''PEDRA''
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de janeiro de 1999
Ranulfo Pedreiro 
Após anos de estudos de canto lírico, Sabá Moraes resolveu, em meados da década de 90, se adaptar à música popular. Em três anos de transição, ela trabalhou para evitar empostação de voz e perder alguns hábitos da música erudita.
A mudança não significou um abandono do canto lírico, mas a oportunidade de variar o repertório. Nascida na Ilha de Marajó, Sabá Moraes viveu entre festas folclóricas e hábitos caboclos. Preocupada em divulgar a musicalidade de sua terra, chegou à conclusão de que, como cantora erudita, ficaria difícil incluir canções populares em seu repertório.
O resultado dessa transformação está no disco Pedra, que Sabá Moraes lançou pelo selo CPC-Umes. O álbum mistura características regionais - como as composições de Ney Couteiro, marido da cantora - com arranjos urbanos interpretados por nomes da música instrumental. Do canto lírico, Sabá Moraes incluiu a técnica que revela com discrição para não perder a naturalidade.
Esta mescla de erudito com música folclórica e características urbanas ganha tempero com a maturidade que a intérprete apresenta no disco de estréia. Gravado inicialmente como fita demo, o projeto foi encampado pelo CPC-Umes para se tornar um CD.
Vale destacar a presença de Ney Couteiro, compositor voltado para a música regional que traz na bagagem estudos aprofundados de violão e arranjo. Outra vantagem é que, além de conhecer bem o processo de produção, Ney Couteiro escreveu três faixas exclusivas para o álbum.
Conheço muito a música do Ney, é uma relação muito próxima, ele fez os arranjos do disco do jeito que eu queria, dando a concepção e o estilo de acordo com meu gosto. As composições dele têm tudo a ver comigo, revela.
Mas a presença de Ney Couteiro não é o único fator que determina a unidade do álbum. Sabá Moraes conhece bons músicos do circuito instrumental paulista, e convidou-os para participar do disco. Entre eles estão o flautista Toninho Carrasqueira, o saxofonista Teco Cardoso e o trombonista Bocato, além de Oswaldinho do Acordeon e do músico maranhense Lourival Tavares.
O trabalho destaca ainda a obra de compositores paraenses como Ronaldo Silva e Alcyr Guimarães. Sabá Moraes interpreta ainda Uirapuru, de Waldemar Henrique e Estrela Miúda, de João do Vale e Luís Vieira, além de Olhos da Fonte, de João Bá e Gereba.
Pensamos em um repertório que não criasse um rótulo. Sou intérprete e acho que tenho que cantar tudo o que eu gosto. Existe um trabalho de produção musical muito bom no Pará, mas isso não chega até aqui, não é divulgado, revela.
Sabá Moraes começou a estudar violino em 1986, na Escola de Música da Universidade Federal do Pará. Em 1989 passou a se dedicar ao canto e, em 1991 e 1992, a intérprete participou do Festival de Música de Londrina com apresentações no Cine-Teatro Ouro Verde e Zaqueu de Melo.
Pedra é um CD que revela uma cantora com trabalho linear e pouco comercial. Mais uma vez, a parceria de selos independentes com distribuidoras retira um bom artista do ostracismo. Apesar do lançamento recente, Pedra só deve ser divulgado daqui a algumas semanas. Grávida de oito meses, Sabá Moraes pretende se apresentar só em março, e está programando shows em São Paulo, Belém, Goiânia e Brasília.


