Pelos caminhos da memória
Origens, exposição de
Walton Hoffmann, é um
passeio pela memória afetiva
ReproduçãoWalton Hoffmann: Busco ícones que tenham significados para mimZeca Corrêa Leite
Desde sua participação no Salão Paranaense, em 1995, o pintor Walton Hoffmann pensava em expor em Curitiba, cidade onde ocasionalmente nasceu. Toda sua vida foi passada no Rio, embora o cenário do Batel tenha ficado nas memórias de infância. Seus avós maternos e paternos moravam nesse bairro, e deles recebeu enciclopédias, jogos centenários que, com o passar do tempo, foram parar em sua arte. Essa mistura de memória afetiva com o mistério do eco dos tempos pode ser vista na exposição Origens, na Fraletti Rubbo Galeria de Arte.
Por que Origens? Basta olhar a casa em frente à galeria, na Avenida Batel, 1.763. Era de sua bisavó. Muito próximas moravam sua avó e tia-avó. Os endereços - e histórias respectivas - se estendem pela Brigadeiro Franco, Francisco Rocha, e atravessam os sangues alemão e sueco dos pais.
Nas 18 telas e objetos em acrílica - sobre tela e sobre madeira - Walton dispõe figuras, silhuetas e imagens que reportam a um tempo em suspenso, impreciso nos calendários. Ícones retirados de publicações atuais e de enciclopédias que passaram de geração a geração, há mais de um século, recortes de figuras e projeção de sombras nas paredes, como costumava brincar com os avós - toda essa carga de lembranças é usada pelo artista.
DivulgaçãoObra
de
Walton
HoffmannBusco ícones que tenham significados para mim, embora muitos deles eu retire de jornais. Mas a maioria saiu das enciclopédias antigas, explica. Essa herança afetiva traz a marca do tempo, objetos que meu bisavô passou para minha avó, minha mãe brincou e que eu recortei, destruí e transformei em pintura.
Há cinco anos pintando profissionalmente, depois de abandonar a carreira de executivo de empresas internacionais, Walton Hoffmann se deu melhor com as tintas do que poderia imaginar. Os deuses estão sempre conspirando a meu favor, graças a Deus, ele diz. Quando comecei a trabalhar, segui uma linguagem que fosse identificada como minha, que não fosse copiada.
Amigo de longa data de Iberê Camargo, poderia fazer algo parecido com sua obra, ou então seguir a linha da ferrugem, que está na moda. Escolheu o caminho das pedras: Remei contra a maré: a pintura, hoje, deixa as pessoas com o pé atrás, afirma. Isto porque as instalações e objetos ganharam espaço e a pintura está sendo vistas com ressalvas tanto pelos artistas contemporâneos, como pelos curadores.
Porém, já na primeira exposição que realizou no Rio, Hoffmann teve dois trabalhos adquiridos por ninguém menos que Gilberto Chateaubriand, um dos maiores colecionadores do País.
Num tempo como este, em que qualquer bobagem é tida como arte, o verdadeiro artista é aquele que trabalha para o público. Esse negócio de artista fazer obra para artista é um conceito fora de moda, detona o pintor. Aquele que realmente tem estofo deve reunir críticas, público, mídia e, principalmente, comprador. Você faz o seu trabalho circular. Essa circulação é que dá credibilidade, afirma.
A crise econômica, de certo modo, separa os oportunistas dos que realmente fazem arte, continua Hoffmann. Tendo que ser seletiva nas compras, a pessoa pensa duas vezes antes de comprar qualquer besteira. Escolhe aquilo que acredita ser um bom investimento.
A filtragem se dá também em outros níveis, envolvendo curadores e galeristas. Walton comenta que os marchands não aceitam qualquer artista por uma questão de sobrevivência. Qualquer descuido nesse sentido pode ferir a credibilidade deles. Em última análise, este é um conjunto muito complexo e sensível; para funcionar tem que ter harmonia de uma orquestra.
Sobre a Bienal de São Paulo, é da opinião que realizações como esta ajudam a educar a visão do brasileiro. A edição deste ano, no Parque do Ibirapuera, traz uma particularidade que vale a pena ser constatada - de que a arte brasileira contemporânea faz mais bonito do que a arte de muitos países de primeiro mundo.
Ela está muito bem representada. Nota-se uma diferença grande da parte brasileira para a internacional. As pessoas sentem isso, até mesmo os leigos, encerra Hoffmann.
Origens - de Walton Hoffmann. Em cartaz na Fraletti Rubbo, Avenida Batel, 1.750, telefone 041/342-5009, em Curitiba. Até dia 21 de novembro.





