Pelos corredores da casa de Neruda
Valparaíso inspira. A poetas, românticos e vagabundos - não que tais qualificações não possam estar reunidas ao mesmo tempo numa única pessoa, vejam bem. Mas, na cidade que guarda uma das casas de Neruda, não é raro deparar-se com um marinheiro apaixonado mostrando a vista ao entardecer para sua namoradinha, enquanto um sujeito de barba desalinhada tenta convencer uma turista alemã, num inglês de sobrevivência, de que ele merece, sim, uma gorjeta - já que também faz parte do cenário que ela tentava fotografar.
Tem dessas coisas a única cidade chilena considerada, pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade desde 2003. Seu conjunto harmonioso de casarões do século 19, o velho porto, suas sinuosas ruas e vielas de cores vibrantes tomam quase todos os 45 morros em que Valparaíso está assentada. Muitos são os caminhos que podem ser percorridos nessa que é uma das preciosidades turísticas do país.
Para matar logo a curiosidade, a sugestão é seguir direto para La Sebastiana, uma das três casas de Neruda - as outras estão em Santiago e Isla Negra. Depois da morte do poeta, em 1973, a casa ficou fechada por 18 anos. Hoje, a entrada custa 2 mil pesos por pessoa (cerca de US$ 3,5). Peça o roteiro de visitação em português.
E siga em frente. Comece com a sala de memórias fotográficas, com imagens do tempo em que Neruda serviu como diplomata em Jacarta, Buenos Aires e Madri. A casa tem cinco andares e muitos detalhes, como as portas com vitrais e as janelas em forma de escotilha (o poeta era fascinado pelo mar).
Um cavalinho de carrossel enfeita a sala principal. Excêntrico, mas com todo o sentido: ''O menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que nele morava, e que lhe fará muita falta'', escreveu Neruda. Há outras tantas curiosidades, como o banheiro do bar, a mesa de trabalho do poeta, os mapas históricos do continente - o maior deles, de 1698, é uma relíquia e traz uma versão para explicar a origem do nome Chile. O melhor, contudo, é a vista que o poeta desfrutava da janela de seu quarto.
Ele avistava os telhados de Valparaíso, as ruas estreitas, o traçado desigual da cidadela, o Pacífico imenso, o ir-e-vir dos barcos, as luzes do anoitecer. Diante desse convite, encerre a visita a La Sebastiana e deixe-se levar pelas ladeiras, passarelas e elevadores da cidade.





