Pela poética da voz
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Maturidade é um conceito subjetivo, mas no caso da cantora carioca Adriana Peixoto ela parece ter chegado agora, aos 34 anos, depois de 15 anos de carreira musical nas noites de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em seu CD de estreia, a cantora mostra um repertório focado na MPB, privilegiando samba, samba-canção, balada romântica e samba-rock, incluindo sete inéditas de compositores consagrados e três regravações (com participação especial de Cauby Peixoto em Altos e Baixos).
Foi o próprio Cauby Peixoto, tio de Adriana, que afirmou que ela já estaria pronta para gravar um disco; quase ao mesmo tempo, tal observação também foi feita pelo compositor Miltinho pouco antes do selo independente Studium Brasil convidá-la no ano passado para o projeto de gravar o seu primeiro CD. Foi um presente dos deuses. Tudo foi muito rápido e ao mesmo tempo e não esperava que isso fosse acontecer agora, afirmou Adriana, que concorre atualmente no Prêmio Multishow dentro da categoria de cantora revelação.
Vinda de uma família tradicional no cenário musical brasileiro, seria difícil Adriana não dar vasão à sua veia artística: ela é filha do pistonista Araken Peixoto (falecido em fevereiro do ano passado) e sobrinha do maestro Moacyr Peixoto e do cantor Cauby Peixoto. Além disso, é sobrinha-neta do compositor e pianista Nonô, que acompanhava entre outros, Noel Rosa e Carmen Miranda, e prima do sambista Ciro Monteiro e de Dalmo Rodrigues, do grupo MPB4. Tem gente que me questiona se essa família musical não é um peso para mim. Pelo contrário, é uma herança maravilhosa Deus ter permitido que eu nascesse nesse meio, onde pude aprender tanto, ressaltou.
E o gosto pela música veio da infância. Entre os presentes que ganhava dos pais, os instrumentos musicais eram os mais frequentes e uma das suas brincadeiras preferidas era fingir de cantora ouvindo os discos dos pais e dublando as vozes em que o cabo da enceradeira era o seu grande microfone. Aos 17 anos, a faculdade de musicoterapia foi sua primeira tentativa de ser diplomada; depois vieram as faculdades de administração e comércio exterior, todas abandonadas para dar espaço à arte de cantar. Pensava em estudar, mas não queria abandonar a música. No fim, desisti e vi que já estava diplomada na escola da noite, brinca Adriana, com seu jeito tímido.
E a escolha não deixou a desejar. O que Adriana mostra em seu disco de estreia é uma voz encorpada, forte e emocionada, que teve produção musical do pianista cubano Yaniel Matos. O repertório tem personalidade e, embora poucos artistas gostem de ser comparados a outras vozes, sua sonoridade lembra a da não menos talentosa Leila Pinheiro. O meu objetivo é a leitura musical poética, a poesia na voz, o respeito ao público, destacou a cantora.
Buscando a essência da música ao vivo, de banda, que valoriza a interpretação como linguagem principal da canção, o disco abre com o bonito samba inédito Elizeth, de Sueli Costa autora de outras duas canções do disco , que faz uma homenagem a Elizeth Cardoso. A qualidade instrumental merece destaque e participam do projeto os músicos Douglas Alonso (percussão), Rodrigo Campos (violão e cavaco), Luís Cabrera (sax tenor), Daniel Alcântara (trompete) e Marc Perren (guitarra).
Na segunda faixa, o empolgante samba-rock De cabeça pra baixo, de Dalmo Medeiros, merece aplausos no final, assim como Zé Mané, dele também, em parceria com Marcelo Guimarães. Para homenagear São Paulo, cidade onde vive há alguns anos, Adriana fez uma releitura diferenciada e sofisticada de Saudosa Maloca (Adoniran Barbosa).
Em Altos e Baixos (Sueli Costa/Aldir Blanc), gravado originalmente por Elis Regina em 1979, Adriana contou com a participação especial de Cauby Peixoto, que tinha o sonho antigo de interpretar essa canção e fez questão de incluí-la no repertório do disco da sobrinha. Foi uma emoção muito grande cantar com ele essa canção, confessou Adriana.
Para homenagear seu pai, Araken Peixoto, que comandava as noites musicais nos tempos áureos do Maksoud Plaza, e em bares que fizeram história, como o Baiuca, em São Paulo, e o Drinks, no Rio de Janeiro, Adriana escolheu Na batucada da vida (Ari Barroso/Luiz Peixoto), uma canção forte e dramática, que contou com as participações especiais dos músicos Jair Sanchez (piano), Elcio Costa (baixo) e Ni Rezende (bateria).
Encerrando seu primeiro disco com a bela Passagem da Ilusão (Miltinho/Paulo César Pinheiro), Adriana finaliza: Tudo o que eu fiz foi em vão/ Só vale a pena o meu samba/ Que até hoje me serve de consolação. Felizmente, para ela, nada foi em vão.


