Paulo Leminski é homenageado em sarau em São Paulo
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domingo, 29 de agosto de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 30 (AE) - Amanhã (31), no Finnegans Pub (Rua Cristiano Viana, 358, Pinheiros, São Paulo, tel. 852-3232), um poeta será homenageado. Não se trata de um Bloomsday temporão em homenagem ao irlandês James Joyce, mas um sarau oportuno em memória do poeta brasileiro Paulo Leminski (1944-1989).
O sarau é organizado pela intrépida revista de arte e poesia "Medusa", uma solitária sobrevivente em tempos de subvenções difíceis e pragmatismo hipócrita. Editada por um grupo de poetas de Curitiba e São Paulo, a revista "Medusa" festeja sua chegada ao número 6 com um dossiê Leminski, que inclui a publicação de três contos inéditos em livro do autor: "Céu Embaixo" (1986), "El Día En Que Me Quieras" (1984) e "Osíris" (1984).
"Eu faço poesia como a aranha faz sua teia", disse Leminski em entrevista a Ademir Assunção, em 1986, que também é publicada pela revista. Assunção entrevistou Leminski naquele ano, mas parte da entrevista (a que está sendo publicada agora) permaneceu inédita.
Paulo Leminski divide até mesmo seus pares: Bruno Tolentino e Augusto Massi consideram-no um pós-concreto trivial. Boris Schnaiderman e José Miguel Wisnik assinalam a densidade de sua linguagem, particularmente no seu livro mais elaborado, o "Catatau" - comparado a "Grande Sertão: Veredas" e às experiências de linguagem do Ulysses, de James Joyce.
"A obra dele está sendo levada adiante por característica própria", diz Ricardo Corona, editor da revista Medusa. "Ele passou pela vanguarda, mas abriu a poesia para um espaço mais intuitivo, que chega ao leitor-leitor e não fica só no âmbito do leitor-poeta", afirma.
Outra restrição que aplicam a Leminski é que ele não tem um tempo definido em sua trajetória. Corona faz questão de discordar, com argumentos. Lembra que, no "Catatau", há referências diretas à situação política do País nos anos 70. E recorda até de um haicai do autor. "Ameixas: ame-as ou deixe-as", diretamente endereçado à máxima fascista do general Médici e seu "Brasil: ame-o ou deixe-o", que foi endereçada aos que não concordavam com o regime militar.
Paulo Leminski começou a fazer poesia ainda criança, por influência do avô. Acreditava na linguagem e na sua capacidade expressiva. Morreu de cirrose hepática há dez anos. No dia 24 de agosto, ele faria 55 anos. A editora Iluminuras, que também apóia a edição da Medusa, prepara a republicação de alguns dos seus livros, como "Winterverno", escrito em parceria com o arquiteto João Virmond.
Erudito sem ser pedante, escreveu biografias de Bashô, Jesus Cristo, Trotski e traduziu poemas de John Lennon. Fazia poemas, crônicas, contos, escrevia sobre filosofia, dava aulas, fazia artes gráficas, quadrinhos, compunha letras de música (tem parcerias com Caetano Veloso e Itamar Assumpção), traduzia inglês, hebraico, tupi, japonês, latim, russo e sânscrito.
Leminski tornou-se incômodo para os conterrâneos no fim da vida. Hoje cidadão honorário póstumo do Paraná, o poeta vagava por Curitiba nas últimas semanas de vida atrás de um copo de vodca, como lembrou, em artigo o escritor Wilson Bueno. "Sem dinheiro e sem patrão, contando as moedas no fundo do bolso para pegar o ônibus expresso", escreveu.
Mesmo em curva descendente, Leminski nunca estancou a produtividade nem perdeu o senso de humor. "De colchão em colchão/descubro -/ minha casa é no chão", escreveu, deixando um haicai melancólico sobre sua derradeira condição.
Além do dossiê Leminski, a revista publica nesta edição - patrocinada pela Siemens - poemas de Wally Salomão e Ricardo Aleixo; contos da escritora paranaense Luci Collin; ensaio sobre o fotógrafo inglês Charles Jones, escrito por Vânia Schittenheim; traduções de poemas de Robert Hunter (autor de letras da banda Greatfull Dead); e trabalhos dos artistas plásticos Newton Goto, Eliana Borges, Débora Montenegro e Andréa Las.


