Pelo bem da Igreja e do Estado
Pelo bem da
Igreja e do Estado
Um passeio pela exposição dos instrumentos de tortura é suficiente para questionar se a barbárie é algum traço inerente da personalidade humana. Se assim não for, como é possível que tantas maneiras de humilhar, mutilar e matar, da forma mais lenta e dolorosa possível, tenham sido e continuem sendo criadas?
Boa parte dos objetos expostos é original, pertencente ao período da Inquisição - compreendido entre os anos de 1186 até por meados de 1850. Alguns foram restaurados e apenas quatro ou cinco são réplicas feitas a partir de descrições encontradas em documentos. Segundo o historiador Franco Gentili, a peça mais antiga nesta mostra é a Cadeira da Inquisição, datada de 1198. A cadeira, revestida por 1.600 pregos, era usada para obter confissões de culpa. Nela, o réu sentava nu. Ao menor movimento, os pregos penetravam no corpo, provocando dores horríveis.
Gentili explica que oficialmente a Inquisição só começou no ano de 1231. Mas, na verdade, a Inquisição começou bem antes, em 1186, depois que o Papa Lúcio III firmou acordo com o Imperador Frederico Barba Ruiva. Este acordo previa que todos os bens do réu confesso deveriam ser confiscados, sendo divididos entre Igreja e Estado. Então não precisava muito para ser acusado de heresia. Todas as pessoas ricas corriam o risco - conta.
Duas partes Segundo ele, os instrumentos de tortura surgiram para que a vítima confessasse seus crimes, indepentemente de tê-los cometido ou não. A Igreja e o Estado só poderiam ficar com os bens do réu se ele confessasse. Assim, os instrumentos de tortura eram os instrumentos de confissão - conta.
Outro raro exemplar da criatividade sádica exposto é a Roda Alta, um instrumento muito usado durante a Baixa Idade Média até o século 18, na Europa Alemã. Este instrumento era destinado a manter a ordem pública, punindo assassinos, ladrões e estupradores. O suplício era dividido em duas partes. Na primeira, a vítima era deitada sobre troncos e, com uma roda de ferro, tinha as junções das pernas e braços esmagados, mas nenhum ferimento mortal era provocado.
Na segunda parte da tortura, o corpo era dobrado sobre si mesmo e amarrado sobre uma roda de carroça fixada horizontalmente sobre um poste. A morte era prolongada o máximo possível. Os melhores carrascos, na visão da época, eram aqueles que faziam o condenado sofrer por muito tempo. Estes eram pagos regiamente e disputadíssimos - afirma Franco Gentili.
Humilhação pública Também estão na mostra a Cadeira da Bruxas, o Balcão de Estiramento, a Guilhotina, a Mesa de Esviceração e muitos outros instrumentos, mortais ou não. A tortura não era só para infligir dor e causar a morte. Haviam instrumentos de humilhação e execração pública. Os adúlteros, as mulheres briguentas e outros crimes menores eram punidos com a berlinda, a máscara ou a cegonha - diz. Todas as peças são acompanhadas por um texto onde está explicada sua utilização e com ilustrações que dão uma idéia - bem arrepiante - de como era usado.
Mas, de todos, o que chama mais atenção na mostra é a Virgem de Nuremberg, datada de 1515. Esta peça é fruto da hipocrisia medieval. Até então, as execuções públicas eram os espetáculos de diversão da população. As pessoas se reuniam na praça para ver os condenados serem mortos como hoje assistimos uma apresentação de circo. Mas o Bispo de Nuremberg decretou que não era cristão ver as pessoas morrer e mandou construir este instrumento - conta. Nele, uma espécie de sarcófago, o prisioneiro era espetado por lâminas - nunca em locais do corpo que pudesse resultar em ferimentos mortais - e preso ali até morrer.
E se a gente se horroriza de imaginar o sofrimento que era infligido por estes instrumentos, a declaração final de Gentili arrepia muito mais: Todos os exércitos do mundo ainda hoje mantêm um esquadrão especializado em tortura para agir em caso de guerra. A mente dos homens que criaram estes instrumentos não é diferente da mente dos homens de hoje. Brrrrrrr!!!
(T.E)





