Aparentemente, o jeito de fazer Alexandre Nero parar de "roubar a cena" tem sido fixá-lo no posto de protagonista. Tanto é que, em "A Regra do Jogo" (próxima novela das nove, que estreia dia 31), ele repete a função que exerceu em "Império".
Aos 45 anos, o ator se equilibra entre a modéstia e a autopromoção ao analisar uma carreira que segue em uma crescente desde sua estreia em novelas, em "A Favorita", de 2008. "Demorei a investir na televisão. Mesmo inexperiente, estava muito seguro do que queria fazer quando tive a primeira oportunidade. Só não sabia que as coisas iriam acontecer de forma tão legal. Em sete anos, minha vida mudou completamente. Não me canso e estou sempre pronto para a próxima", ressalta.
Na trama assinada por João Emanuel Carneiro – mesmo autor de seu trabalho de estreia –, Nero dá vida ao misterioso Romero Rômulo, um homem que faz de tudo para parecer o herói de seu povo. Mas, na verdade, não passa de um bandido tentando salvar a própria pele. No caminho, ele se divide entre os amores da correta Tóia e da igualmente torpe Atena, personagens de Vanessa Giácomo e Giovanna Antonelli. "Apesar de estar sempre mentindo, ele é um homem que sabe amar. Mas são amores diferentes. Ele se apaixona pela pureza e garra da Tóia. Já com a Atena, o amor tem um pé na vingança, pois ele acaba caindo em um golpe dela", entrega.
Curitibano radicado no Rio de Janeiro, Nero exibe a versatilidade e o foco de um ator que realmente sabe o que quer. O profissionalismo e a disponibilidade o tornaram "queridinho" de autores como Glória Perez e Aguinaldo Silva, responsáveis por tipos que elevaram o patamar de Nero dentro da Globo, como o raivoso Baltazar, de "Fina Estampa", e o enrolado Stênio, de "Salve Jorge". "Para mim, não tem tempo ruim. Respeito meu trabalho e meu contrato com a Globo. Até se pintar duas novelas ao mesmo tempo e for possível conciliar, eu topo", brinca.

Você poderia ter tirado férias após protagonizar "Império", mas preferiu aceitar o convite para "A Regra do Jogo". O que o atraiu para o projeto?
Eu gosto de trabalhar. E quis mesmo ir na contramão daquela "lenda" de que atores precisam descansar a imagem entre uma novela e outra. Acho isso uma grande besteira. Se o personagem for bom e completamente diferente do anterior, como é o caso do Romero, rola até uma chance de exercitar sua atuação perante o público. Ando nas ruas e as pessoas ainda brincam com os trejeitos e o modo de falar do Comendador. Então, minha missão é fazer todo mundo esquecer o papel anterior, mesmo ele sendo recente. E, sinceramente, acho que o Romero tem artilharia certeira para me ajudar nessa empreitada.

Por quê?
Ele é aquele cara sem muitos escrúpulos, que faz de tudo para parecer bonzinho. Não consegue se ver ou apresentar de outra forma que não um legítimo defensor dos fracos e oprimidos. Mas isso, é claro, é só capa. Ele só pensa nele, sempre foi assim. Então, a vida desse cara é uma corda bamba. Ele faz bem para os outros? Sim. Mas só se isso for trazer algo proveitoso para a vida dele. É um sujeito errante, ambíguo, uma visão muito próxima do que nós somos no cotidiano.

Essa fuga do maniqueísmo também era uma forte característica de José Alfredo em "Império". Como você faz para distanciar os personagens?
Não é preciso muito esforço. O José Alfredo teve seus erros, mas era um sujeito extremamente bom, justo e generoso. Fora que era um homem denso, extremamente teatral e pai de família. Meu maior compromisso em "Império" foi acreditar e fazer o público crer também que eu poderia interpretar o pai de personagens defendidos por atores como Caio Blat e Andréia Horta. Para isso, deixei de fazer a barba, engordei 10 quilos e tinha um gestual pesado. Aqui o esquema é totalmente avesso. Romero é leve, gatuno e oportunista. São errantes bem diferentes.

O primeiro nome pensado para Romero foi o de Murilo Benício, mas ele saiu da novela pouco antes das gravações. Foi complicado se apropriar do papel?
Assim que o Murilo saiu, a Globo começou a procurar um substituto. Para mim, foi bem tranquilo. Inicialmente, eu teria mais tempo de preparação, mas a novela teve a estreia adiantada e fui com o que tinha para o estúdio. Amora (Mautner, diretora) e o João Emanuel (Carneiro, autor) foram extremamente generosos, me falaram o que eles queriam e eu dizia o que conseguiria entregar. Dessa forma, os anseios foram se encontrando. Por fim, acabou que não me sinto substituindo. O caminho que a minha versão do Romero tomou é bem diferente.

O que você agregou ao personagem?
O Murilo não chegou a gravar, mas, pelos ensaios com os outros atores, acho que elevei um pouco mais as doses de malandragem e ironias do Romero. O texto não foi modificado, mas converso muito com a direção na hora de gravar. Poderia muito bem me ater ao que está escrito no roteiro e fazer o óbvio, mas não sou esse tipo de ator. Sempre preciso de algo mais.

Você estreou como protagonista após os 40 anos. Foi algo inesperado para você?
Acho que não só para mim como para todo mundo (risos). Eu sei muito bem que isso também quase não aconteceu. Estreei na tevê e já tinha passado dos 30 anos. A Globo não me via como protagonista e acho que nem eu conseguia enxergar isso. E tudo isso aconteceu por conta da aposta e insistência do Aguinaldo Silva. Ele bateu o pé e disse que a novela só funcionaria se fosse comigo. Acho que ele estava certo quanto ao fato de eu conseguir segurar um papel principal. Minha escalação para "A Regra do Jogo" chega para confirmar isso.

Outras frentes

Só atuar não é o bastante para Alexandre Nero. Ansioso e sempre com algo a dizer, ele utiliza a música e suas opiniões mais íntimas sobre sexo para se mostrar ao público de outras maneiras. A paixão pela música é antiga, mas desenvolvida de forma independente. Sem contrato com gravadoras, Nero e sua banda utilizam a internet para divulgar canções inéditas e versões despojadas de sucessos. "Música para mim é coisa séria. Eu sempre estou pensando em algo diferente, mas me falta tempo para investir. Agora, por exemplo, só volto a fazer shows depois que a novela acabar", conta.
Já as peripécias e desejos sexuais do ator puderam ser vistas ao longo das temporadas do "Amor & Sexo", do qual Nero faz parte do elenco fixo. Com a produção funcionando por temporada, ele espera ter a possibilidade de estar na bancada do programa quando retornar à grade. "Adoro estar entre amigos falando sério e brincando com um assunto tão inerente à humanidade. Espero que consiga participar quando o programa voltar", torce. (G.B.)

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