PC TERIA LIGAÇÕES COM A MÁFIA
O livro-reportagem de Lucas Figueiredo aponta ligações do ex-caixa de Collor com a máfia italiana: parte do dinheiro da rede era destinado à corrupção no Brasil
Figueiredo é repórter. Entra nos bueiros da sociedade, ingressa nos meandros da política, procura cercar-se de pessoas de confiança, confessa seus medos e vacilos, revela decepções e possui um mérito: chega onde ninguém quis chegar. Alguns porque não souberam. Outros porque preferiram ficar comodamente na varanda de Pilatos. Entre alguns e outros, aqueles que se omitiram, acovardaram-se, tergiversaram e até mesmo prevaricaram, no sentido técnico da palavra. Nada de ficção. Tudo real.
Vejamos: a orelha do livro fala como vimos antes em US$ 1 bilhão evaporados, mas o próprio autor, prudente, diz (pág. 48) que numa hipótese mais que conservadora, o butim teria chegado a no mínimo 400 milhões de dólares. Tomemos este último valor como referência. O referido butim envolve grandes empresas nacionais e estrangeiras, várias nominadas (páginas 58 e 59). O esquema dos depósitos em contas no interior é dissecado. E além disso, o autor do livro ouve de policiais italianos, investigando atividades da Máfia na Itália, que existia um elo (descoberto) entre PC Farias e a associação criminosa, e ipsis verbis, parte do dinheiro da rede era destinado à corrupção no Brasil, PC já tinha morrido na casa de praia em Guaxuma, Alagoas, quando o autor de Morcegos Negros ouviu a frase: Farias poderia ser um financiador de narcotráfico ou um reciclador de dinheiro sujo. Ou ambos.
Poderia. A afirmação foi feita na condicional e é prudente registrá-la quando tem muita gente bufando como um dragão enfurecido por acreditar que anda se falando mais e se provando menos. Certo, isso gera decepções e frustrações, além de falsas expectativas. PC Farias sumiu do Brasil em junho de 1993 indo de Alagoas para Pernambuco de automóvel. Um jato particular atravessou a Bahia e Mato Grosso do Sul. Depois, Paraguai. Finalmente, Argentina, Uruguai, Inglaterra e Tailândia. O mafioso Luiz Felipe Ricca contou a magistrados italianos que PC mandou-o retirar US$ 1 milhão de uma conta no SCS Bank Allience de Genebra para distribuir aos agentes da Interpol que o tinham localizado: Interpol-Brasil, 600 mil; Interpol-Uruguai, 400 mil. PC mantinha um sistema financeiro composto de 15 contas correntes, revela Lucas Figueiredo, todas interligadas: seis na Suiça, cinco nos Estados Unidos, uma na Holanda, uma na Inglaterra, uma no Uruguai e uma nas Ilhas Cayman. Da conta uruguaia, foram sacados US$ 5 milhões para subornar deputados e procurar impedir o impeachment de Fernando Collor.
As impressionantes revelações de Morcegos Negros detalham nomes, situações, esquemas, planos, falcatruas, maracutaias, sordidez e podridão. E lama suficiente para ninguém colocar defeito.
Mas, segure-se e aperte algum cinto por perto: os federais que desencadearam a investigação, na qual Figueiredo demonstra acreditar (não diz explicitamente, mas viajou com alguns deles para Roma), possuiam nas mãos uma forte carga investigativa. Chegamos à página 207, quando o autor começa a descrever a odisséia da Polícia Federal diante dos obstáculos colocados pasme, leitor! pela Justiça brasileira. Sim, está escrito que o delegado Daniel Lorenz fez um relatório e informou que através da Operação Cartagena havia sito descoberto que o chamado Esquema PC mobilizava contas bancárias múltiplas e se envolvia com corrupção e tráfico internacional de entorpecentes. Mas...
O juiz do caso, conta Figueiredo, achou tudo isso muito fraco. O Ministério Público foi além: nesta incipiente investigação, e com os elementos até agora colhidos, não é possível afirmar que as contas bancárias sediadas no exterior e identificadas como sendo vinculadas ao Esquema PC eram movimentadas com recursos provenientes de ilícitos penais. Segundo Figueiredo, um enredo reflexo de postura do dirigente do Ministério Público, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, apelidado em algumas rodas do Congresso de engavetador-geral da República ou simplesmente freezer. A acusação é grave. Mas está escrita na págia 242. O que não é ao todo de se admirar, porque antes de Brindeiro PC Farias fôra denunciado por concussão, que é crime praticado por funcionário público. E PC foi absolvido, porque nunca trabalhou para o Estado... Resta saber se o óbvio para qualquer aluno de cursinho de Direito poderia ter alguma circunstância atenuante. Quer dizer: não havia, entendeu-se, sinal exterior de safadeza. Data vênia...
O juiz Falcone não se considerava Robin Hood ou kamikaze. Sou simplesmente servidor do Estado em terra infiel. Essa frase sempre me pareceu enigmática. Agora, com o livro de Lucas Figueiredo, consegui compreendê-la melhor. O polvo está solto.
Morcego Negro, de Lucas Figueiredo, Editora Record, 436 páginas, R$ 28,00.





