Mudar sem perder a essência e a assinatura é uma façanha que poucos novelistas conseguem. Com ''Império'', Aguinaldo Silva apresenta um dos trabalhos mais arrojados de sua trajetória. Depois de um longo período dedicado ao realismo fantástico de tramas nordestinas, para depois flertar com novelas atuais e abordar as diferenças entre classes, o autor segue por outros rumos em sua nova novela das nove. As delícias e desventuras do ''poder'', presente em tramas como ''Pedra Sobre Pedra'', ''A Indomada'' e, sobretudo, ''Duas Caras'', é o grande gancho de ''Império''. O folhetim ainda ''bebe'' em outros ingredientes e referências que fizeram de Aguinaldo o escritor de maior audiência entre as novelas das nove. No entanto, atualmente, o autor parece querer, com pompa e elegância, chegar ao ''crível'', reforçando um texto mais naturalista, em uma história com personagens multifacetados e tendências dramáticas acima do normal.
Essas novas ''armas'' do autor aparecem logo nos dois personagens mais importantes da trama: José Alfredo e Cora, o protagonista de Alexandre Nero e a vilã de Drica Moraes. Em seu primeiro trabalho como ator principal, Nero personifica bem todo o anti-heroísmo de seu papel, capaz de amar, matar, enganar e corromper. Na contramão está Cora, defendida por uma segura Drica Moraes e sem qualquer ''eco'' das vilãs cômicas e acima do tom feitas na medida pelo autor. Basta lembrar da Altiva, de Eva Wilma, em ''A Indomada'', ou da torpe Nazaré, de Renata Sorrah, em ''Senhora do Destino". Em toda a primeira e o início da segunda fase de ''Império'', salta aos olhos como a escalação de uma novela pode, sim, ser repetitiva, mas fugir do óbvio. Em um atuação madura, Marjorie Estiano destacou-se ao viver a vilã Cora nos primeiros capítulos da trama. O "ex-Rebelde" Chay Suede, inclusive, segue na mesma linha de atuação acima da média. A novela ainda guarda bons momentos e histórias que têm tudo parar ganhar repercussão nos núcleos capitaneados por José Mayer e Zezé Polessa.
A boa escalação de elenco se junta a detalhes técnicos e estética classuda nunca antes vistas nas tramas de Aguinaldo, que sempre residiu em uma atmosfera "fake". O culpado por essa nova roupagem é Rogério Gomes, que assume a direção das novelas do autor depois que este se decepcionou com Wolf Maya e seu desleixo no comando da irregular ''Fina Estampa''. Diretor mais conectado às novelas solares que apresentou no horário das seis, Rogério não ousa, mas se mostra funcional e com acabamento preciso em sequências sem exageros, bem iluminadas, com boas referências musicais e a favor do texto. Nada audaciosa, mas bonita de ver e de ouvir, ''Império'' promete ser o tal ''novelão'' que faltava para a Globo esquecer de vez do fracasso de ''Em Família''.

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