Peça de humor cáustico marca volta de Marília Pera aos palcos
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segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 08 (AE) - Não fosse a irresistível atração de boa parte da platéia carioca por comediotas inconsequentes, o dramaturgo Wilson Sayão teria alcançado reconhecimento à altura de seu talento. Autor de 16 peças, quase todas já encenadas no Rio, pela primeira vez terá um de seus textos estreando em São Paulo, "O Altar do Incenso". Sob direção de Moacir Chaves, com Marília Pêra e Gracindo Júnior no elenco, o espetáculo estréia no dia 2, no Teatro Alfa Real.
Não que falte humor ao autor de peças como "Anônima", dirigida por Aderbal Freire Filho, com Pedro Paulo Rangel e Gracindo Júnior no elenco, e "Uma Casa Brasileira com Certeza"
dirigida por Amir Haddad. Porém, seu humor é cáustico, nasce do patético da existência humana. Em seus textos, Sayão enfoca a vida de pessoas comuns, mas longe de glamourizá-las, revolve angústias comuns a todos os homens, agravadas no caso de seus anônimos e frustrados personagens.
Lagarta e borboleta - "Queria que alguém um dia solicitasse uma definição de mim mesma, para poder dizer que sou uma lagarta que não virou borboleta", diz a personagem vivida por Marília Pêra em "O Altar do Incenso". A peça tem apenas dois personagens, um funcionário público aposentado e uma dona de casa, casados há 30 anos, que vivem numa pequena casa de vila
no bairro de Todos os Santos, no subúrbio carioca.
A peça flagra-os num momento inusitado de suas vidas. Um extravagante ladrão vem assaltando casas da vila onde moram. Numa delas, fuzilou toda a família que dormia, noutra amarrou as pessoas, jantou, dormiu e pela manhã despediu-se de todos com um beijo na testa. Diante da ameaça, o casal decide por uma vigília noturna para não ser surpreendido em pleno sono.
Com esse ponto de partida, logo se imagina uma dramaturgia clássica na qual a quebra de rotina e forçado diálogo noturno trazem à tona ressentimentos acumulados em 30 anos de casamento. "A peça nada tem a ver com essa dramaturgia americana dos anos 60, na qual um elemento exterior deflagra uma crise na relação", garante Moacir Chaves. "Não é uma pecinha naturalista, mas um peça muito bonita sobre a existência humana, sobre a passagem do tempo, em alguns momentos quase clownesca."
Claro que os ressentimentos do casal estão presentes no texto, mas esse não é o foco central. Segundo Chaves, eles culpam um ao outro pelo envelhecimento, mas no medo da morte e do desconhecido - metaforicamente representados pelo misterioso ladrão -, que ao mesmo tempo fascina e paralisa, reside a questão central da peça.
"O medo ancestral pelo desconhecido jamais abandona o ser humano", diz Chaves. "Não foi à toa que o homem desmatou o planeta; a floresta sempre representou para o homem o desconhecido, um local escuro habitado por fantasmas." Se a necessidade e o desejo de proteger-se levou o homem inicialmente para dentro das cavernas, a civilização sofisticou ao extremo a angústia provocada pelo medo do desconhecido, chegando a humanidade ao extremo de proteger-se da vida, na ânsia de eternizá-la.
Insônia e morte - Assim, a insônia para evitar a morte vai aos poucos revelando para o público o mais importante: o que fazer com o tempo de espera. Essa concepção vai orientar a criação do premiado cenógrafo Fernando Melo da Costa, que repete a parceria já feita com Chaves na montagem do "Sermão da Quarta-Feira de Cinzas", protagonizado por Pedro Paulo Rangel. A residência do casal, cheia de trancas e alarmes, lembrará uma espécie de casulo, contraditoriamente situado no meio de uma rua.
Gracindo Júnior destaca a contemporaneidade do texto. "Ele aborda a paranóia urbana com a violência, o medo de que nossa hora chegue de forma violenta, num assalto ou sequestro." E não poupa elogios ao texto que considera complexo
de grande profundidade, mas ao mesmo tempo capaz de comunicação imediata com a platéia, por seu humor cáustico. "A peça fala do medo do desconhecido e vai dar o que falar", resume.
Foi Gracindo Júnior, que já havia atuado em "Anônima", do mesmo autor, o responsável pelo convite a Marília Pêra. Amigos de longa data, contracenaram em muitos espetáculos e há muito desejavam realizar uma nova parceria no palco. "A primeira vez que li o texto ri muito", conta Marília. "Já tinha gostado muito de "Anônima" e não entendo a difícil aceitação de Sayão no Rio."
Sem negar os aspectos trágicos da história, Marília lembra ter surpreendido Chaves com o humor que imprimiu à personagem já em sua primeira leitura. "Ele havia atentado mais para os aspectos melancólicos, mas acho que faz parte de meu temperamento de atriz ver humor na tragédia", comenta. Marília diz estar muito feliz com o andamento dos ensaios. "Eu e Gracindo temos uma grande cumplicidade e Moacir é um diretor muito inteligente e educado."
Carioca de 48 anos, Wilson Sayão escreveu sua primeira peça, "O Hábito de Ter Dono", aos 25 anos e logo foi premiado num concurso de dramaturgia, em 1975. Eufórico, nos seis anos seguintes escreveu 15 peças e ganhou 12 prêmios em concursos, porém nenhuma foi encenada. Cansado da pecha de "autor de concurso", em 1980 arregaçou as mangas e ele próprio passou a produzir seus textos. Em 1990, ganhou o primeiro Prêmio Shell de autor por "Uma Casa Brasileira com Certeza", façanha repetida em 1997 com "Anônima".


