PELLEGRINI, PREMIADO
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quinta-feira, 17 de maio de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina 
Objetivo, seco e direto. Tão árido como a realidade ou simplesmente explosivo como o cinema humanista de Sam Peckinpah (Pistoleiros do Entardecer, Sob o Domínio do Medo). Semi-recluso há quatro anos em sua Chácara Chão, situada na Zona Norte de Londrina, o escritor Domingos Pellegrini recebe aos 52 anos seu segundo Jabuti. Segundo a Folha, ele será contemplado com o primeiro lugar na categoria romance. O escritor vai receber o prêmio amanhã, no Rio de Janeiro, durante o lançamento da 10º Bienal Internacional do Livro. Ele encara a premiação com muita simplicidade. Sabe que é um reconhecimento importante a uma obra fundada em variações de um mesmo tema: a guerra implícita que se trava entre a sociedade organizada e a sua metade desorganizada - ou mal intencionada, para os mais diretos.
Agraciado com o Jabuti em 1977, por O Homem Vermelho sua primeira obra o escritor guarda até hoje o primeiro prêmio já desgastado pelo tempo. Meu filho brincava com ele, relembra. Ele não mistifica o Jabuti oferecido pela Câmara Brasileira do Livro sabe de sua importância no mercado editorial nacional mas não o compararia a premiações de outros países.
O livro que justificou o reconhecimento é O Caso da Chácara Chão, um romance policial. Mostra a história de um homem assaltado em sua prórpia chácara, e que, pelas reviravoltas do destino, acaba sendo o principal acusado. Uma trama clássica, levada ao extremo por Alfred Hitchcock em O Homem Errado (The Wrong Man), apesar de Pellegrini não apontar nenhuma influência no cinema noir dos anos 50, nem na estilizada literatura policial americana, leia-se Raymond Chandler e Dashiell Hamett. O autor confessa inspiração na realidade, onde observa o caos emblematizado em uma polícia corrupta, despreparada, sem o vigor moral e técnico para executar a vigilância de qualquer sociedade. Uma justiça que privilegia o infrator, dificultando o prejudicado. Funcionários públicos que se beneficiam com migalhas. Pessoas de bem que se tornam omissas.
Mas a culpa não se restringe a poucos grupos, garante. O comodismo, sintoma tão comum quanto aceitável pelo brasileiro médio, resulta na maior catástrofe para um povo: o desapego a si mesmo. Pellegrini, polêmico no dia-a-dia de sua cidade, não entende por que tantos desgovernam órgãos públicos, enquanto outros são desgovernados sem evidenciar preocupação. Uma síndrome de nossa época? Não, a humanidade sempre foi assim, constata.
Ao lado de sua querida cachorra Maga, personagem constante em suas crônicas dominicais em um jornal local, o autor divide o seu cotidiano em literatura e dedicação à natureza. Universos distintos mas que se mesclam em um ponto irreconhecível, por consequência inclassificável. Este ponto, caótico por excelência, é organizado sob o olhar de Pellegrini, adquirindo a estrutura lógica da literatura que tão bem dimensiona a realidade. Seria então sua literatura um jornalismo mais aprofundado? Não, ele vê semelhanças nos dois discursos, mas ressalta a distinção. A realidade inegavelmente é sua matéria-prima, por isto não estende a reclusão aos limites de John Salinger, Raduan Nassar, José Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e demais escritores anacoretas. O rádio, a internet e a TV o conectam ao dia após o outro londrinense, mostrando a proximidade entre casos policiais e políticos cada vez menos diferenciados, como comprova o escândalo da gestão do ex-prefeito Antônio Belinati.
Um dia na vida do escritor se inicia com a tomada das notícias e a dedicação ao escrever. Ele requer o silêncio eloquente da natureza, atingindo o fluxo maravilhoso que só o criar artístico permite. Tece algumas linhas por cerca de três ou quatro horas e logo parte para outras atividades, físicas, de preferência. Pellegrini não abandona seus escritos ao primeiro parto. Reescreve seus livros por várias vezes, caso do épico Terra Vermelha, finalizado em 92 e publicado apenas em 97, após sete revisões.
Afoito pelo universo das letras desde pequeno, quando lia um pouco de tudo, Pellegrini construiu um estilo narrativo sem influências explícitas, mas direcionadas a um modelo iniciado pelo grande Ernest Hemingway: a morte dos adjetivos. Essa objetividade que influenciou boa parte da literatura brasileira do século XX - Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, Raduan Nassar e o econômico por excelência, Dalton Trevisan, é visível na obra do autor e em sua vida.
O escritor não sabe o que esperar da literatura do século XXI. Pós-modernismo? Não acredita em nada mais que termine em ismo: socialismo, capitalismo, islamismo. Só crê nos vocábulos que finalizam com o sufixo ade: liberdade, verdade, honestidade.
Posicionado, sem medo de ser contestado, Pellegrini mostra em vida e obra uma incessante indignação à falta do belo e do verdadeiro, princípios clássicos, hoje mais restritos aos poucos espíritos nobres que sobrevivem. O nosso Peckinpah das letras é abusado e sábio como o cineasta, inteligente e nobre. Um artista.


