São Paulo, 21 (AE) - Caipiras de fato, como prefere Inezita Barroso à designação "sertanejos", tão em voga e tão deturpada, os mineiros Pena Branca e Xavantinho lançam, em show que realizam de amanhã (22) a domingo, no teatro Crowne Plaza, seu mais novo disco, "Coração Matuto". No CD, contam com a participação de Milton Nascimento, de quem gravaram, em 1982, a canção "Cio da Terra", feita em parceria com Chico Buarque.
Milton canta com eles uma de suas primeiras músicas, composta quando ainda morava em Minas Gerais e apenas sonhava em ser famoso. Trata-se da toada "Morro Velho", que narra a história do menino branco que deixa o sertão e, nele, o amigo negro - e estima o que mudará na vida e amizade deles.
A lindíssima canção, dos anos 60, reelaborou os cânones da canção interiorana, da toada, da moda de viola. Foi, com "Travessia", também de Milton, uma pequena revolução, um contraponto possível às características cosmopolitas da bossa nova. O Brasil de então começava a olhar para dentro de si.
O que Pena Branca e Xavantinho fazem, desde que surgiram, no início dos anos 80, é reiterar que em toda a música brasileira, mesmo no samba, existem células matriciais que são comuns à música caipira. Há muito de toada sertaneja na música de Guilherme Arantes (de quem eles gravaram, em "Coração Matuto", a canção "Planeta Água"), naturalmente; e há, também, na música do alagoano Djavan, como eles provam com a interpretação da toada (sempre há toadas) "Lambada de Serpente".
Mas esta, para a dupla, não é uma questão didática. Pena Branca e Xavantinho não estão preocupados em fazer proselitismo teórico - se escolhem Milton ou Djavan (ou Ari Barroso ou Hekel Tavares, que costumam cantar) é porque encontram na música deles pontos de contato com a sua própria linguagem - a que comungam com Juraíldes da Cruz, Mário Campanha, Murilo Alvarenga, Tadeu Franco, ou Renato Teixeira, alguns dos autores das músicas do disco e dos shows.

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