São Paulo, 17 (AE) - Depois de "Brasil S.A.", peça que tinha como protagonista um empresário honesto debatendo-se contra especuladores - uma luta perdida - , o empresário Antonio Ermírio de Moraes entra novamente em cena, desta vez para levar ao palco uma radiografia do descalabro da saúde pública. Tema constante nos noticiários, será explorado pela primeira vez no teatro. Até onde se sabe, só o dramaturgo Alcione Araújo fez da tragédia dos hospitais tema de uma peça, "Deixa Que Eu te Ame" (um pedido ao País), ainda inédita nos palcos.
"S.O.S. Brasil" estréia amanhã no Teatro Faap, sob direção de Marcos Caruso, com Rogério Fróes e Mayara Magri integrando um elenco de oito atores. "Gostaria de escrever uma terceira peça sobre educação; se eu conseguir terminar minha trilogia - trabalho, saúde, educação - acho que posso morrer em paz", declara Antonio Ermírio.
O cenário de "S.O.S. Brasil" é um hospital público gerido pela dra. Mercedes (Karin Rodrigues), que contrata o prestigiado cirurgião dr. Silveira (Jandir Ferrari) para criar um centro de transplantes no hospital. Tudo vai bem até que a dra. Mercedes recusa-se a acatar uma ordem nada ética do político corrupto dr. Praxedes (Rogério Márcico). Ele, então, passa a cortar verbas do hospital, provocando diversos problemas internos, que culminam numa greve.
No meio desse fogo cruzado, estão os pacientes, entre eles, Terezinha de Jesus (Mayara Magri), uma nordestina portadora de diabetes que chega ao hospital em estado grave, necessitando de um transplante urgente. Diante da situação, dr. Silveira acaba tomando uma atitude no mínimo polêmica: fura a fila única de espera por transplantes, para salvar a vida de dois pacientes internados no hospital.
Antonio Ermírio não teme a possível polêmica em torno da atitude de seu personagem, uma vez que seu objetivo nessa cena é denunciar a burocracia absurda em torno desse tipo de cirurgia, responsável pela perda de vidas que poderiam ser salvas. "Recentemente, as pessoas acompanharam pelo noticiário o caso de uma senhora cuja família autorizou a doação dos órgãos, o que não ocorreu por falta de comprovação de morte cerebral, algo que qualquer médico poderia fazer", lembra. "O sistema precisa ser ágil ou ter flexibilidade, porque mais importante do que preencher boletins é salvar vidas."
Em seu diagnóstico da saúde pública, Antonio Ermírio traça um quadro negro da situação. De desvio de medicamentos a favorecimento na obtenção de um leito, ocorre um pouco de tudo nesse hospital. Apesar disso, há espaço para humor, que surge principalmente da convivência forçada entre um ex-líder sindical (Luiz Guilherme) e um general reformado (Rogério Fróes), obrigados a dividir o mesmo quarto no hospital. "Ambos são patriotas e querem o melhor para o Brasil, mas por caminhos diferentes."
Conhecimento do universo retratado não falta ao empresário - presidente do Grupo Votorantin - que geriu o Hospital Infantil da Cruz Vermelha durante quatro anos, passou outros quatro à frente do Hospital da Cruz Verde e há 28 anos administra o Hospital São Joaquim, da Sociedade Portuguesa de Beneficência. Ao levar para o palco a radiografia do nosso modelo de saúde, quem fica mal na foto é o governo brasileiro. "Tenho certeza de que a reação vai ser grande, mas não se pode escrever peças pensando em agradar ninguém."
Saídas - Antonio Ermírio não se limita a pintar um quadro caótico da situação, mas aponta saídas. Após viver a experiência do atendimento no hospital público, o dr. Silveira decide atender a pacientes do SUS em sua clínica particular. "A solução está na solidariedade social, há muitos leitos ociosos em clínicas particulares", garante o autor. O que chama a atenção, nesse caso, é o fato de a solução ser apontada, ao que parece, de forma dramática - na transformação interna do personagem - e não na forma de um discurso, motivo das principais críticas negativas ao texto anterior, "Brasil S.A."
acusado de ser uma peça de tese.
"Esse segundo texto é muito melhor construído do que o primeiro", afirma Marcos Caruso. O diretor chama a atenção, por exemplo, para a diferença de tratamento dado ao humor nos dois textos. "No primeiro, o humor vinha principalmente das falas da empregada doméstica, ao passo que nessa peça já existe um humor de situação: da convivência entre o general reformado e o ex-líder sindical."
O autor - que na temporada de "Brasil S.A." respondeu às críticas ao seu texto com humildade, com declarações como "Quero melhorar" - prefere não fazer distinção entre as duas peças. "Gosto muito de Brasil S.A.". Segundo ele, a maior felicidade obtida com a montagem - vista por cerca de 90 mil espectadores, entre Rio, São Paulo e Brasília - foram as inúmeras cartas recebidas de pequenos empresários nas quais relatavam sua identificação com o personagem central.
Nacionalmente conhecido não só por sua atuação como presidente da Votorantin, mas por sua inquietação com os destinos do Brasil, sempre disposto a usar os canais de comunicação ao seu dispor para criticar e apontar soluções, Antonio Ermírio causou perplexidade ao escolher o teatro para expor suas idéias. Por que o teatro e não a literatura, por exemplo? "O teatro é feito por gente", argumenta.

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