PEÇA DE PLÍNIO MARCOS VOLTA À CENA NO FESTIVAL
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segunda-feira, 19 de março de 2001
Simone Mattos Enviada a São Paulo 
Um retrato do dramaturgo Plínio Marcos se destaca na parede do teatro de arena Eugênio Kusnet, no Centro de São Paulo, onde o diretor Sérgio Ferrara ensaia o elenco de Abajur Lilás. O espetáculo fará sua estréia nacional no 10º Festival de Teatro Curitiba, no próximo dia 31. Mais do que uma relação profissional, Ferrara foi amigo íntimo de Plínio até o final de sua vida e garante que a sugestão de levar Abajur Lilás novamente aos palcos partiu do próprio dramaturgo. Ele está ali para assistir aos nossos ensaios, justifica Ferrara, referindo-se à foto na parede.
O diretor comenta que Plínio Marcos sempre dizia que Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja, eram suas peças mais montadas; enquanto que Barrela e Abajur Lilás estavam praticamente esquecidas. Ele lembra que, na primeira vez em que tentou ir aos palcos, com Lima Duarte num dos papéis principais, Abajur Lilás, escrita em 69, foi censurada pela ditadura militar.
Em novembro do ano passado, quando Ferrara dirigiu uma leitura do mesmo texto no aniversário de um ano de morte do dramaturgo, Lima Duarte veio especialmente do Rio de Janeiro para participar. Ele deu este presente para o Plínio, comenta o diretor. No Paraná, o texto foi encenado pelo grupo amador Boca de Baco e Plínio Marcos esteve em Londrina para assistir à montagem um ano antes de sua morte.
Bebendo na fonte do mais puro realismo, Plínio Marcos conta em Abajur Lilás a história de três prostitutas decadentes a veterana é interpretada pela atriz Ester Góes , exploradas por um cafetão homossexual. Mais de 20 anos após ser escrito, o texto permanece atual por abordar com profundidade temas como os limites do ser humano.
Depois de Curitiba, a nova montagem do espetáculo seguirá para Santos, litoral paulista, terra natal de Plínio Marcos. Será uma forma de homenageá-lo, afirma Ferrara. Acompanhe trechos da entrevista exclusiva que ele concedeu a Folha 2 antes de um dos ensaios:
Depois da primeira montagem de Abajur Lilás, censurada pela ditadura, quando o espetáculo voltou aos palcos?
A segunda montagem de Abajur Lilás foi dirigida por Fauzi Arap e produzida por Antônio Fagundes na década de 70. Esta foi a primeira e única apresentação a que o público pôde assistir. Depois disto, nenhum grupo profissional retomou o espetáculo e, por isso mesmo, o Plínio queria que se revisitasse a obra. Seu objetivo era que as pessoas percebessem a profundidade e a dimensão humana daqueles personagens, que continuam atuais. É importante perceber que eles não estão ligados simplesmente àquele momento político do País, à ditadura...
De que forma o texto cabe no contexto atual?
Trata-se da história de três prostitutas de quinta categoria, cafetinadas por um homossexual velho e decadente. Então, o contexto social é muito precário e isso gera uma reflexão do tipo será que somos alguém neste mundo, será que temos que ser explorados até o bagaço para poder ser alguém? O Plínio consegue tocar no que há de mais profundo no homem, que é a compaixão através da desgraça. Aí está a discussão da peça... É aí que o público irá avaliar que qualquer um pode se identificar com estes personagens...
Mas o País mudou. O texto mantém a mesma força no atual momento social e político?
Plínio Marcos sempre dizia que suas peças são atuais porque o País continua miserável.... Enquanto o País for assim, seu texto será sempre atual... Ele retrata o ser humano no limite da sua resistência, na mais profunda miséria, na mais profunda falta de condições de ser alguém... Como no Brasil as coisas só pioraram, a nossa condição social está muito ruim, o País passa por um momento econômico, social, cultural muito perigoso e o texto de Plínio Marcos se mantém cada vez mais atual. E é isso que o Plínio expressa muito bem em seus textos: através desta marginalidade, deste submundo, aparecem pessoas herdeiras de um sistema falido que elas não escolheram para viver, então só lhes resta a esperança. E essa busca pela esperança num mundo tão decadente é muito bonito, esses personagens acabam tendo uma dimensão mitológica pelo fardo do destino que elas têm que carregar...


