Já começa estranho pelo título. Em mais um daqueles erros crassos das traduções de títulos para o português, de alguma maneira ''Salmon Fishing in The Yemen'' (literalmente, ''Pescando Salmões no Iêmen''), virou ''Amor Impossível'', e já entrega de bandeja todas as intenções do filme. Baseado na história do best-seller britânico escrito por Paul Torday, o filme - que estreia hoje na programação do Cine Com-Tour/UEL - acaba sendo uma boa adaptação, mas a comédia funciona mais por conta de seu forte elenco principal do que pela história em si, narrada dentro de uma moral duvidosa.
Logo somos apresentados à vida de dois protagonistas antagônicos: de um lado, está o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor), um cientista especializado em salmões que vive uma vida monótona e sem graça ao lado da sua irritante esposa (Catherine Steadman). Do outro lado, está a bela Harriet (Emily Blunt), uma secretária-executiva alegre e espontânea, que acabou de começar a namorar um oficial do exército, e que tem que cumprir serviço no Afeganistão.
A história dos dois personagens se cruza através do projeto maluco do Sheik Muhammed (Amr Waked), que responsabiliza Harriet para transformá-lo em realidade: o milionário deseja construir uma represa para pesca esportiva de salmão, no meio do deserto do Iêmen.
Para realizar este sonho quase impossível, Harriet busca a ajuda do Dr. Alfred, maior autoridade na criação de salmão no Reino Unido e funcionário do Ministério da Pesca. Com ceticismo, ele considera o trabalho uma tremenda perda de tempo, mas se vê forçado a cooperar por causa de diversos interesses políticos, que são representados pela inescrupulosa assessora de imprensa do governo, Patricia Maxwell (Kristin Scott Thomas).
Pesquisando contra a sua vontade, o maior objetivo do Dr. Alfred parece ser transformar a vida de Harriet em um inferno. Para isso, ele faz diversas exigências: quer conversar com engenheiros chineses e transferir, de helicóptero, 10 mil salmões dos mares britânicos para a aridez do deserto. Surpreendentemente (ou, nem tanto) ela consegue tudo que ele exige.
A dinâmica da dupla começa a mudar depois de um fim de semana no castelo do sheik/profeta Muhammed, que surpreende o Dr. Alfred por ser uma pessoa de bom caráter, e enxerga o projeto para além de um desperdício de dinheiro (''Para pescadores, as únicas virtudes são paciência, tolerância e humildade'', explica). Inevitavelmente, os dois acabam representando uma discussão entre ciência e religião, definida por uma moral bem batida: é possível realizar o impossível, se existir fé.
Se Alá escreve certo por linhas tortas, um romance não sobrevive sem diálogos convincentes. Por mais que os protagonistas se esforcem e consigam boas atuações individuais, a química entre o casal nunca chega a realmente acontecer, e é inevitável questionar por que essa mulher, bonita e inteligente, não sai correndo do cientista mais chato de todos os tempos; alguém que, depois de declarar ''gosto de você'', emenda, ''me desculpe se minhas formulações gramaticais anteriores foram incorretas''.
Dirigido burocraticamente pelo sueco Lasse Hallstrom (o mesmo de ''Chocolate''), apesar das tentativas em nadar contra a corrente, ''Amor Impossível'' acaba sendo sugado pelo óbvio, e termina de maneira previsível. Por isso, mesmo sendo divertido em alguns momentos, quando os créditos sobem, o filme deixa a sensação de que alguma coisa sobrou terrivelmente fora de lugar - isto é, além dos peixes no deserto.

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