O psiquiatra Barros Neto explica que a fobia de voar implica, muitas vezes, em vários medos. ‘‘A maioria das pessoas tem fobia de o avião cair, mas existem outros medos relacionados, como claustrofobia, medo de altura ou medo de passar mal no avião, por exemplo.’’
Para o professor da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Antônio Carlos Amador Pereira, outro fator que agrava o medo é o fato de as pessoas terem de confiar suas vidas a alguém desconhecido: o piloto. ‘‘As pessoas estão habituadas a controlar seu dia-a-dia. No avião, elas ficam desamparadas.’’
O resultado disso, explica o professor, é o aumento da sensação de ansiedade e tensão. ‘‘O medo alimenta pensamentos negativos e vice-versa.’’ Segundo a médica-psiquiátrica Kátia Oddone Del Porto, coordenadora do Ambulatório de Ansiedade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é preciso fazer com que a pessoa com medo resgate o bom senso. ‘‘O grau de ansiedade é tão grande que a pessoa começa a perceber a realidade de forma deturpada’’, afirma Kátia.
É o que acontece com a professora Milena Antico, de 52 anos, que sempre que vai voar pensa que irá sofrer um acidente. ‘‘Turbulência para mim é sinônimo de acidente.’’
Ela conta que fica analisando o comportamento dos comissários de bordo para ver se não estão tensos. ‘‘Sei que é psicológico, mas sempre acho que estão escondendo alguma coisa’’, diz. ‘‘Chego ao ponto de ficar olhando para os outros passageiros e vendo quem tem cara de que vai morrer quando o avião cair’’, lembra a professora, que diz ter medo desde pequena, mesmo sendo filha de um piloto.
Para se sentir melhor no vôo, Milena reza e toma remédio para o mal-estar. Mas, o que para Milena é uma forma de aliviar o enjôo para muitas pessoas é um jeito de diminuir o medo. Porém, segundo os especialistas, tomar remédio ou encher a cara não é recomendável. ‘‘As pessoas só contornam o problema. Além disso, muitas ficam violentas e inconvenientes sob o efeito da combinação bebida, remédio e medo’’, diz o psiquiatra do HC Tito Paes de Barros Neto.
Para o professor da PUC Antônio Carlos Amador Pereira, técnicas de relaxamento podem ser usadas no tratamento da aviofobia. ‘‘Os próprios passageiros podem usar esse método durante o vôo.’’
Racionalmente, o medo de o avião cair não deveria existir, pois está matematicamente comprovado que o avião é o meio de transporte mais seguro. Segundo o livro ‘‘Voando sem Stress – Estratégias para Superar o Medo de Voar’’, o risco de morrer em um acidente aéreo é 4 mil vezes menor do que em consequência do fumo.
Estatísticas, porém, não servem para aliviar o problema dos aviofóbicos. ‘‘Todo mundo dá conselhos desse tipo, mas esse medo não é matemático, é pavor mesmo. Só entende quem sofre disso’’, diz o marqueteiro esportivo Gilberto Ratto, de 26 anos. Para ele subir num avião só em último caso.
No carnaval de 1993, para não ter de passar medo – que ele prefere chamar de receio –, Ratto chegou a inventar uma história para convencer 15 amigos a ir de ônibus para Salvador. ‘‘Quando vi que todos estavam pensando em ir de avião não tive dúvida em dizer que um de nossos amigos estava com problemas financeiros e que estava com vergonha de dizer que não poderia pagar a passagem aérea’’, conta. ‘‘Foi só eu falar isso que meus amigos se comoveram e quase todos decidiram enfrentar a estrada em pleno carnaval.’’ No fim das contas, o grupo perdeu o primeiro e o último dia de folia na estrada. ‘‘Foi muito cansativo, mas é o jeito.’’

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