Nascido em Curitiba, em 1944, Paulo Leminski pode ser considerado o poeta contemporâneo mais popular da literatura brasileira. Morto aos 44 anos, em 1989, sua obra permanece seduzindo gerações e gerações de leitores até os dias de hoje.

O volume “Toda Poesia”, publicado pela editora Companhia das Letras em 2013 reunindo toda a produção poética de Leminski, vendeu mais de 200 mil exemplares. Um número surpreendente gigante para um livro de poesia. Outro número igualmente surpreendente: atualmente existem 130 trabalhos acadêmicos sobre sua obra, 93 dissertações e 37 teses segundo dados da Capes.

Dentro das homenagens aos 80 anos de nascimento de Leminski comemorados em 2024, as editoras UFMG e UNICAMP estão lançando uma nova edição, revista e ampliada, de “Aço em Flor – A Poesia de Paulo Leminski”. O livro reúne estudos do escritor mineiro Fabrício Marques sobre a poesia de Leminski. Obra de referência, é formada por seis ensaios que analisam diferentes aspectos da literatura de Paulo Leminski.

Para Marques, a poesia de Leminski foi desenvolvida a partir da pluralidade: “A poesia de Leminski são artefatos híbridos, elaborados em um campo de tensão que promove atritos e afetos entre códigos e linguagem: uma mixórdia entre poesia de produção (ruptura com a tradição, vanguarda, inventiva) e a poesia de consumo (continuidade, literatura); entre o ordinário e o extraordinário, entre cotidianos reles e raros; desierarquização e hibridização de discursos (o poético e o factual), entre matérias pobres e nobres, alto e baixo repertório; troca de sinais entre Ocidente e Oriente.”

A seguir, Fabrício Marques fala sobre as particularidades da poética de Leminski, seu poder de sedução e sua capacidade de comunicação na arte de vincular forma e conteúdo à vida.

Qual foi seu interesse em estudar a obra de Paulo Leminski?

Fiz mestrado, em 1996, na Faculdade de Letras da UFMG sobre a poesia de Leminski porque percebi que ele era ignorado no meio acadêmico. Ao iniciar os estudos, percebi que a produção de um poeta pode nos ajudar a entender, em alguma medida, o que é ser brasileiro, e, ainda, que país se dá a ver a partir desta poética. É curioso pensar que os primeiros poemas de Leminski saem na revista “Invenção” em 1964, quando os militares afrontam a Constituição. Isso significa que grande parte de sua poesia é publicada durante a ditadura militar. Uma leitura possível é perceber que sua resposta ao arbítrio (mas não só a isso, claro) é investindo em uma poesia centrada na experimentação (em um primeiro momento), no diálogo com a canção, com a filosofia zen, entre outros. É como se, diante do drama de viver num país de extremas desigualdades, um contraponto a esse estado de coisas seria a resistência por meio da linguagem poética. Leminski poderia dizer, como Balzac: “Eu faço parte da oposição chamada vida”.

A obra de Leminski, especialmente a poesia, possui uma popularidade que atravessou décadas e se propaga até dias de hoje. Por que a poesia de Leminski é acessível a um amplo leque de leitores?

Para começo de conversa, tanto a poesia de Leminski quanto a figura pública dele são muito sedutoras. E ele usava este artifício a fim de chamar a atenção das pessoas para a importância da poesia e da paixão pela linguagem em nossas vidas. Em sua cruzada na defesa da poesia, que ele fazia com poemas e ensaios críticos, o tempo todo ele está tentando dizer que, se os automóveis são a extensão dos pés, se os óculos são a extensão dos olhos, a poesia é a extensão da mais enraizada humanidade, o lugar de criarmos linguagem. Vale aqui lembrar Décio Pignatari, que lembrava que a palavra “poeta” vem do grego “poietes”, “aquele que faz”. Faz o quê? Faz linguagem. Para o poeta, mergulhar na vida e mergulhar na linguagem é (quase) a mesma coisa. Ele está sempre criando e recriando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo. Leminski seguia esse caminho, entendo a poesia como “a liberdade da minha linguagem”. Utilizando uma linguagem coloquial, próxima dos leitores e das ruas. Ele dizia controlar o teor de redundâncias e “facilidades” de seus poemas. Daí, sua popularidade, mas perpassada por essa consciência crítica.

A popularidade dos versos de Leminski, ao longo de décadas, demonstra que sua poesia possui uma alta capacidade de comunicação com diferentes gerações. O que sua poesia possui de especial para ser altamente comunicativa?

Forma e conteúdo. Os temas universais, amor, amizade, morte, dor, a própria poesia, encapsulados em formas breves, como o haicai, ou próximas à canção, como em muitos poemas. Uma poesia colada à vida. Seu projeto, explicitado por ele mesmo, era perseguir uma poesia que equilibrasse o difícil da informação com o fácil da comunicação. Daí que muitos críticos torçam o nariz para versos como “poeta é quem se considera” ou “na vida ninguém paga meia”. Leminski deixou muito claro que isso fazia parte de seu projeto de incluir poemas “fáceis”, que, aliás, é uma espécie de armadilha para atrair mais leitores, manobra consciente, feito um lance duchampiano do ‘ready-made’, deslocando poemas banais para sua obra. Se estivesse vivo, Leminski daria risadas, ao receber a notícia de que a reunião de seus livros de poesia vendeu 200 mil exemplares, e que hoje há mais de 100 estudos acadêmicos sobre sua obra.

Em um dos ensaios de “Aço em Flor”, você aponta a influência da linguagem publicitária na poesia de Leminski. Como a publicidade está presente em seus versos?

A capacidade de síntese do poeta origina-se de quatro vertentes: poesia concreta, haicai, jornalismo e publicidade. A poesia concreta trabalha com a materialidade das palavras, tentando tirar o sumo delas. A forma breve do haicai busca captar um momento de iluminação do cotidiano. No jornalismo, os títulos de matéria procuram apresentar a essência de uma notícia em poucas palavras. No caso da publicidade, Leminski trabalhou na área, já sabendo o que queria como poeta. E se da poesia concreta, do haicai e do jornalismo tirou lições fundamentais de síntese, o aprendizado da publicidade – que é ponta de lança do capitalismo – deu a ele a consciência das contradições de se produzir arte numa sociedade de consumo. Na prática, um poema como “confira: tudo que respira / conspira”; ou um nome de livro como “distraídos venceremos” disseminam-se, aparecendo em camisetas, slogans, tornam-se ‘instagramáveis’.

Em outro ensaio do livro, você levanta a tese de que a produção poética de Leminski, especialmente na década de 70, possui fortes relações com Tropicalismo. Leminski teve uma fase tropicalista?

Não diria que ele teve uma fase tropicalista, mas sim que a Tropicália, no final dos anos 1960, teve um importante efeito sobre ele, sobretudo pela forma como esse movimento colocou a palavra falada e a canção na ordem do dia, tornando-se referência criativa para a poesia, os discos alimentando os livros. Para completar, não apenas as músicas, mas as ações e os comportamentos dos tropicalistas interessavam a Leminski: a forma de vestir, as gírias, as conversas. Não é por acaso que Caetano Veloso – mesmo que seja na fase pós-tropicalista –, tenha gravado uma composição de Leminski, “Verdura”, em 1981. Nesse contexto, em “Aço em Flor” procuro mostrar que Torquato Neto, com sua prosa opaca, “densa de informação como a poesia”, seria um dos tropicalistas com quem Leminski mais se identificava.

Alguns pesquisadores afirmam que a poesia de Leminski influenciou parte da produção da geração de poetas que floresceu na década de 1980 e 1990. Que influência foi essa?

A intervenção de Leminski na cena cultural do país, seja com seus poemas, seja com seus textos críticos em jornais e revistas, foi marcante para as gerações posteriores a ele, sobretudo pelo debate que ele colocou em circulação sobre a condição atópica do poeta no mundo das utilidades e da sociedade de consumo, entre outros. Cito, por exemplo, três poetas que conviveram com Leminski nos anos 1980, começaram a produzir no início dos anos 1990, e conquistaram, cada um, sua própria voz: Josely Vianna Baptista, Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes. Escrever poesia no Brasil é tentar criar num país que podemos caracterizar como nos livros de Edimilson de Almeida Pereira, outro notável poeta: “Esse é um país que apodreceu e não reconhecemos o horror que nos tornamos”; “Esse é um país-esquecimento”; “Muitos não se dão conta do sofrimento daqueles que nos precederam. E menos ainda da projeção desse sofrimento em cada um de nós.” E a resposta desses poetas é a resistência. Como diria Leminski: “Que raio de dor é essa / que quanto mais dói / mais sai sol?”.

SERVIÇO:

“Aço em Flor – A Poesia de Paulo Leminski”

Autor – Fabrício Marques

Editora – UFMG / UNICAMP

Prefácio – Maria Esther Maciel

Páginas – 200

Quanto – R$ 66

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