Quando teve a ideia de fazer um filme sobre Paulo Menten - o maior gravurista que Londrina já teve -, o diretor Wagner Munhê não pensava em fazer uma homenagem, mas sim compartilhar com o público um pouco da sabedoria do artista. Aluno de Menten, Munhê vinha de Cornélio Procópio todos os sábados para aprender muito mais do que técnicas de gravura. ''Qualquer um que teve a oportunidade de conviver com ele teve uma grande possibilidade de crescimento. E é isso que a gente quis deixar no filme'', reconhece.
O curta-metragem ''Paulo Menten'' estreou em Londrina em 2009, dez anos depois do primeiro contato com o artista, e agora está começando a levar o pensamento de Menten para novos públicos: o filme foi um dos 40 selecionados (dentre 1.200 inscritos de mais de 60 países) para a décima edição do Fluxus 2010 - Festival Internacional de Cinema na Internet. O público pode assistir aos curtas selecionados pelo site do Fluxus (www.fluxusonline.com) até o dia 20 de junho, e votar em seu preferido. Os filmes também estão sendo exibidos no Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo.
''Paulo Menten'' começou a ser filmado em 2005, com recursos próprios e se valendo da boa vontade de amigos. Entre uma captação e outra, costumava haver um hiato grande, e as filmagens levaram três anos. Nesse período, Munhê, que era engenheiro químico, foi buscar conhecimento em oficinas e participando da produção e direção de outros filmes, como ''Booker Pittman'' e ''Morre um nome''.
''Paulo Menten'' mostra um pouco do cotidiano e do trabalho do artista, como o hábito de limpar o ateliê, a força empregada na prensa e nas placas de alumínio, as mãos impregnadas de tinta. ''Ele usava um sabão grosseiro, porque um sabonete qualquer não era capaz de tirar a tinta'', lembra Munhê, acrescentando que esta foi uma das cenas preferidas de Menten ao assistir ao curta.
O filme apresenta também o lado poeta do artista, que, embora tenha lançado apenas um livro (Diário de Bordo Inseguro, em 2005), tem um grande número de poemas guardados. ''Das oito horas de material gravado, uma era só dele lendo os próprios poemas'', calcula Munhê, que mesclou as leituras à ótimas declarações de Menten sobre a arte - em um dado momento, ele afirma que ser artista não deve ser uma profissão, mas uma necessidade. ''Essa foi talvez a maior lição que eu tive com ele. Expandiu meu conceito sobre a obra de arte. Ele uma vez me disse que a primeira pessoa que juntou as mãos em concha e pegou água do rio estava fazendo arte, porque estava criando um universo. E o artista é um criador de universos'', afirma o diretor.
Munhê guarda com carinho também muitas peculiaridades da vida do artista que só o convívio próximo é capaz de revelar. ''Ele encontrava uma bacia na rua e levava para fazer gravura. Batia nas placas de alumínio na calçada mesmo. Tinha uma dificuldade grande de fazer gravura. Uma vez me contou que transpirava tanto nas prensas que foi tirando uma peça de roupa, depois outra, e acabou só de cuecas'', recorda.
Outros elementos, como a admiração por Mário de Andrade, a relação com sua companheira de arte e de vida Dolores Branco, a relação com os alunos e vários outros aspectos da personalidade de Menten não couberam nos nove minutos e meio do filme. Mas lá está o essencial do artista, a tinta que não sai de suas mãos nem com sabão grosseiro.

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