Peça e livro interpretam o universo de Bispo do Rosário
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quinta-feira, 07 de outubro de 1999
Por Julio Gama e Roberta Jansen 
Rio, 08 (AE) - Arthur Bispo do Rosário nasceu em Jarapatuba, Sergipe, em 1911, ingressou na Marinha, em Salvador, em 1928, foi lutador de boxe, largou a farda cinco anos depois, virou lavador de bondes e borracheiro da Light, de onde foi demitido em 1937, por insubordinação, para virar empregado doméstico numa casa de grã-finos no Rio até 1938, quando teve uma visão: Jesus aparecia ao lado de sete anjos azuis. Vagou em delírio por dois dias pelas ruas do Rio e acabou internado na Colônia Juliano Moreira com o diagnóstico de esquizofrenia paranóide.
Negro, alto, forte, Bispo do Rosário impôs-se diante dos outros internos, mas, agressivo, acabou preso numa solitária, um cubículo imundo, onde começou a ouvir vozes ordenado que reconstruísse o universo. Bispo viveu 50 anos internado no Pavilhão Ulisses Viana tentando reconstruir o universo por meio da arte, até morrer de broncopneumonia, em julho de 1989, aos 76 anos. Um livro e um espetáculo teatral lembram os dez anos da morte do artista. Como esse homem fez para comunicar-se de forma tão sensível com o mundo "normal"? A busca pela resposta levou Patrícia Burrowes a escrever "O Universo Segundo Arthur Bispo do Rosário" (Editora Fundação Getúlio Vargas, 104 páginas
R$ 14) que será lançado dia 19, às 19 horas, no Museu da República, no Rio. Mestre em comunicação e cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Patrícia passou dois anos pesquisando o trabalho de Bispo do Rosário e a conclusão virou sua tese de mestrado, apresentada em 1996.
Patrícia conheceu a obra de Bispo do Rosário numa exposição no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio, em 1993. "Fiquei impresionada com a capacidade de ele extrair fragmentos poéticos de um mundo tão terrível", conta. Lobotomia e choque elétrico faziam parte do tratamento dos internos de hospícios. Durante muitos anos, o artista recusou-se a expor seus trabalhos
segundo Patrícia, porque ele não poderia deixar dispersar o material que, afinal, era o universo que ele estava reconstruindo e, um dia, apresentaria a Deus.
Seu universo foi reconstruído desfiando trapos e uniformes da colônia, costurando tapetes e panôs, nos quais recriava roteiros, inventava lugares, recontava histórias, apresentava pessoas. Sua jaqueta militar virou um manto sagrado que vestia em momentos solenes. Seu leito foi coberto com véus. Por meio da arte, Bispo do Rosário deu vida ao inferno. Mundo - Bispo do Rosário conhecia o mundo exterior. Numa das tantas visitas que fez à Colônia, Patrícia ouviu relato de um enfermeiro contemporâneo ao artista que lhe contou a seguinte passagem que está no livro: "Você sabe o que está acontecendo no mundo, Bispo?", teria perguntado o enfermeiro, ao que Bispo respondeu: "Sim, sei que a Rússia está invadindo o Afeganistão". E estava.
Não se sabe ao certo quantas obras Bispo do Rosário produziu nesses 50 anos de internação e produção ininterrupta. O Museu Nise da Silveira, dentro da Colônia Juliano Moreira, guarda hoje 842 peças, dentre elas, o manto "Eu Preciso Dessas Palavras Escritas", um dos trabalhos que representaram o Brasil na Bienal de Arte de Veneza, em 1995. Teatro - "Bispo Jesus do Rosário - A Via Sacra dos Contrários"
peça de Moacyr Góes, está em cartaz no Teatro Carlos Gomes, no Rio. O interesse por Bispo surgiu há dez anos, quando Góes assistiu pela primeira vez a uma exposição do artista no Museu de Arte Moderna (MAM). A peça, com texto de Clara Góes, irmã do diretor, é dividida em 14 cenas, como a via-crúcis.
"A Via Sacra dos Contrários remete à idéia de um cristo ao contrário, como foi Bispo, um louco, sem seguidores, sem credibilidade, sem apóstolos: a imagem invertida de Cristo", explica Góes. O espetáculo, que começa no momento em que Bispo vê Cristo e os anjos, acompanha a trajetória do artista durante seus longos anos de internação na Colônia Juliano Moreira e mostra como ele desenvolveu sua veia artística, seguindo ordens das vozes que ouvia.


