Paulo Francis
Jota
Nova York - Três pessoas, quase sempre diferentes, visitam todo dia o Ministério da Justiça como lobistas da Petrobrás. O objetivo é torcer o braço, como se diz aqui, de quem proponha qualquer forma de abertura do mercado de petróleo. Esse lobby não tem contrapartida em grupos que gostariam de abrir o País à prospecção, acabando com a nossa sujeição a importações que custam ao público, no momento, anualmente, US$ 3 bilhões, sem que tenhamos a menor influência no mercado mundial de petróleo. A situação de dependência é a que vivemos sob a Petrobrás.
Vale quanto?
O debate em curso é um travesti da realidade. Da Vale do Rio Doce, Barbosa Lima diz: A Vale é o futuro do Brasil. Ninguém conhece as riquezas imensas que ela tem, nem quanto valerão seus metais. Como é que é mesmo? Por que não se conhece, sabe, etc.? É segredo de Estado? Por que o Brasil só recebe 0,8% dos US$ 3 bilhões que aplica anualmente na Vale, o que em país civilizado seria sinal verde para fechar a companhia, vendê-la, ou modernizá-la de alguma forma?
Barbosa Lima é a melhor cabeça do nacionalismo brasileiro. É um bom sujeito, mas Deus nos acuda.
Minissérie
Nostromo, que quer dizer nosso homem, é o título do grande romance de Joseph Conrad sobre a América Latina. Ele nos leva à mítica nação de Costaguana. Todos os políticos são ladrões ou patetas. Um inglês, Gould, quer explorar uma mina de prata. Todo o establishment de Costaguana quer roubá-lo. Nota: ninguém se habilita a explorar a mina, a criar empregos para os mineiros, dar-lhes assistência médica e social. Gould faz tudo isso. É xingado por líderes de várias facções, que o acusam de estar roubando a riqueza do país, confundindo, o que é comum na América Latina, recursos, inexplorados, com riqueza, que é líquida. Passou uma minissérie da BBC de Nostromo, na Educativa dos EUA.
Olha o Dornelles...
Conrad é o único grande romancista do século passado que se preocupou com os chamados Terceiro e Quarto Mundos. Os dois grandes romancistas de língua portuguesa, Eça e Machado, preferiam Paris, ou, no caso de Machado, ele vivia em Londres, nas suas fantasias criadoras. Conrad viajou à África na sua ficção, e em Nostromo nos visitou. Vi com amigos, que diziam: Olha lá o Sérgio Motta, olha o Dornelles...
Fatos
Getúlio Vargas não queria monopólio. Queria presença, o que é razoável, dadas as condições da época, anos 50, em que os EUA, com Eisenhower, impediram que companhias norte-americanas explorassem o petróleo nos países árabes, para não baratear o preço cobrado pelas produtoras internas, pois os EUA ainda eram exportadores, quando hoje são importadores, em cerca de 50% do consumo, isto é, interessa a Washington que os preços não subam. Daí a cacetada em Saddam, etc.
Lobbies
A pressão da Petrobrás contra a abertura é feita em grande parte por empresários particulares, favorecidos pelo monopólio. Esses empresários não querem competição. Os negócios que fazem com a Petrossauro deveriam ser examinados pela opinião pública, por nossa vigilante imprensa...
Mais fatos
A Petrobrás está literalmente abotoando quem quer que se habilite a investir em prospecção no Brasil, propondo joint ventures, investimento conjunto, em que, claro, seria majoritária, e a gringalhada contribuiria com dinheiro e trabalho.
Dados
A Petrobrás, na futura Agência Nacional de Petróleo, ficará de posse de todos os dados geológicos sobre a prospecção de petróleo no Brasil. Quem quiser investir, em suma, correr o risco, terá de recorrer ao monopólio. É o medo pânico de concorrência.
Cem anos de nacionalismo
Barbosa Lima Sobrinho celebra um século de existência, dia 22, 100 anos, cem velinhas. Parabéns. É uma pessoa encantadora, um tipo de brasileiro com personalidade forte, o que mais e mais escasseia, cedendo lugar a uma sociedade de zebus, prevista por Nelson Rodrigues.
Barbosa Lima cita Fernando Henrique, em 1988, dizendo: Nem precisa falar. Está no meu sangue defender a Petrobrás. O Iluminismo, de que Barbosa Lima e Fernando são filhos, concluiu que a razão é o determinante do que é o certo, ou errado. Custo e benefício da Petrobrás deveriam ser o critério de julgá-la para membros da infinitesimal elite brasileira, como Barbosa Lima e Fernando. E não apoiá-la como se fosse o Flamengo ou o Corinthians. Mas, qual, Joseph Conrad nos tirou na pinta (ver nota abaixo, sobre Costaguana).
A cabeça de Barbosa Lima é de uma simplicidade franciscana. O que é nacional é bom, o que é estrangeiro é ruim. Nacionalizemos tudo, fechemos tudo ao estrangeiro. É o que fizemos em toda a nossa história. Se queres um monumento, olha em torno...
Espantalhos
Na entrevista centenária de Barbosa Lima a O Globo, ele se queixa da globalização da economia, pergunta se Fernando sofreu transfusão de sangue, uma piada contra a declaração presidencial acima, porque a Petrobrás estaria caindo na mão do entreguismo. Que globalização? Que entreguismo? Não cita um único privilégio de que a Petrobrás tenha sido privada. O fato é que seu férreo monopólio foi ampliado por um autêntico cinto da castidade contra quem queira entrar no mercado.
Parto capitalista
Os europeus e norte-americanos querem ganhar dinheiro, L-U-C-R-O, como diria Eugênio Gudin. Há um americano que fornece o capital ao inglês, Gould, para explorar a mina. Há um lorde pastoso que abre uma estrada de ferro. Instalam luz elétrica (o romance se passa em 1904), tudo trazido por gente que quer L-U-C-R-O. É assim que o mundo funciona. Em troca, esses capitalistas fornecem prosperidade e modernidade aos nativos. Nativo é gente como Sarney, Dornelles, etc. Lutam uns com os outros pelo poder, que usufruem em benefício próprio e de seus apaniguados. Sua cobiça é raspa-barril, a sina do subdesenvolvimento. As massas, índios, cafuzos, imigrantes pobres, se exaltam diante de qualquer líder que lhes prometa mundos e fundos. Só quem lhes dá meios de sobreviver é o gringo. Aproveitam, mas não reconhecem a origem dessa benesse.
Zola dos zulus
Não se encontra crítica mais abrangente e sutil do imperialismo e colonialismo do que na obra de Conrad. Mas não tinha esperanças de que gente do Terceiro e Quarto Mundo evoluísse para a civilização. Como dizem, onde está o Zola dos zulus?
Velhos
Mais uma vez a Corte Suprema dos EUA usurpa as funções do Legislativo. Está julgando se é legal, constitucional, que médicos ajudem doentes incuráveis a morrer. Não é assunto para juristas, uma elite nomeada pelo presidente e Congresso, e, sim, um tema a ser debatido democraticamente pelo Legislativo, este, sim, eleito pelo povo. Um plebiscito na Califórnia, maior Estado dos EUA, negou o direito aos médicos de matar. No Oregon, deu esse direito, por pluralidade mínima.
Desinformatio
O dr. Jack Keworkian, que mata, já foi processado criminalmente, mas júris não querem condená-lo. A mídia desinforma, o que Carlos Lacerda chamava desinformatio (prática soviética). A maioria dos pacientes de Keworkian não é de gente condenada à morte. É de deprimidos, sim, gente que não quer mais viver e opta por suicídio ajudado pela mão de um Keworkian.
Médicos, desde Hipócrates, juraram salvar vidas. Se a Corte Suprema ouvir os que querem, com falsa piedade, legalizar o direito à eutanásia, os médicos serão licenciados para matar. Será um dos maiores tournantes culturais da história.
Consequências: sendo o ser humano o que é, concebido em pecado e criado na corrupção, como disse Santo Agostinho (que achava o pecado muito gostoso antes de virar santo...), muita gente idosa, com dinheiro, será assassinada por herdeiros. Ou até gente velha que é simplesmente incômoda para os mais jovens. E os velhos nas enfermarias públicas podem ser massacrados. Gente pobre, indefesa.
Vício intelectual
Intelectuais tendem a se abstrair desse feijão-com-arroz, como Edmund Burke notou. Não percebem o condicionamento que sedimenta as sociedades... gostam do maravilhoso, das soluções radicais, abstratas, simétricas... Típico é Leonardo Boff, que se diz a favor da reeleição em todos níveis políticos. Racionalmente, a reeleição é o óbvio democrático. No Brasil, não, porque em Estados atrasados, onde se compra o voto por R$ 5,00, perpetuaria no poder famílias como de Sir Ney, vulgo José Ribamar, de alcunha Sarney.
Os juízes da Corte Suprema, uma maioria, já criaram esse monstrengo que é o direito constitucional ao aborto. O que era um problema particular, para ser resolvido discretamente entre marido, mulher e médico, virou legalização de um massacre que chega a 1,5 milhão de fetos por ano, alguns gestados há mais de seis meses, mortos por suas mães.
Agora chegou a vez dos velhos?
O Judeu
Jom Tob Azulay, com seu filme O Judeu, que está sendo exibido em Nova York, no Film Forum, recebeu uma crítica favorável do New York Times, decisiva para cinema estrangeiro. É o primeiro filme brasileiro que se vê por aqui, em muitos anos. É uma abertura para o nosso cinema com ambição de qualidade. Millôr Fernandes trabalhou no script com Geraldo Carneiro. Antônio José da Silva, nosso dramaturgo, brasileiro de nascença, era um judeu convertido ao catolicismo. Foi torturado e assassinado pela Inquisição (meia bomba...) de Portugual. Os motivos da perseguição são obscuros. Pouco se sabe, realmente, sobre Antônio José, cuja Guerras dos Alecrim e Manjerona Gianni Ratto montou quando pelejávamos por fazer um teatro brasileiro decente, no fim dos anos 50. Dias Gomes escreveu uma peça. Um artista, torturado e morto pela repressão, é um assunto sempre vivo, e Azulay, que levou anos enfrentando toda espécie de dificuldade para terminar seu filme, faz justiça e honra a memória de Antônio José.
Nova York por aí
q Oliver Sacks, o autor de Awakenings (Despertar), neurologista que usou uma droga, L-Dopa, para a doença de Parkinson, em esquizofrênicos, acordando-os para a vida e, depois, tiveram uma recaída, vai ao Brasil lançar seu novo livro, The Island of The Colorblind (Ilha dos Daltônicos). Vai a convite de O Estado de S. Paulo. Awakenings é uma obra-prima e gerou outra obra-prima, a peça de Harold Pinter Uma Espécie de Alasca, em que uma mulher acorda depois de 20 anos de torpor, e, ao ver nosso mundo, prefere dormir de novo... Quase passei um telegrama mandando Sacks à pata que o lambeu, etc., quando assinou um manifesto coligido pela aventureira Gloria Steinem contra uma grande retrospectiva da obra de Freud na Biblioteca do Congresso dos EUA. Sacks, soube, é gago. Gagueira é agressividade reprimida, segundo Freud. Sacks deveria ver um psicanalista.
q Nunca vi no palco a ópera de Gounod Romeu e Julieta. A música é assim-assim e já ouvi árias. Vejo um laser da Royal Opera inglesa, com Robert Alagna e Leontina Vaduva. Ela é bela, delicada, sensual, e jovem, jovem, jovem, jovem, jovem... Julieta tem 16 anos de idade. Seu jeito de criança e sua profunda sensualidade têm nessa jovem soprano uma intérprete deliciosa, que me enterneceu profundamente. Sua voz ainda requer uma certa cancha para que possa fluir sem nenhum esforço, mas é orgasmática.
q Saul Bellow diz que antes da 2ª Guerra os ginasianos americanos eram obrigados a estudar Hamlet, Macbeth, O Mercador de Veneza e Júlio Cesar, de Shakespeare. Hoje, só um terço das escolas públicas dos EUA inclui um curso sobre Shakespeare. Os pilares da língua inglesa são Shakespeare, a Bíblia do Rei James e Jonathan Swift, prosa moderna. No mundinho de massas de 34 palavras ditas pelo locutor de televisão, quem pode entender sequer Shakespeare? Waaal, muita gente, porque em 1996 a meretrícia Hollywood fez filmes sobre Romeu e Julieta, A 12ª Noite, Hamlet, Othello e Ricardo III. Nem todos são Kosher, mas, ainda assim, Shakespeare foi o autor mais representado do ano... A televisão nos deu Jane Austen e Joseph Conrad. O cinema nos ofereceu mais Henry James e Edith Wharton. Quem pode viver dos escritores que a esquerda multiculturalista quer impor? Nada tem a dizer, como seus mentores...
q São João diz que Cristo só escreveu uma vez, e ninguém sabe o quê. A palavra escrita era muito malvista até Santo Ambrósio, em 384, a.D. Cristo preferia falar. Platão dialogar. A Ilíada nos veio em tradição oral... Sábado, um ano de morte de Ênio Silveira, que me lembra Dante, Per chío te sovra te corono e mitrio.





