q Ginny Simms, voz macia, invulgar, em Night and Day, Biografia de Cole Porter, cantando ‘‘What is this Thing Called Love, I’ve Got You Under my Skin’’, e, glória, a versão original de ‘‘You’re Top, you’re Mahatma Gandhi’’, nome cortado depois que Gandhi foi assassinado. Cary Grant, como Cole, e Alexis Smith, como Linda, Madame Porter. Cole tentando arranjar dinheiro. Por quê? Era riquíssimo de herança, e Linda, duas vezes mais rica. O filme nada tem que ver com os fatos, exceto que Cole fez 36 operações na perna porque lhe caiu um cavalo em cima. Cary Grant e Alexis são muito bonitos, como casal. Cole não era. Aristocrata, parecia ter um pé no palheiro. Linda, uma beleza loura extraordinária. Mas a música. Ah! É pena que haja acompanhamentos gongóricos daqueles tempos de Hollywood. Mas uma nova biografia? Nem pensar. Iam entrar na vida sexual do casal, chega, basta, fora. Mas a ousadia de Cole Porter: Miss Otis é sem dúvida a subversão de toda a Era da Renda, dos formalismos morais do princípio do século, com seus subentendidos. ‘‘Love for Sale’’, cantado por Billie Holiday, faz da prostituição o mais melancólico dos prazeres, prazer aceito antes de vendido.
q Lew Ayres, que morreu semana passada com 88 anos, teve três vidas. Como o alemão que morre quando a guerra de 1918 acabou em ‘‘Nada de Novo no Front’’, adaptação sentimental de cinema do romance sentimental de Erich Maria Remarque. Lew vai pegar uma borboleta na trincheira, quando é baleado e morto, na flor da juventude. Alguns consideram o maior visual pacifista do nosso tempo. Na segunda encarnação de Lew, como o Dr. Kildare, em cinema, com Lionel Barrymore fazendo o médico-chefe turrão mas sentimental, muito agradou aos garotos da minha geração. Não é aquela titica de TV, não. É o filme, a série de filmes.
q A terceira vida era a surpreendente aparição de Lew em papéis menores, quando se tinha a impressão de tê-lo visto em algum lugar, sem poder identificá-lo com precisão. Mel Gussow, do Times, escreveu seu necrológio. Para variar, nesse jornal que despenca sem fim, entende do assunto. Mas não enfatiza que Lew estrelou com Greta Garbo ‘‘The Kiss’’, 1929, o último filme mudo de Hollywood, tido como um clássico. É citado como par de ‘‘City Lights’’, de Charles Chaplin, também mudo, que foi o Graal santo da minha geração em matéria de cinema. Tudo na vida é passageiro menos o condutor e o motorneiro.
q Descobri que Lew foi casado com Ginger Rogers, gracinha, mas devia ser puritana, reprimida.
q ‘‘Todo homem bom de cama se parece com anão de jardim.’’ Laurence Durrell, autor do ‘‘Quarteto de Alexandria’’, que se parecia com anão de jardim.

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