PELOS RINCÕES DO BRASIL
ReproduçãoOs Dez Brasis: ensaios e artigos mostram a diversidade do país
Jorge Baleeiro
reúne em livro
150 artigos e
260 fotos que
contam suas
viagens pelo País
Chiara Papali
Especial para a Folha2
‘‘Nóis é nove, mas tem um lugar pro senhor.’’ Esta foi a resposta que Jorge Baleeiro de Lacerda recebeu em 1977, quando visitava pela primeira vez a colônia de pescadores do Coqueiro, na costa do Piauí e procurava hospedagem. Baleeiro foi recebido pelo pescador Nestor Galeno com rede, peixe e farinha.
Anos mais tarde, em 1984, voltou ao local e a transformação era evidente: Nestor Galeno, que vivia da pesca do tubarão, do bonito e do cação, passou de pescador a corretor. Em apenas sete anos, Coqueiro havia se transformado no paraíso do turismo local e o pescador ganhava dinheiro vendendo terrenos na praia. Nem seus filhos continuaram seu ofício. Com a chegada da luz elétrica, do asfalto, das casas de alvenaria e da televisão, o conforto falou mais alto e foram seguir suas vidas em outros lugares, com outras profissões.
‘‘Histórias como esta retratam o Brasil’’, diz Jorge Baleeiro, que acaba de lançar ‘‘Os Dez Brasis’’, coletânea de artigos e ensaios que publicou durante 25 anos em jornais como Folha do Paraná/Folha de Londrina, Correio do Povo e Folha do Sudoeste. A maioria sobre suas andanças pelo País. A história do pescador Nestor Galeno, assim como muitas outras, estão presentes neste livro, com tiragem inicial de apenas 600 exemplares. ‘‘Eu reuni parte de meus textos para deixar registrado no livro, o jornal é muito efêmero’’, explica Baleeiro.
O autor selecionou 150 entre seus mais de 2.500 artigos, ensaios e reportagens para o livro, que também conta com 260 fotos feitas por ele. A maioria dos textos foi publicada na coluna semanal ‘‘Aldeia Global’’, que mantém desde 1976 no jornal Folha do Sudoeste. Foram aproveitados mais de 160 fotolitos que Baleeiro vem guardando durante esses anos. ‘‘Eu aproveitei quase todo o material produzido depois de 86. Muito do material produzindo antes disso se perdeu’’, diz. Na Folha, ele publica cartas-artigos desde 76 em média de duas a três cartas por semana.
Jorge Baleeiro acredita na existência de muitos Brasis. ‘‘Nós temos uma diversidade cultural muito grande’’, diz. A idéia do nome, segundo o autor, veio do livro de Jacques Lambert, ‘‘Dois Brasis’’, que faz um contraponto entre a região norte e a sul. Em seu livro, Baleeiro traz as regiões norte-Amazônia, nordeste, sudeste, centro-oeste e sul. Mas consegue capturar e mostrar ao leitor que o Brasil não pode ser simplesmente classificado e dividido. ‘‘Na Amazônia, por exemplo, as regiões são delimitadas pelos rios’’, explica.
Desde 1972 retratar o País se tornou uma missão. Baleeiro percorreu cada beco, cada lugarejo, cada rincão, procurando conhecer a vida e a cultura do povo brasileiro. Vivia das colaborações para os jornais. Antes de cada viagem pesquisava sobre a história, o folclore e a geografia da região onde iria. Nunca se hospedou em hotel. ‘‘Eu ficava em casas de família porque queria viver como as pessoas viviam’’, diz o autor, que acredita que a vivência aprofunda o conhecimento adquirido nos livros.
Por conta disto, Baleeiro já ficou em lugares muito pobres, segundo ele, ‘‘onde só havia açaí com farinha para comer’’. Afirma que em seus textos estão implícitas denúncias sociais. Mesmo assim, o autor, que já viajou para fora do País, afirma que não deixa o Brasil. ‘‘Eu morro de fome, mas não saio daqui’’, diz.

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