São Paulo, 07 (AE) - Os rappers do Pavilhão 9 vão mostrar as entranhas da periferia de São Paulo que sempre descreveram em suas letras cruas, raivosas. Pela primeira vez, estão gravando um clipe numa favela, na localidade de Vila Zaíra
na Vila Joaniza, zona sul. A música escolhida foi "Vai Explodir", uma das 13 faixas do quarto disco do grupo, "Se Deus Vier, que Venha Armado", que sai pela Paradoxx ainda este mês.
"Vai Explodir", como as demais letras do Pavilhão 9, é nitroglicerina pura. "Eu mando fogo/ Vamos ver quem é que pode/ O som é dinamite/ Só comove quando explode/ Eu vou falar pra quem se julga os tais/ Arrumo o escarcéu/ A nossa rima eficaz/ Vem me pegar / Na área frente a frente ou no beco/ Corre nas veia/ O hip hop som dos guetos", começa o rap.
O grupo sabe do que está falando. Dos sete integrantes, pelo menos um deles, o DJ Branco, morou 20 anos na Vila Zaíra. "Perdi mais de dez amigos de infância em tiroteios", diz. E mostra marcas de pancada nas costas que já levou da polícia e de rivais da área.
Rho$$i,("Os cifrões são uma crítica a esse capitalismo idiota") um dos vocalistas, letrista, líder do grupo e o único remanescente da formação inicial, de 1992, teve o irmão e o pai assassinados em situações nunca esclarecidas. Somente os dois continuam apresentando-se com o rosto coberto por uma balaclava negra. Escondem os rostos, dizem, para proteger-se de possível vingança de policiais, contra quem disparam suas frases mais violentas, como em "Otários Fardados", de 1993: "E com a farda passada, exigem respeito/ calibre na mão, emblema no peito".
As filmagens na terça-feira deixaram Vila Zaíra agitada. Numa das primeiras cenas, dois chevrolets Impala, um de 64 outro de 66, impecavelmente conservados, brilhosos, chamavam a atenção dos moradores do local. Uma adaptação hidráulica permitia aos carros saltar até meio metro do chão para a alegria de quem assistia às gravações. Alegria nervosa em alguns momentos. Alguns dos figurantes fazem o que chamam de defesa da área. Boa parte anda armada.
Estão com um olho na câmera, outro na entrada da Rua Duarte Galvão, acesso à sucessão de becos e vielas daquela favela de alvenaria, ruas de chão, esgoto a céu aberto, sacos de lixo revirados por vira-latas nas calçadas e fiação coberta de esqueletos de pipas. "Vamos dividir, vamos dividir, não fica todo mundo junto", ordena um dos vigias da área, espécie de líder dos outros jovens, arma no calção, condenado por assalto, foragido, mas na terça-feira, um figurante orgulhoso.
"Se as filmagens fossem em outra quebrada, nós não íamos poder participar", diz outro rapaz, arma na cintura, que prefere não identificar-se. Assume o cargo de porta-voz da comunidade e diz que os moradores gostaram de ter o clipe filmado na área. "Pega bem, porque a quebrada é muito mal vista pelas autoridades e não é nada disso que eles pensam", diz. "Niguém rouba pobre por aqui".
As filmagens prosseguem na parte alta da Vila Zaíra com uma apresentação de dança break e de grafiteiros. Pausa para uma cerveja no botequim apertado onde a dose da cachaça sai por R$ 0 50 e logo em frente um sofá (em plena rua) acomoda uma roda de jogadores de dominó. "Vamos mostrar a violência, mas também o lado alegre da favela", diz o diretor João Araújo, responsável, entre outros, por clipes do Charlie Brown e do Detentos do Rap.
O diretor ainda não sabe o tamanho da dose de violência que vai despejar no clipe, mas, para garantir material de arquivo, visitou a favela durante uma madrugada logo depois de uma troca de tiros entre bandidos. Depois de uma visita à favela
o nome do disco soa como um recado ao homem lá de cima.

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