O maestro Paulo Moura quer ver todo mundo dançando ao som de ''Estação Leopoldina'', disco que ele acaba de lançar pelo selo Rádio MEC-BR. As 14 faixas são um apanhado dos melhores ritmos brasileiros e latinos e foram testadas seis meses, com casa sempre lotada. Mas a origem do disco é anterior. Vem das rodas de samba e choro que Paulo Moura frequentou na época em que morava em Ramos, na zona norte, logo ao chegar de Ribeirão Preto, a 310 quilômetros de São Paulo, cidade onde nasceu.
O nome do CD vem daí. Ramos, onde ficam as favelas do Complexo do Alemão, e também a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, é um dos principais bairros servidos pela linha de trem da Leopoldina, uma das duas que chegam ao subúrbio no Rio (a outra é a linha da Central). Daí o título. ''Nessa região se faz um samba mais percussivo, o pagode de mesa, como eles chamam, que tem um tipo de nobreza diferente do samba que se faz na zona sul e também da Bossa Nova, que veio depois'', diz ele. ''Frequentei muito essas rodas, que aconteciam no Cacique de Ramos e que depois ganharam o País com o Fundo de Quintal e o Almir Guineto.''
Para gravar o disco, ele chamou craques desse tipo de festa, como Carlinhos 7 Cordas, Chico Chagas (acordeão), Márcio Almeida (cavaquinho), Paulinho Black (bateria), Rodrigo Lessa (bandolim), Marcos Esguleba, Marcos Zama, Laudir de Oliveira (percussões) e pediu músicas inéditas a eles e as testou nos bailes que fez no Rio Scenarium. As que agradaram mais entraram no disco, que tem ainda Jacob do Bandolim (''Receita de Samba'', ''Simplicidade'' e ''Nosso Romance''), João Donato e Gilberto Gil (''Bananeira''), Baden Powell e Vinícius de Moraes (''Deve ser Amor''), além de um pot-pourri com hits de gafieira e rodas de samba (''Trem das 11'', ''Amélia'', etc).
Os músicos trouxeram outros ritmos além do samba, mas não menos dançantes. É impossível ficar quieto com a salsa ''Rala Coxa'', de Rodrigo Lessa, ou ouvindo o forró ''Oritimbó'' de Rodrigo Campello, ou ainda o choro ''Pro Paulo'', de Chico Chagas. Essa mistura de samba, forró e salsa (e seus congêneres) tem uma explicação. ''A música brasileira se assemelha muito ao estilo centro-americano e cubano'', diz. ''Tem alguma coisa também com o que se toca em Cabo Verde, como 'Rala Coxa', uma de minhas preferidas.''
Mas Paulo também compôs para esse disco. A onomatopéia de ''Estação Leopoldina'', a sincopada ''Fibra'', a quase carnavalesca ''Maré Cheia'' e a valsa ''Linda'', momento de descanso para os dançarinos, sem no entanto destoar do resto. Moura gravou o disco como se estivesse tocando ao vivo, para preservar o som e o ambiente do show/baile e também aproveitar o estúdio sinfônico da Radio MEC. O resultado ficou entre a roda de choro e a gafieira, mas ele minimiza a questão. ''Choro é um jeito de tocar. Alguns expoentes da música depreciam essas misturas, mas eu não'', comenta ele. ''Gosto de choro, samba, erudito, tudo que for boa música. E gosto muito mais de tocar para os outros dançarem. Ao contrário do que muita gente pensa, na pista de dança a pessoa presta muita atenção na música.''
''Estação Leopoldina'' é o quarto de oito discos previstos para a Rádio MEC produzir e lançar em parceria com a BR-Distribuidora , que entrou com R$ 900 mil, pela Lei Rouanet. ''É a forma de aproveitarmos os estúdios da emissora, que estavam ociosos, apesar de uma acústica perfeita'', lembra a diretora da rádio, Maristela Esteves. Os discos para o ano que vem estão sendo negociados, mas o acordo já rendeu frutos. A Petrobras, da qual a BR é subsidiária, assinou convênio para reformar antenas instalações e também os arquivos da Radio Nacional, que guarda a memória dos anos 40 aos 60, época de ouro da música brasileira.

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