Pela primeira vez, em dose dupla
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de novembro de 2008
Por Franthiesco Ballerini<br> Agência Estado 
Aos 75 anos, Ary Fontoura aparece para o público em dose dupla. Além do misterioso Silveirinha, de ''A Favorita'', acaba de estrear como uma senhora no filme ''A Guerra dos Rocha''. Nesta entrevista ele fala dos papéis que perdeu no cinema, preconceito, vaidade e crise da TV.
Qual sua reação quando foi convidado para fazer o papel de uma senhora no cinema?
Primeiramente, eu quis saber por que. ''Meu Deus, será que este personagem vive um conflito de personalidade?'' Fui atrás de filmes como ''Tootsie'', em que o Dustin Hoffman se veste de mulher, e ''Uma Babá Quase Perfeita'', em que o pai se veste de mulher para ficar perto dos filhos. Em princípio, a produção convidou algumas atrizes, como Fernanda Montenegro, que não aceitaram. Daí resolveram seguir o esquema argentino, com um homem no papel.
E como foi se depilar para fazer o personagem?
Eu tenho uma sobrancelha muito volumosa e tive de ficar quatro horas para depilá-la. Ela estava interferindo na imagem. As mulheres são definitivamente o sexo forte. Precisa ser ''macho'' pra se depilar...
Por que o senhor fez tão pouco cinema em sua carreira?
Desde que cheguei ao Rio, em 1964, eu emprestei minha figura à Globo e de lá nunca saí. Nunca parei de trabalhar em novelas. As oportunidades para fazer filmes sempre surgiram, mas eu estava sempre 10 meses comprometido com uma novela, e não podia tirar um bigode ou pintar o cabelo porque o personagem da TV não permitia. Acabei deixando de fazer excelentes papéis no cinema.
Quais, por exemplo?
Perdi grandes oportunidades, como ''Dona Flor e Seus Dois Maridos'', para o qual tinha sido o primeiro escolhido para viver o papel que ficou para o Mauro Mendonça. Deixei de fazer ''Xangô de Baker Street''. Enfim, perdi papéis importantes no cinema porque lamentavelmente eu estava envolvido com novela.
A TV exige muito tempo do ator. Mesmo sendo um veterano que pode se dar ao luxo de fazer opções na carreira, nunca quis mais espaço para projetos fora da TV?
Sempre quis diversificar. Mas não me agrada muito fazer um trabalho na TV junto ao teatro, isso cansa e nenhum dos dois papéis fica bom. É nas férias da TV que eu aproveito o teatro ou o cinema. Mas hoje não quero mais fazer isso, quero me dedicar só às novelas. Mas quando ''A Favorita'' terminar, aí eu vou tirar um bom tempo de férias e, quem sabe, me dedico a outros projetos. Uma coisa de cada vez, sempre.
Seu personagem Silveirinha, em ''A Favorita'', começou com grande peso na novela e agora vem servindo de ''escada'' para as lamentações da Flora (Patrícia Pillar). Isso incomoda?
Meu personagem não diminuiu, ao contrário, aumentou em termos de responsabilidade. Ele começou muito brando, lentamente, como o combinado com o autor. Não se sabia ao que veio. Agora, está no auge, está envolvido com tudo.
Há quem acredite que o Silveirinha vá dar um golpe na Flora, ele lança olhares desconfiados e de dupla interpretação. Você acha isso possível?
Sim. (silêncio).
Fala mais!
Se eu não estivesse recebendo só os capítulos da semana e se eu soubesse o que se passa na cabeça do João Emanuel Carneiro, aí eu poderia te falar. Mas eu nem sequer o conheço pessoalmente. Só digo que novela é aberta e nem ele sabe ao certo o destino final do papel. Acho que o Silveirinha tem um caráter escorregadio.
Como ator de TV, como vê a crise de audiência que assola os canais no mundo inteiro?
Há uma crise de qualidade em todos os meios, não só na TV aberta. Há pouca gente escrevendo produtos de qualidade e há falta de assuntos que chamem a atenção do público. A TV é imediatista, ligada ao anunciante, então nem sempre os escritores fazem o que querem fazer nela. O nível cultural do brasileiro também não ajuda. As pessoas estão lendo cada vez menos, com um vocabulário cada vez mais pobre. Se os novelistas colocarem palavras refinadas na novela ninguém vai entender porque hoje em dia as pessoas não têm nem dicionário em casa.
Teve o apoio dos seus pais quando quis ser ator?
Não, na minha época era uma profissão maldita. Ator era tachado de gay e mulher de prostituta. Há até pouco tempo, as atrizes tinham que tirar carteira de saúde semanalmente como as prostitutas. Hoje, somos celebridades, graças à TV.
Não pensa em parar de trabalhar?
Para que parar? Estou com a máquina ajeitadinha, adoro tratamentos modernos, tenho personal trainer, faço regime para perder a pancinha, sou vaidoso, gosto de me ver no espelho. Enfim, gosto de aproveitar o que me resta ainda da vida.


