Pedras e ganância no meio do caminho
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de fevereiro de 2019
Marcos Roman <br> Reportagem Local 
"Quantas toneladas exportamos de ferro. Quantas lágrimas disfarçamos sem berro?". A exemplo do que aconteceu em 2015, com a tragédia que assolou a cidade mineira de Mariana, os versos finais do poema "Lira Itabirana" - escrito por Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) - voltaram a ganhar destaque nas redes sociais após o desastre ocorrida em Brumadinho (MG) no último dia 25. Nascido em Itabira, distante 104 quilômetros de Belo Horizonte, o poeta sempre fez ácidas críticas aos prejuízos humanos e ambientais causados pela atividade mineradora incessante que destruiu paisagens naturais de sua terra natal.

A viralização de "Lira Itabirana" na internet gerou polêmica quanto à autoria dos versos atribuídos a Drummond, já que o poema não consta em nenhum dos livros lançados pelo poeta. As discussões se encerraram após ser contatado que o poema realmente tem assinatura de Drummond que cedeu a obra ao jornal "O Cometa Itabirano", que fez a publicação em 1984.
O impacto da mineração na obra drummondiana é evidenciado por José Miguel Wisnik no livro "Maquinação do Mundo", lançado no ano passado pela Companhia das Letras. A publicação demonstra a atualidade das denúncias políticas, sociais e humanistas feitas há décadas por Drummond.
O livro nasceu numa viagem circunstancial de Wisnnik a Itabira, onde o ensaísta se deparou com traços do passado e sinais contemporâneos que o levaram a identificar na atividade mineradora uma questão crucial para um escritor apegado ao provinciano lugar de origem e ao mesmo tempo marcado por um sentimento cosmopolita do vasto mundo.
Professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, onde fez mestrado e doutorado com especialização em Teoria Literária e Literatura Comparada, além de também atuar como compositor e ensaísta, Wisnik reuniu um vasto repertório da produção de Drummond. Através dos poemas resgatados no livro, o acadêmico propõe uma releitura aprofundada de questões abordadas em poemas como "A Máquina do Mundo", "A Montanha Pulverizada" e "Boitempo", publicados entre as décadas de 1960 e 1970, período em que os olhos das mineradoras cresceram sobre as jazidas pertencentes a Itabira.
No livro, Wisnik mostra que o embate do poeta com as companhias exploradoras de minérios estão presentes o tempo todo na obra de Drummond. Sobretudo no poema "A Máquina do Mundo", que foi escrito pouco tempo depois de o poeta ter viajado de avião de Belo Horizonte a Itabira e visto de cima, pela primeira vez, a amplitude dos danos ambientais causados pela exploração desenfreada em Minas Gerais. Já em "A Montanha Pulverizada", Drummond narra o desaparecimento do Pico do Cauê, que era o cartão-postal e marco do município de Itabira e terminou reduzido a nada pela atividade mineradora.
O ensaísta defende a atualidade dessa literatura no panorama atual, em que o espaço público se encontra em linha de faccionalização e a cultura deixou de ser baliza de autorreconhecimento da sociedade. Com o livro "Maquinação do mundo", ele não apenas reposiciona a obra de Drummond como torna evidente a dimensão política de que a arte e a cultura se investem hoje.
Leia a seguir alguns poemas de Drummond sobre o tema.
LIRA ITABIRANA
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?
A MONTANHA PULVERIZADA
Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.
(...)
Esta manhã acordo e não a encontro,
britada em bilhões de lascas,
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões,
no trem-monstro de cinco locomotivas
- trem maior do mundo, tomem nota -
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.
O MAIOR TREM DO MUNDO
O maior trem do mundo
Leva minha terra
Para a Alemanha
Leva minha terra
Para o Canadá
Leva minha terra
Para o Japão
O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano
Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei não voltará
Pois nem terra nem coração existem mais.
(Carlos Drummond de Andrade)


