Paz de espírito com fins lucrativos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de junho de 2017
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Imagine voltar ao passado sabendo de todas as descobertas realizadas ao longo de séculos de progresso. Imagine voltar para a idade da pedra e viver entre os trogloditas.
Como ajudá-los? Seria possível construir um mísera geladeira? Seria possível produzir energia elétrica? Como explicar como essas coisas funcionam? Como curar um apendicite? Como explicar a hipotenusa de um triângulo isósceles?
Tudo indica que não seria possível nem mesmo fazer fogo esfregado um pauzinho numa pedra. Uma mísera faca, só se fosse de pedra tosca. Ou seja, todo o conhecimento seria para quase nada.
Talvez com ao medo da morte ocorra algo semelhante. Apesar de todo conhecimento acumulado pela humanidade ao longo de milênios, as pessoas ainda têm medo da morte. Um medo praticamente incurável.
Essa é a tese que Don DeLillo apresenta no romance "Ruído Branco". Lançado em 1987, a obra acaba de ser reeditada pela Companhia das Letras. Trata-se do romance que impulsionou a carreira do escritor norte-americano como severo crítico do sistema e das relações de poder.
"Ruído Branco" traz o relato Jack, um professor universitário chefe do departamento de hitlerologia (disciplina que estuda a vida e a obra de Hitler). Vive numa tranquila cidade do interior com a esposa Babette e uma penca de filhos de casamentos anteriores.
Jack sofre de uma fobia ancestral: o medo da morte. Não esconde o medo de ninguém, expõe seu pavor abertamente para amigos e familiares. Com um dos professores da universidade onde leciona, trava longas conversas sobre o assunto. As conclusões dessas conversas podem tanto gerar alívio quanto tensão. Coisas como: "As multidões surgiram para construiu um escudo contra a própria morte. Virar multidão é afastar a morte. Separar-se da multidão é arriscar-se a morrer como indivíduo, a encarar a morte sozinho. Era essa a principal razão pelas quais as multidões apareceram."
Um belo dia sua vida pacata é abalada por dois acontecimentos. Primeiro, após um acidente industrial ocorrido na região, Jack é contaminado por um componente altamente tóxico. Após exames, os médicos afirmam que sua vida corre o risco de ser abreviada.
Em seguida Jack descobre que a esposa está tomando um remédio escondida de todos. Babette integra, como cobaia, a pesquisa de um grande laboratório farmacêutico. Como voluntária secreta, experimenta uma nova droga que interage com os neurotransmissores cerebrais associados ao pavor da morte. Um medicamento que promete curar o medo da morte.
O quadro é claro. Primeiro Jack recebe a notícia de que deve morrer antes do previsto. Depois descobre que a esposa utiliza, em segredo, um medicamento que ele sempre sonhou um remédio que promove a paz de espírito com os devidos fins lucrativos. Também descobre que a esposa também possui pavor da morte, mas nunca teve coragem de admitir a fobia.
No decorrer da história, Don DeLillo insere uma série de críticas irônicas ao sistema de vida americano, elemento característico de sua literatura. Reflexões irônicas contra as formas de poder, contras as grandes corporações, contra a cultura do consumo, contra a indústria do entretenimento, contra o poder econômico e muito mais. Para se ter uma ideia, as maiores discussões sobre a morte, nas páginas do romance, são travadas nos corredores de supermercados e mesas de redes de fast-food.
De DeLillo, nasceu em 1936, no bairro de Bronx, em Nova York. Começou na literatura escrevendo contos em 1971 e a partir da década de 1980 passou a se dedicar exclusivamente ao romance. Considerado uma das grandes vozes da literatura norte-americana contemporânea, possui oito obras publicadas no Brasil: "Os Nomes" (1989), "Libra" (1995), "Submundo" (1999), "O Artista do Corpo" (2001), "Cosmópolis" (2003), "Homem em Queda" (2007), "O Ponto Ômega" (2011) e "O Anjo Esmeralda" (2013).
Serviço:
"Ruído Branco"
Autor Don DeLillo
Editora Companhia das Letras
Tradução Paulo Henriques Britto
Páginas 398
Quanto R$ 57,90



