Paulo Francis
Jota
Nova York - US$ 5 bilhões de déficit comercial em 1996 e US$ 7 bilhões previstos para 1997. Nada produzimos, nada temos que não possa ser substituído mais barato e melhor em outra parte do mundo. Até nosso café já era. E, com o Real posando de moeda forte por artifício cambial - quer dizer, não por riqueza do País -, viramos um produtor de matérias-primas - o que sempre fomos em toda a História - cheio de soberba. Qual.
MINHA CONVERSÃO
Como todo brasileiro da minha formação, aprendi sobre Nelson que era um cão capitalista. Em seis meses de Nova York, mudei de idéia. Tudo de bom nesta cidade tinha um dedo Rockefeller. Em 1974, vi Tristão e Isolda, com Birgit Nilsson e Jon Vickers, com os US$ 5 milhões da produção pagos por Abby Rockefeller, prima de Nelson. William Faulkner disse que a Ode a uma Urna Grega de Keats valia 30 mil velhotas.
IRMÃS
Em The Importance of Being Earnest, Oscar Wilde nota que as duas heroínas estão se chamando de irmãs, mas acrescentando que antes disso se chamaram de muitas outras coisas... Como mulheres se odeiam. Toda a pretensão de uma minoria que emergiu, nos anos 70, depois de 9 mil anos de silêncio, de que há uma solidariedade feminista, uma sonoridade, é uma falácia ideológica risível.
LENI
CCinema é um bom exemplo. Só houve até hoje duas diretoras de talento comprovado. E cinema, segundo a ortodoxia vigente, é a arte do diretor. Leni Riefensthal (1902 -) fez dois documentários nos 1930: Vontade de Poder (1935), sobre um congresso nazista em Nuremberg, e Olimpya (1938) sobre os Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha. Acho política de massa, qualquer política, ridícula, e o espetáculo daqueles teutões marchando como autômatos, em Vontade de Poder, para mim, é soporífero. A Olimpíada, waal, em esporte gosto de ver as coxinhas das tenistas e olhe lá. Mas não sou insensível à arte de harmonizar e dar impacto a imagens, e, nisso, La Riefensthal sabe que o faz. Em Olimpya, por exemplo, nos mostra como se portam os corredores depois da maratona, seres humanos se desmilinguindo, em vez do corte abrupto do documentarista comercial, assim que os atletas tocam a fita final.
Nunca mais fez um filme depois da derrota alemã na 2ª Guerra.
Walter Gieseking, pianista sublime, mas nazista, de camiseta e carteira, foi perdoado. Von Karajan, idem. Mas Leni é mulher. A fúria das mulheres contra ela nunca se esgotou. Nos anos 80, Susan Sontag bombardeou Leni, no New York Review, acusando-a de continuar a favor da pureza racial por causa de um livro de fotografias sobre uma tribo africana, os nubas, tribo em extinção. Riefensthal, aos 90 anos e lá vai fumaça, faz pesca submarina e tem amantes!!! Pode-se imaginar os sentimentos de Sontag, em relação a Leni. Sontag fez filmes, quá, escreveu romances, quá. Uma tomada de Leni, de Jesse Owen correndo, é mais criadora do que toda a sua vida.
GRANDE LINA
Nos anos 70, esgotados os cultos de Fellini, Antonioni, Godard e outros da moda dos anos 60, foi uma diretora, italiana, Lina Wertmuller (1926 -) que fez notícia em cinema, com um filme chamado Pasqualini Sete Belezas. Era a história de um proxeneta italiano, um petty thief, na 2ª Guerra, que vai parar num campo de concentração nazista e para sobreviver come a comandante do campo, uma mulher monstruosamente gorda. Giancarlo Gianini, caindo-lhe os dentes de fraqueza, esfomeado, diante daquele Leviatã feminino, consegue uma ereção, e a nazista, Shirley Stoller, comenta durante o ato que ele, verme mediterrâneo, sub-raça, vai sobreviver, porque sua vontade de viver é imortal. É uma metáfora inesquecível, uma das raras vezes em que cinema, na minha memória, sai do lugar-comum sentimental, humanista, middle-brow, que a ratatuia que controla essas seçõezinhas de jornal promove.
Gente séria se ofendeu. Bruno Bettelheim, que esteve em Dachau e Buchenwald, escreveu um artigo violento contra o desrespeito de Wertmuller pelas vítimas dos nazistas. Humor desconcerta nossas mais profundas certezas. Mas, com todo o devido respeito, acho que Bettelheim não percebeu que o filme não se passa em Sobibor, digamos, um campo de extermínio nazista, mas num campo de concentração de políticos socialistas, como Fernando Rey, que se afunda no excremento, e ladrões menores, tipo Pasqualini. É um grande filme, o último grande filme feito, talvez. Hoje, há momentos, como Samuel Gardner e Travolta, discutindo Le Royal, cheeseburger à francesa, em Pulp Fiction, ou a menina da folhinha que se converte em mulher viva no final de Barton Fink, uma epifania dos Coen. Um ou outro teco de gênio. Mas a última narrativa completa, crível, foi de Lina Wertmuller. Vinte anos atrás...
INVEJOSAS
Fúria, mais uma vez, veio de mulheres. Pauline Kael escreveu pilhas de artigos maliciosos sobre Wertmuller, sobre seu socialismo, porque naquela época estava em moda o chique anticomunista de Soljenitsyn. Uma pobre escriba foi entrevistar Wertmuller no Pierre. Nevava. Jeca, ou necessitada, ou as duas coisas, a moça estava de galochas. Wertmuller, aristocrata de nascença, perguntou-lhe por que não usava botas, botas Gucci, de preferência. A moça ficou ofendidíssima no seu puritanismo americano. Escreveu à la longue sobre o esnobismo de Wertmuller. Mas quem vai lembrar dessas comadres no tempo? Wertmuller entrou na história do cinema, como Leni Riefensthal, e nunca uma americana, filha de um país que se gaba de ser absoluto em cinema, fez um filme que preste.
NOVA YORK POR AÍ
q Imóveis de preço médio caíram em Paris e em Londres. Vi uma maisonnete em Bloomsbury, freehold, comprável, por US$ 270 mil, dois quartos, banheiros, etc. Por 200 mil paus você compra um pied-à-terre em Paris, fora dos banlieus sórdidos. Já em Nova York, u-lá-lá, tudo pelos olhos da cara. Cismaram com esta cidade barulhenta.
q Excelente o Carré Feuillant em Paris. Em nenhum guia. Como a Scuola de Tintoretto, em Veneza, em que Tintoretto tentou replicar a Capela Sistina, de Michelangelo.
q O quadro de Picasso no MoMA francês, falando nisso, se chama Pigeon aux Petit Pois.
q Fui ver desenhos de Artaud. Ok. No MoMA.
q Max Beckmann é a grande surpresa no Guggenheim do Soho. O que não sei de pintura, Jesus. De certa maneira, é animador porque posso aprender e me deliciar, burro velho.
q Recebi um livro de obras do meu velho conhecido Bandeira, oxítono, pelo tempo que viveu em Paris, e também nosso abstrato-expressionista. Nos bons tempos de Vermelhinho, vi-o muitas vezes carregando obras recém-terminadas pela rua. Ouço dizer que Tieta do Agreste não deu 30% do que custou. O negócio é Mazzaropi, os Trapalhões, o Oscarito.
q A grande Marília Pêra vai montar Equilíbrio Delicado, de Edward Albee, no papel que vi na Broadway com Elaine Stricht. É difícil saber o destino de um texto sofisticado como esse no Brasil. Impossível tropicalizar Albee. Marília vale sempre a pena. Tônia Carrero, na irmã, bom casting, beleza e pose certas, e Paulo Autran, no cunhado (o diretor deve mandar que se contenha o máximo, que conte a história da gata vira-lata que recolheu da rua e mandou matar, da maneira mais coloquial possível, sem um mínimo de sentimento caliente. Vira mexicano à toa).
q John Leonard, lourinho e de olhos azuis, comenta adaptação de Nostromo, de Conrad, na televisão. Leonard acha que Conrad não entende o ponto de vista dos colonizados sul-americanos que Conrad dramatiza no romance, só se interessando pela corrupção dos brancos. O argumento é de Edward Said. É um dos pilares do multiculturalismo. Que os subdesenvolvidos têm um ponto de vista. Acho que não têm. Que são todos, filhos ou parentes de Ham, que riu de Noé, quando bêbado, e foi amaldiçoado.
q Mesozóicos.
q Conrad é melhor em novelas, como Heart of Darkness, do que em romances tipo Nostromo (nosso homem) e Victory. Seu inglês parece traduzido do polonês. Mas tem gênio.
q Um idiota na televisão mede a bela catedral St. John the Divine em termos de grande popularidade e frequência. Este país é uma piada, em muitos sentidos. St. John the Divine é episcopaliana, inglesa, anglicana, sem rei. A religião que Henry VII fez para roubar as propriedades católicas e casar com Anne Boleyn.
q Igreja popular é um contra-senso, principalmente cristã, porque o cristianismo, como disse Jesus ao moço rico, em Mateus, exige que se abandone tudo o que é material e se siga a fé. As adaptações que o cristianismo fez depois de que, no ano 1000, o mundo não acabou, como previsto, reconhecem uma certa mundanidade, mas o cerne da fé é a recusa de tudo o que é material e a concentração em salvar a alma. Isso aqui, nesta grande Palestina, terra de filisteus, é totalmente incompreensível. Freud chamava a América de o grande equívoco de Colombo.
q O Brasil recebeu US$ 9 bilhões em investimentos diretos estrangeiros em 1966. Uma gota dágua.
q Fragilidade, teu nome é mulher. Shakespeare.





