Os olhos de Tarcísio Meira chegam a brilhar como os de uma criança ao falar de sua nova paixão: a fotografia. Para compor seu mais novo personagem, o ator de 65 anos teve de aprender a manejar uma câmara fotográfica com a desenvoltura de um profissional. O que começou como um perfeccionismo corriqueiro logo se transformou em paixão arrebatadora. Como pretexto para incorporar um fotógrafo à altura do João Medeiros de ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, Tarcísio leu tanto sobre o assunto que hoje discorre com fluência sobre câmaras, filmes e lentes. ‘‘Aproveitei a viagem a Praga para tirar umas fotos. O resultado até que não foi dos piores. Mas ainda estou longe de ser um João Medeiros’’, brinca.
À primeira vista, a paixão que Tarcísio Meira sente pelo novo hobby supera o entusiasmo que demonstra pelo novo trabalho. A certa altura, o ator chega a definir o sofisticado protagonista de ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, de Antônio Calmon, como ‘‘um zumbi’’. Desapontado com o papel? Nem tanto. Logo, o ator desfaz qualquer mal-entendido ao elogiar o protagonista da nova novela das sete. Depois de ter sido salvo da morte por um simpático querubim, João Medeiros tem seis meses de vida para corrigir os erros do passado. ‘‘Estou muito contente com este novo personagem. Ele é anárquico, extrovertido, brincalhão. É bom sair de um Dom Jerônimo e pegar um João Medeiros’’, avalia. ‘‘Estou adorando a idéia de voltar a fazer comédia. É ótimo quando você se diverte e ainda tem a chance de divertir o público’’, complementa.
O seu último papel cômico na tevê foi ‘‘Araponga’’, de 90. Você estava com saudade de atuar numa produção do gênero?
Ultimamente, só tenho feito papéis cômicos no teatro. Na tevê, fiz poucos. Mesmo assim, gosto de fazer comédia. O João Medeiros, porém, não é necessariamente cômico. A história é divertida, bem-humorada. O personagem, não. O Felipe, que fiz em ‘‘Guerra dos Sexos’’, era muito mais engraçado. Mas nem sempre escolho os papéis que faço. Às vezes, só faço certos trabalhos porque as pessoas pedem. O Dom Jerônimo, de ‘‘A Muralha’’, foi opção minha. Já o João foi um pedido do Dênis. Ele me convidou para fazer o papel de um zumbi e aceitei.
Mas ‘‘zumbi’’ não é uma definição muito depreciativa para um personagem de novela?
R - A novela do Calmon não passa de uma grande brincadeira. Ela tem uma história muito engraçada, que está me divertindo muito. Mas não se pode levar a sério a história de um cara que morre e recebe uma segunda chance de Deus para consertar as coisas que fez de errado na Terra. Isto não passa de brincadeira. Mas novela não serve apenas para refletir ou enternecer o telespectador. Serve para diverti-lo também. E esta novela tem tudo para divertir o público de casa. Quando aceitei o convite do Dênis, estava
consciente deste espírito brincalhão.
Qual seria a melhor definição para o João Medeiros?
Meu personagem não é engraçado nem galante. É romântico. O simples fato de viajar pelo mundo já confere a ele um inegável romantismo. Ele nunca se prendeu a coisa, pessoa ou lugar algum. O que mais me fascinou no João foi o fato de ele ser um sujeito libertário, anárquico, independente. Por conta disso, talvez tenha sido um pouco omisso em relação à família. Ele se limitava a mandar um dinheiro para os filhos e só. Mesmo assim, é um típico boa-praça, um cara extremamente sensível que se preocupa com as injustiças sociais. É ótimo sair de um Dom Jerônimo e pegar um João Medeiros pela frente.
Como surgiu a idéia de colocar ‘‘piercings’’ e brincos?
A idéia foi minha. Achei que os ‘‘piercings’’ e os brincos combinariam bem com o João Medeiros. Sugeri o brinco e a Emília Duncan, que é a figurinista da novela, adorou a idéia. A argola dá um tom cigano ao João Medeiros e os piercings, um ar contestador. Gostei muito do novo corte de cabelo também. Pensei até em colocar uma tatuagem no braço, mas a Glória não deixou. Ela disse que eu teria problemas se fosse convidado para fazer uma trama de época amanhã ou depois. Achei o argumento bastante convincente.
O público já fez algum comentário engraçado nas ruas?
Algumas pessoas se assustaram ao me ver de brinco na novela. Quando me vêem nas ruas, a primeira coisa que perguntam é: ‘‘Você está usando brinco de verdade?’’. Algumas delas acham que não seria possível que o Tarcísio Meira usasse brinco de verdade. Outras suspiram aliviadas quando digo que é tudo de mentirinha. Não furei a orelha de verdade. Não teria coragem para tanto. Os meus brincos são de pressão mesmo.
O João Medeiros conferiu um ar jovial ao personagem. Você se considera vaidoso?
Não tanto quanto o personagem. Não sou vaidoso a ponto de ficar me preocupando com ginástica, malhação ou algo do gênero. Reconheço que ando um pouco fora de forma. Poderia malhar um pouco mais ou, quem sabe, fazer ginástica de vez em quando. O máximo que consigo é dar uma caminhada pela praia...
Já aconteceu de você não gostar de determinado papel?
Já. Diversas vezes. Mas não seria delicado da minha parte dizer quais foram. Só posso dizer que é ruim trabalhar em algo que você não acredita. Felizmente, isto aconteceu pouquíssimas vezes. O personagem é bom quando você acredita nele e, principalmente, quando o público acredita no que você está fazendo. Não tenho preferência por este ou aquele personagem. Apenas gostaria de ter feito mais papéis cômicos. Mas a minha maior preocupação é fazer com que o público acredite nos personagens que interpreto.
Você gostou de fazer o Dom Jerônimo, de ‘‘A Muralha’’?
Muito. O Dom Jerônimo foi um personagem muito rico. Tive mil facetas a explorar. Em cada cena, ele se apresentava de um jeito diferente. Para um ator, isto é muito estimulante. Adorei fazê-lo. A única coisa de que não gostei foi do figurino. Além de ser quente, também era muito pesado. Se tombasse para o lado, não pararia de cair, o peso da roupa me levava. Parece força de expressão, mas não é. É a pura verdade. O Dom Jerônimo também andava meio encurvado. Era um personagem muito cansativo de fazer. Fisicamente, o Dom Jerônimo me cansava muito.
Antes de ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’ estrear, Calmon alardeou que o João teria sido inspirado no Sebastião Salgado. Você vê algo semelhante entre os dois?
Não. A única semelhança que vejo é o fato de os dois usarem máquinas fotográficas. Eles não têm nada em comum. Acho até que o João Medeiros tem mais a ver com o David Zinck. O David era um fotógrafo norte-americano que viveu muito tempo no Brasil. Era uma pessoa muito preocupada com o mundo e que se preocupava também em fotografar o que o mundo tinha de melhor. Acho que o João tem mais a ver com ele. No entanto, tanto o David quanto o Sebastião Salgado possuem preocupações sociais.
Você gosta de fotografar?
Nunca tive qualquer interesse por fotografia até começar a gravar esta novela. Desde então, passei a gostar de mexer com filmes, lentes e câmaras. Infelizmente, não tive tempo para fazer um curso de fotografia. A Globo contratou a fotógrafa Denise Schultz para me ajudar no que fosse possível. Hoje em dia, carrego minha máquina para qualquer lugar. Sempre que posso, arrisco uns cliques nos bastidores da novela. No Natal passado, ganhei uma Nikon da Glória e já encomendei uma Leica. Não vejo a hora de viajar para a minha fazenda no interior do Pará e exercitar o meu novo hobby por lá.

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