Objetivo, seco e direto. Tão árido como a realidade ou simplesmente explosivo como o cinema humanista de Sam Peckinpah (‘‘Pistoleiros do Entardecer’’, ‘‘Sob o Domínio do Medo’’). Semi-recluso há quatro anos em sua Chácara Chão, situada na Zona Norte de Londrina, o escritor Domingos Pellegrini recebe aos 52 anos seu segundo Jabuti. Segundo a Folha, ele será contemplado com o primeiro lugar na categoria romance. O escritor vai receber o prêmio amanhã, no Rio de Janeiro, durante o lançamento da 10º Bienal Internacional do Livro. Ele encara a premiação com muita simplicidade. Sabe que é um reconhecimento importante a uma obra fundada em variações de um mesmo tema: a guerra implícita que se trava entre a sociedade organizada e a sua metade desorganizada - ou mal intencionada, para os mais diretos.
Agraciado com o Jabuti em 1977, por ‘‘O Homem Vermelho’’ – sua primeira obra – o escritor guarda até hoje o primeiro prêmio já desgastado pelo tempo. ‘‘Meu filho brincava com ele’’, relembra. Ele não mistifica o Jabuti – oferecido pela Câmara Brasileira do Livro – sabe de sua importância no mercado editorial nacional mas não o compararia a premiações de outros países.
O livro que justificou o reconhecimento é ‘‘O Caso da Chácara Chão’’, um romance policial. Mostra a história de um homem assaltado em sua prórpia chácara, e que, pelas reviravoltas do destino, acaba sendo o principal acusado. Uma trama clássica, levada ao extremo por Alfred Hitchcock em ‘‘O Homem Errado’’ (The Wrong Man), apesar de Pellegrini não apontar nenhuma influência no cinema noir dos anos 50, nem na estilizada literatura policial americana, leia-se Raymond Chandler e Dashiell Hamett. O autor confessa inspiração na realidade, onde observa o caos emblematizado em uma polícia corrupta, despreparada, sem o vigor moral e técnico para executar a vigilância de qualquer sociedade. Uma justiça que privilegia o infrator, dificultando o prejudicado. Funcionários públicos que se beneficiam com migalhas. Pessoas de bem que se tornam omissas.
Mas a culpa não se restringe a poucos grupos, garante. O comodismo, sintoma tão comum quanto aceitável pelo brasileiro médio, resulta na maior catástrofe para um povo: o desapego a si mesmo. Pellegrini, polêmico no dia-a-dia de sua cidade, não entende por que tantos desgovernam órgãos públicos, enquanto outros são desgovernados sem evidenciar preocupação. Uma síndrome de nossa época? Não, a humanidade sempre foi assim, constata.
Ao lado de sua querida cachorra Maga, personagem constante em suas crônicas dominicais em um jornal local, o autor divide o seu cotidiano em literatura e dedicação à natureza. Universos distintos mas que se mesclam em um ponto irreconhecível, por consequência inclassificável. Este ponto, caótico por excelência, é organizado sob o olhar de Pellegrini, adquirindo a estrutura lógica da literatura que tão bem dimensiona a realidade. Seria então sua literatura um jornalismo mais aprofundado? Não, ele vê semelhanças nos dois discursos, mas ressalta a distinção. A realidade inegavelmente é sua matéria-prima, por isto não estende a reclusão aos limites de John Salinger, Raduan Nassar, José Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e demais escritores anacoretas. O rádio, a internet e a TV o conectam ao ‘‘dia após o outro’’ londrinense, mostrando a proximidade entre casos policiais e políticos cada vez menos diferenciados, como comprova o escândalo da gestão do ex-prefeito Antônio Belinati.
Um dia na vida do escritor se inicia com a tomada das notícias e a dedicação ao escrever. Ele requer o silêncio eloquente da natureza, atingindo o fluxo maravilhoso que só o criar artístico permite. Tece algumas linhas por cerca de três ou quatro horas e logo parte para outras atividades, físicas, de preferência. Pellegrini não abandona seus escritos ao primeiro parto. Reescreve seus livros por várias vezes, caso do épico ‘‘Terra Vermelha’’, finalizado em 92 e publicado apenas em 97, após sete revisões.
Afoito pelo universo das letras desde pequeno, quando lia um pouco de tudo, Pellegrini construiu um estilo narrativo sem influências explícitas, mas direcionadas a um modelo iniciado pelo grande Ernest Hemingway: a morte dos adjetivos. Essa objetividade que influenciou boa parte da literatura brasileira do século XX - Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, Raduan Nassar e o econômico por excelência, Dalton Trevisan, é visível na obra do autor e em sua vida.
O escritor não sabe o que esperar da literatura do século XXI. Pós-modernismo? Não acredita em nada mais que termine em ismo: socialismo, capitalismo, islamismo. Só crê nos vocábulos que finalizam com o sufixo ade: liberdade, verdade, honestidade.
Posicionado, sem medo de ser contestado, Pellegrini mostra em vida e obra uma incessante indignação à falta do belo e do verdadeiro, princípios clássicos, hoje mais restritos aos poucos espíritos nobres que sobrevivem. O nosso Peckinpah das letras é abusado e sábio como o cineasta, inteligente e nobre. Um artista.

mockup