página 2), é um mix de comédia e drama japonês, que tem como personagem principal um frágil papa-defuntos.
Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é um violoncelista que fica sem emprego quando a orquestra na qual toca é dissolvida. Volta, em companhia da mulher, para a cidadezinha do interior onde sua mãe, morta há pouco tempo, lhe deixou uma casa. A vida lá é mais barata mas, mesmo assim, Daigo é obrigado a procurar trabalho. E acha este, o de preparador de defuntos para o enterro.
Antigamente, eram as próprias famílias que preparavam seus mortos para a cerimônia fúnebre. Agora ninguém tem mais tempo para isso. E então entram em ação os profissionais. Daigo junta-se a um deles, mestre na arte de dar ao morto aparência de vivo para despedir-se dos entes amados.
Essa estranha profissão manipula mortos, mas lida mesmo é com a vida dos que ficaram. Reações de culpa, ressentimentos, ciúmes se avivam no momento em que as pessoas têm de lidar com o corpo morto. É isso que o filme vai mostrar. Há partidas e partidas. Algumas mais assimiladas, outras mais dolorosas, outras que servem de pretexto a disputas familiares por heranças, materiais ou espirituais.
E então aí o filme se torna mais esperto e mais complexo - o próprio Daigo tem contas a ajustar consigo mesmo e com um dos familiares. Depois que toda a história for contada, o espectador poderá concluir que o personagem talvez não tivesse destino melhor do que o de lavar e vestir cadáveres, já que este trabalho é também forma de reparação.
A pretexto do tema indigesto, vários outros subtemas se abrem e relacionam com o eixo principal. Há a questão do pai, mas também a da permanência da tradição num Japão modernizado e ocidentalizado. O contraste entre a vida alienada da metrópole e a rotina das cidades menores, que pode ser mais sufocante sob alguns aspectos mas humana sob outros. Há os problemas de relacionamento pessoal, e também as contingências da continuidade da espécie. Morrem uns para que outros possam nascer, algo que é fácil de compreender racionalmente mas difícil de aceitar no plano emocional. Muitas ideias em circulação para um filme no fundo tão simples.


