Pelos bairros de Curitiba (Wilson Bueno)
Uma palestra de Ravanshir Shagaiama é mais que uma palestra - é quase um olho aceso na tarde curitibana.
Sob este pressuposto, lá fomos nós, eu e meu amigo, o jornalista José Castello, ao auditório de uma obscura Sociedade Amiga das Tradições Orientais - SATO - recém-instalada numa casa modesta do bom bairro do Guabirotuba. O sábado era de sol, o verão de fevereiro convidava à vadiação dos bairros da cidade e Curitiba, quando quer, nos incita, pedestres, a andar-lhe os arrabaldes alguma vez misteriosos.
Renunciando aos prazeres do lar, a cada vez mais prazeirosos, denuncie-se, não sem prosaica ternura - eu, os ócios de minha casa polaca da Vila Tingui e Castello, os de sua cobertura no Jardim Botânico, combinamos um ponto no centro da cidade e dali nos enfiamos num táxi. A hora tardava, e uma palestra de Ravanshir Shagaiama será sempre uma palestra de Ravanshir Shagaiama, não admitindo atrasos nem hesitações.
Não precisa acrescentar que além de chegarmos atrasados, sobraram, no caminho, as hesitações: tendo confundido Guabirotuba com Uberaba, o táxi tocou em direção da Avenida das Torres. Numa animada conversação sobre os druidas, só percebemos o engano quando o motorista, um pretinho sorridente e cheio de atenções, dirigindo-se a Castello, que era quem detinha o endereço de Ravanshir Shagaiama anotado atrás de um castigado cartão de visitas, perguntou: Onde mesmo do Uberaba? - Uberaba???, pasmamos, os dois, em uníssono, e interrompidos.
Algum tempo depois, com o motorista teimando que Castello mandara seguir para o Uberaba, e Castello que dissera com todas as letras Gua-bi-ro-tu-ba, chegamos a um consenso: dividia-se fraternalmente o prejuízo - o motorista, Castello e eu. Cada qual com o seu quinhão de responsabilidade- enunciou, de inopino, o motorista pretinho, filosófico e superior.
Em silêncio seguimos o que seria o restante do caminho, os olhos fixos na paisagem, por um momento esquecidos dos druidas, pois, afinal e ao cabo, seguíamos a uma palestra de Ravanshir Shagaiama, monge e guru, e quem vai a uma palestra de Ravanshir Shagaiama, monge e guru, vai a uma palestra de Ravanshir Shagaiama, monge e guru. O que parece uma coisa simples mas não é.
Impensável foi quando, ainda meio alheado - já disse que o sábado convidava ao devaneio -, José Castello rodou, com esforço, a maçaneta emperrada, para descer de todo o vidro, e exclamou, sumamente amoroso: Nossa, como é bonito o Guabirotuba!. O pretinho fez o ar mais insolente do mundo: Meu senhor, não se diz Guabirotuba. A pronúncia é Guarietuba. Jardim Guarietuba. Antes que Castello elogiasse o farto saber dos motoristas de táxi de Curitiba, bati ao ombro do nosso condutor: Mas, meu amigo, nós queremos ir para o Guabirotuba! Guabirotuba!
Não precisa informar que recomeçamos da estaca zero: o motorista insistia em que mandamos tocar do Uberaba para o Guarietuba e não para o Guabirotuba. Já nem querendo mais participar da discussão, nós os curitibanos que nos entendêssemos, Castello só olhava aflito do cartãozinho amarfanhado para o relógio e deste para o cartãozinho.
Também consultando as horas, gelei: a palestra de Ravanshir Shagaiama já devia ter começado. Marcada para as três da tarde, deveria começar quinze minutos mais cedo com uma espécie de meditação, e o meu relógio marcava três e vinte. Antes que Castello pedisse, com a polidez que lhe é peculiar, que o motorista imprimisse um pouco mais de velocidade ao veículo, me flagrei, meio histérico, perguntando ao pretinho se ele sabia ou não sabia onde era o Guabirotuba.
A noite anterior, num telefonema, Castello chegara a me perguntar, excitado, se Ravanshir ia mesmo ensinar técnicas de levitação, conforme o anunciado no prospecto da sociedade esotérica. Confirmei que ensinar ele ensinaria, o que não significava que algum de nós viesse efetivamente a aprendê-las. Percebi que o Castello ficou meio desestimulado depois disso.
Chegando enfim ao bairro, à rua e ao número anotados no cartãozinho, vimos que uma pequena multidão se espremia à frente da casa, aos gritos de tira, tira. Tira o quê? - perguntei, incrédulo, ao Castello, antes mesmo de descer do táxi. Ah, vamos lá ver- atalhou, descendo, súbito, em direção da turba e se esquecendo até mesmo do seu quinhão de responsabilidade junto ao motorista.
Ato contínuo, ei-lo que volta dobrando-se em dois de tanto rir: É tudo uma palhaçada! Não é o monge, não. É o streep de uma dançarina da terceira idade.
Terceira idade? Como?- eu não entendia mais nada.
Isto até entender menos ainda quando o motorista que, já alertei, era filosófico e superior, engantando a primeira, lançou no ar um indagação cândida: Este tal de indiano não é um lá do Atuba?
Atuba??? - eu e o meu amigo José Castello, no banco de trás do táxi, de novo, em uníssono, pasmamos.





