Um grupo de teatro amador de Curitiba, o Fota (Fonte Onírica de Teatro e Artes) estreou no final de abril, sem maiores alardes, a peça ‘‘Miz Mor’’, na Capela Nossa Senhora da Glória. Foram realizadas duas sessões; no terceiro dia os artistas foram impedidos de continuar a temporada prevista para até o final de maio. Uma ‘‘performance-protesto’’ foi realizada ontem na Boca Maldita, prejudicada pela chuva. Novo protesto está marcado para hoje, ao meio-dia e às três da tarde para tornar pública a indignação do Fota.
‘‘O espetáculo foi censurado por preconceito’’, diz o diretor Guido Salton. A montagem é calcada em nove salmos da Bíblia Sagrada, e tem um fundo moral: o caos contemporâneo e o encontro do homem consigo mesmo. Porém, com um detalhe: os três atores apresentam-se seminus, apenas com um tapa-sexo. Salton acredita que a exibição dos corpos foi o motivo da proibição não só da família proprietária da capela, como do arcebispo Dom Pedro Fedalto.
‘‘Houve um grande equívoco, não queríamos ofender ninguém. Na peça a gente fala do amor e do respeito ao próximo’’, explica Salton. Ele afirma que não existe heresia na semi-nudez dos artistas e na cena em que um deles reza de costas para o altar. ‘‘Eu só quis dizer ‘ame a Deus’ com maior profundidade, porque você não precisa estar em frente a um altar para ter o Pai à sua frente’’.
D. Pedro Fedalto reprovou ‘‘Miz Mor’’ mesmo sem ter assistido à montagem. Aceitou a versão dos contrários. D. Alpheu, por sua vez, teve outra visão: ‘‘Ele até comentou que era bom a gente trazer o jovem à igreja’’, continua Salton. O arcebispo recebeu os atores para uma entrevista - ‘‘foi muito amável, até paternalista’’ -, mas não cedeu aos rapazes que lhe pediram autorização para se apresentarem em outra igreja.
D. Pedro desculpou-se por não querer polêmica junto à comunidade católica. Ele entende ser mais sensato não colocar a peça em cartaz. O autor e diretor não desiste e está à procura de um novo espaço. Quer levar a montagem para o prédio onde funcionou a Corregedoria de Polícia, na Rua Barão do Rio Branco. Afirma que vai conversar com as autoridades e que não desistirá tão facilmente do projeto.
Há dez anos Salton vinha amadurecendo a idéia da peça, que lhe veio à mente em uma exposição do artista Raul Cruz. No empreendimento, teve o apoio das lojas Balarotti, que forneceu 50 metros de fios elétricos. ‘‘Foi o único patrocínio’’, diz.
Não faltam críticas ao provincianismo: ‘‘Se o grupo tivesse vindo de qualquer lugar do exterior, seria tudo diferente. Ser de Curitiba ajuda a fechar as portas’’. ‘‘Aqui é tudo fechado, os espaços são fechados e por isso fomos até a igreja. Eu entendo que o ato de viver é, por si só, um grande teatro. Então acho jacu fazer teatro só em teatro.’’
‘‘Miz Mor’’ é uma sequência de quadros distintos. O primeiro deles, por exemplo, mostra um homem orando, e em paz com Deus. Uma sombra na parede sugerindo uma asa, dá a conotação do contato do humano com o divino. No momento em que a asa desaparece - ou seja, o homem desliga-se de Deus - vem o sofrimento, a solidão.
Noutro quadro o diretor colocou uma caveira. ‘‘Com ela em cena era como se perguntasse: ‘mas meu Deus, será que sou só isso? Não tem continuidade depois da morte?’’’ Na cena mais comentada, de um ator mergulhado numa banheira cheia de lama, o texto substitui a lepra pela Aids. O sofrimento ocupa a primeira parte da peça. A segunda é mais ‘‘etérea, o homem indo de encontro a Deus. Os atores se banham e saem limpos’’. Aí sim, com as nádegas à mostra, veio o escândalo. Ou seja, a lama de certa forma cobria a nudez.
A última fala do texto diz: ‘‘Bem aventurado todo aquele que respeita o próximo. Dele será o reino do céu’’. ‘‘Não sei se sou eu que estou desrespeitando a Igreja ou ela a mim. Mas posso dizer que conforme fui pesquisando os textos bíblicos, a fé aumentou e me aproximou dela’’, finaliza o diretor.

mockup