Arquivo FolhaZezé Polessa: romã e gengibreA fonoaudióloga e professora Izabel Cristina Viola, de São Paulo, concluiu recentemente uma tese de mestrado sobre a influência da crendice popular na cura para males que afetam o bom desempenho da voz. Foram colhidos 40 depoimentos de atores, radialistas, cantores e professores, como os de Zezé Polessa, Louise Cardoso, Cristina Pereira, Antonio Grassi, José Carlos Guedes, Gioconda Bordon, entre outros. Um dos capítulos aborda os segredos para se manter a garganta em forma como beber chá de romã ou mascar gengibre. Ela também aponta o que fazer para se ter uma voz saudável.
Na tese ‘‘Crenças Populares no Tratamento das Alterações Vocais em Profissionais da Voz’’, Izabel aponta que são os professores os menos preocupados em cuidar da voz. Entre os entrevistados, as ‘‘fórmulas’’ populares que tiveram maior destaque foram: a mistura de água e sal, gengibre, mel, própolis, água pura, romã e suco de frutas. Algumas pessoas preferem o gargarejo com vinagre ou água com sal e outras manter o pescoço aquecido com echarpe ou similar. Este é o caso, por exemplo, da atriz Louise Cardoso, que usa sempre um lenço ou echarpe para proteger o pescoço. Ela também costuma adotar a antiga receita de colocar um pano embebido com álcool na garganta, ao sinal de qualquer problema na região, além de tomar própolis com mel e limão e fazer gargarejo com soro fisiológico.
Bênção ‘‘Há, também, as crenças relacionadas à religião, como rezar para Nossa Senhora da Cabeça e benzer o pescoço no dia de São Brás. E, finalmente, os resguardos físicos, como evitar sair no sereno’’, lembra. O radialista Luiz Lopes Corrêa acredita que é necessário ter uma profunda organização entre as técnicas de falar e respirar. ‘‘É bom treinar a voz pensando em usá-la em causas humanísticas. Assim, tem-se uma voz pura, cristalina e menos sujeita a qualquer ataque psicológico negativo em ambientes contrários’’, comenta o locutor, que também toma uma colher de mel diariamente.
Arquivo FolhaLouise Cardoso: pano com álcool
Conforme a pesquisadora, a medicina popular é o conjunto de convicções de ordem médica que o sujeito, independente da classe social a que pertence, cria em conjunto com o seu grupo, especialmente os colegas e a família, e que não estão à prova das pesquisas científicas. ‘‘No Brasil, a medicina popular recebeu influências das culturas indígena, africana e portuguesa. Essas práticas diversas podem ser examinadas sob os aspectos espiritual e material’’, anuncia. Para Izabel, o aspecto espiritual refere-se aos ritos mágicos dos pajés e às divindades africanas e o material aos recursos fitoterápicos indígenas e da medicina européia veiculada pelos portugueses.
Poder de cura Foi justamente o fato desses hábitos não fazerem parte do universo científico que chamou a atenção da fonoaudióloga. ‘‘Nós, profissionais que trabalhamos com a voz, acabamos desmerecendo estas técnicas populares. A partir disso levantei na literatura sobre o assunto as referências citadas, e pesquisei diversas áreas do conhecimento, como a farmacologia, botânica, sociologia e fonoaudiologia. A medicina popular está tão incorporada no dia-a-dia que as pessoas nem se dão conta disso’’, considera.
Conforme Izabel, apesar de alguns autores acharem que as práticas populares representam uma oposição à medicina tradicional, todas as sociedades possuem algum sistema de crenças médicas independente da comprovação científica do poder de cura. O ator Antônio Grassi, por exemplo, costuma fazer gargarejo com casca de romã, e o radialista José Carlos Guedes, com água morna, limão e sal. Outra que gosta de melhorar a voz com romã é a atriz e médica Zezé Polessa, que também ingere normalmente gengibre. ‘‘A romã, no entanto, deve ser usada com muita cautela. Ela contém a substância tanino, que pode ser prejudicial se consumida demasiadamente. Em chás muito fortes, por exemplo’’, alerta.
Estes são, acima de tudo, procedimentos que dão segurança, conta Izabel. São formas que as pessoas encontram para se reorganizar psiquicamente. ‘‘Além de um possível efeito curativo físico, as crenças populares têm efeito psicológico. Também atuam com objetivo preventivo, usadas de forma até ritualística’’, declara.

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