Paulo Francis
Nova York - Investimentos de US$ 130 bilhões no setor particular brasileiro em 1996? É uma notícia alvissareira para quem não sabe do potencial de investimento do País, ou da drenagem do Estado parasitário. Um dado: o Estado de São Paulo, que é, pelo menos, 50% da nossa economia, receberia US$ 21,5 bilhões até o ano 2000. Cerca de 6 bilhões e picos em três anos. Mixurucalha. Quanto se prevê de crescimento anual? Duvido que chegue a 3%. A China, que, afinal, tem um componente comunista no poder que não é de fancaria, anuncia que vai conter seu crescimento em 1997 a 10%. O Financial Times deu que a China é hoje a 18ª provedora de capital para o mundo.
Paris e Nova York por aí
Reli inteirinho Eminência Parda, de Aldous Huxley, que é, no capítulo Background religioso, a melhor explicação de misticismo que conheço, com sequelas nos romances de Huxley, Sem olhos em Gaza e O Tempo Deve Parar. Huxley argumenta que o homem tentou de mil maneiras ter uma vida boa e sempre fracassa. Talvez a saída seja se desligar de tudo emocional e sensorial e se concentrar num absoluto acima desses nossos estertores mortais. Faz sentido, em si. Mas por quê? Por que nos darmos a esse trabalho todo? Para nos livrar da frustração da vida? Sim, mas por que, se há um deus, seja de onde for, precisamos ser confrontados com toda essa miséria? Cristãos profissionais, digamos assim, como São Paulo, Santo Agostinho e Pascal (de quem Huxley tem má opinião) apelam à predestinação: sem dar satisfação a ninguém ou nem sequer tomar conhecimento dos nossos dilemas, o que facilitaria não amaldiçoarmos esse deus quando vemos uma criança em dores horrendas em hospitais de câncer, o infinito, eterno (?) e variado desfile de sofrimento que é, com raras pausas, a vida de todos nós. Esse deus concede a graça divina a alguns escolhidos. Inútil procurar analisar seus motivos. São inacessíveis à mente humana. Apostamos, como Pascal, na salvação.
Huxley nunca aceitou a predestinação. Acha que o misticismo é uma opção. Em companhia de um guru californiano, procurou esse absolutismo espiritual. Depois, tentou drogas. Sua mulher, quando morria de câncer, em 1955, recebeu grande dose de LSD do marido, paliativo. Ele, Huxley, morreu em 1963, no mesmo dia em que John Kennedy, também dopado.
Huxley critica o nosso Eminência Parda, frei José, um barão que se tornou franciscano e foi um dos principais assessores de Richelieu na política externa da França e um dos arquitetos da terrível Guerra dos 30 anos, no século 17, que massacrou grande parte dos alemães. Huxley lamenta que frei José, com seu excelente background espiritual, tenha se dedicado a coisas do mundo. Waal, a Igreja sempre se propôs dirigir o mundo. São Paulo, na Epístola aos Romanos, em que afirma como única explicação da injustiça da vida a predestinação e a consequente justificação da existência de deus pela fé, também escreve que os senhores poderão ir às igrejas acompanhados dos escravos, ratificando o sistema imperial romano. Delimita o sexo ao casamento, porque é melhor casar do que queimar, veta o céu aos que fazem sexo com outros objetivos que não a procriação, em suma, o cristianismo está em grande parte nessa Epístola, a que Karl Barth dedicou um ensaio sombrio de 500 páginas, que fez a cabeça de gente como John Updike, o que é visível no seu romance A Month of Many Sundays.
Eu estava olhando o Apóstolo na Sainte Chapelle, uma visão de pureza e espiritualidade, e comparando a oferendas materialistas do mais espiritual dos modernistas, Cézanne, como Nature Morte à la Soupiere, ou La Femme Cafetiere, os dois no Orsay, waal, os materialistas são estupendos, mas nunca mais recuperamos aquele sentimento que artesão anônimos de Chartres e Bruges nos deixaram. Huxley nunca aceitou a pintura moderna. Ficou fixado em El Greco e Bach, aceitando até Beethoven, pfui. El Greco hoje nos parece café pequeno perto de Velazquez e Goya, mas as modas mudam. O modernista mais fixado no cristianismo, Roualt, presente em todas as antologias críticas dos anos 50, hoje é conhecido apenas de especialistas.
Depois de um banho cultural em Paris, ou Roma, ou Florença, é difícil não concordar com Horkheim e Adorno de que os EUA são um reductio ad absurdum do humanismo, isto é, concederam ao cidadão comum praticamente tudo o que Rousseau pregava, mas cultura é coisa que não existe, a não ser muito pela rama. Opinião que George Steiner expõe à la longue num ensaio, sem atribuir sua origem a Adorno, que é quem mais fascina Steiner. Depois de Auschwitz, não haverá mais poesia, frase atribuída a Steiner, que é de Adorno, que Philip Larkin, Sylvia Plath e Robert Lowell desmentiram.
Procurei ler alguns Ruth Rendell na viagem. Ela é bem boa, ainda que nem sempre feliz estilisticamente e pede um pouco de desculpas demais para o público politicamente correto, quando demonstra o mal que se esconde nos corações humanos.
Imperdível, que li de uma sentada, é Northrop Frye on Shakespeare, Yale, 198 págs., 98 ff. Frye é um grande crítico, um conceituador inovativo, mas aqui se diverte mais com o que passa despercebido à maioria dos críticos. Por que por exemplo o melodioso Vai te fazer uma ninfa do mar... de Próspero a Ariel se só quem vai ver Ariel é Próspero. A possibilidade de masturbação poética, a auto-intoxicação de Shakespeare com as próprias palavras não parecem interessar a Frye. Mais divertido é quando ele cala quem acha que Cleópatra não valia a missa (e que missa) poética de Shakespeare, lembrando o que Horácio escreveu quando a verdadeira morreu: Agora é o tempo de beber e dançar, porque Cleópatra morreu e tudo vai ser maravilhoso. E tudo isso sem ela ter lido Simone de Beauvoir. Hamlet é sua maior vítima, escreve Frye. Sem a menor convicção do que faz é quem mais sofre na peça.
Daniel Piza reuniu ensaios críticos de Bernard Shaw, com o título de O Teatro de Idéias, Prosa Crítica de Bernard Shaw, 323 págs., Companhia das Letras. Na república dos mumunhos, das 34 palavras usadas, em média, na televisão, já é tempo de se voltar ao universo de Bernard Shaw, o último renascentista, em verdade, crítico, poeta teatral, ensaísta dotado de um estilo absolutamente irresistível, raisonneur, causeur, etc. Tudo o que diz é estimulante e, em verdade, fixou as reputações de Wilde, Ibsen, Wagner no teatro europeu do século 19. Definiu o que é teatro, o que pode ser, sem limites, e tinha o humor que não se via igual desde Voltaire. Shaw foi um grande jornalista. Lê-lo na seleção de Piza é ter uma idéia do que estamos perdendo.
A ler também o ensaio de Olavo de Barros sobre Aristóteles. Estranho intelectual, esse. Já nos deu um estudo sobre Epicuro. Não depende de fichas de Gramsci, Luckás, Walter Benjamin, et al. Vai aos filósofos que fizeram a tradição ocidental de pensamento, dando ao leitor jovem a oportunidade de atravessar esses clássicos. Conhece profundamente o assunto e é um didata nato, sem apego a jargão e obscurantismo. Avis rara, na nossa academia, em que a maioria é de gente encostada ou de ideólogos esquerdistas tentando passar mensagens de subversão aos jovens na linha caquética do chamado marxismo-leninismo, no Brasil reduzida ao farrapo de inteligibilidade do petelhismo.
O bem do homem deve ser o objetivo da ciência da política, Aristóteles
Índio sem apito
Os índios que sequestraram diplomatas e homens de negócios japoneses no Peru querem fazer um misto de Pol Pot no Camboja e Fidel Castro em Cuba. Admiram o primitivismo e a pobreza. Pol Pot queria acabar com o dinheiro. Acabou com 2 milhões de cambojanos. Sempre me fascino com a corda que a mídia dá a esses românticos. Alguém acredita que Camboja ou Cuba tenham futuro?
Intelectuais reacionários
O profundo desgosto de intelectuais com uma sociedade como a nossa, voltada para o lucro e a produção de bens de consumo, muitos extremamente vulgares, explica em boa parte essa nostalgia pelo primitivo. François Furet tem um ensaio devastador sobre o cansaço dos intelectuais franceses com a aridez oportunista do stalinismo, exercida com a maior imoralidade de meios em nome de fins que ninguém sequer vislumbrava. Furet diz que esses intelectuais por um tempo seguiram com o guru Lévy-Strauss, cujo modelo de autenticidade rousseauniana era o índio brasileiro!!! Só a ignorância indomável da nossa classe dirigente fez com que perdesse essa oportunidade de explorar o nosso silvícola como selvagem nobre.
Spengler dizia que os subdesenvolvidos não absorvem a civilização ocidental, que a imitam, nos exteriores, para desmoralizá-la... Verdade?
Fim de Fernando
A resposta deve estar no artigo Revolução silenciosa, de Fernando Henrique Cardoso, que um amigo me passa gentilmente por fax. Fernando se gaba da manobra monetarista que é o Plano Real, anátema para as esquerdas que nossa pândega Maria Conceição muito portuguesamente denunciou logo de estalo, certinha dentro do seu conformismo acadêmico e ideológico, levando Lula a dar com os burros (...) nágua na campanha presidencial.
Reeleito
Fernando I pode até ser reeleito, por demanda popular, como a mídia diz. Nada contra como pessoa. Olha, com amigos como Marmota e o Pombal-mirim Dornelles, eu diria isso de muito pouca gente. Nada disso com o nosso Fernando, cujo pecadilho parece ser apenas o que aqui chamam de roving eye e uma vaidade tão imensa que se persuadiu a si próprio de que é um excelente presidente. Reeleição, uma, para presidente. Ok. Mas levando de arrastão, como vai ter de ser, o Brasil político na Era Mezozóica, vai dar desgraceira. Tomem nota.
Maquiavel devagar
É só isso que Fernando tem a oferecer. Nem uma palavra sobre o Leviatã estatal brasileiro que, em benefício de uma minoria, impede o acesso de mais de 100 milhões de brasileiros à economia de mercado, a única que, pela sua versatilidade, elã, necessidade de lucro, pode gerar prosperidade e empregos produtivos.
Um amigo antigo que não lê o que escrevo ou me vê na televisão pergunta se ainda apóio esse jogral, Fernando Henrique. Boa palavra jogral. Mas por quê? O amigo reclama de esperar meia hora por linha telefônica em Petrópolis.
Mas o artigo de Fernando é de um maquiavelismo vagaroso. Fernando está dizendo à esquerda que, se ele for substituído por alguém como Maluf, por exemplo, que tem coragem de quebrar a crista das estatais, o que será desse mutirão de professores universitários ociosos, dos cinicalistas, como os chamava corretamente o Correio da Manhã, em suma, desses mamateiros (ou marmiteiros) da carniça estatista? Terão de trabalhar para ganhar a vida!!!! E aos que acreditam numa economia de mercado, embora não diga uma palavra sobre privatização, está lembrando que os bancos vão muito bem, obrigado, que o Risco Brasil vale a pena correr, porque quem é rico está ganhando muito dinheiro emprestando dinheiro ao falido Estado brasileiro. If it aint broke, dont fix it, diz o ditado popular, e Gentil Cardoso dizia de times que funcionavam.
Prognósticos
Tem de se tirar o chapéu para o otimismo que reina na mídia. Como já se disse, um otimista é uma pessoa mal-informada. Ou cega, ou incuravelmente obtusa. No varejo, se melhoramos de vida, se entendemos afinal o Teorema de Fermat (e sua solução), se alguém merece e recebe nosso afeto, coisas assim, há razão para otimismo. Agora, pretender acreditar que israelenses e palestinos vão chegar a um acordo, que a África deixará de ser um campo de extermínio informal, que a Irlanda do Norte, parte da Inglaterra, será incorporada pacificamente à República da Irlanda ao Sul, ou Fidel Castro e esse bandido Cartolini são porta-estandartes de um socialismo humano, pfui, mil vezes pfui. Amigos do Rio me falam que Nero César Maia instilou amor à cidade aos cariocas. Waal, ainda existem? Pensei que o Rio hoje fosse o sertão trazido à Costa Sul. Que essa minoria de estóicos e abnegados acredita que o Rio poderá ser sede da Olimpíada de 2004. Waal, por lealdade me calo.
Dalton
Nossos tesouros, parcos, mas, como Dalton Trevisan, em Veja, no conto Feliz Natal, brilhantes e valiosos, mas provavelmente inacessíveis à mentalidade massificada dominante. O conto é sobre um bêbado que estupra grávidas, de preferência. É tão elaborado como Cosi Fan Tutte, de Mozart, que vejo no Metropolitan, em TV. Mozart embeleza o que representa, o que era possível pré-Kant. A mensagem de Cosi é sobre a safadeza intrínseca do ser humano, da mulher em particular, como Capitu, alvo favorito de Dalton. Seu bêbado de faca e estuprando faz harmonias verbais, subvertendo o publicitês dos superlativos pró e contra, do humanismo condensado e fedendo, que passa por linguagem, hoje em dia. Todas fazem assim, canta Mozart. Dalton, que vai terminar como Beckett, em síntese verbal que será o desaparecimento da palavra, diz Orra e Zoa.





