Caranguejo rei

Presumo que Dornelles fale pelo nosso presidente, quando declara que o Brasil não participará do acordo internacional de telecomunicações. O capital inicial envolvido é de US$ 500 bilhões. É participando desse pool de alta tecnologia e alto investimento que os países se credenciam para a primeira linha da modernidade. Segundo Dornelles, continuaremos marchando como caranguejos.
Dornelles atrasou três gerações a indústria de brinquedos no Brasil, fechando o mercado à competição estrangeira. O brinquedo brasileiro é pintado a mão. Há nisso um je ne sais quoi índio. O medo da inteligência estrangeira, da capacidade de empreendimento das nações de Primeiro Mundo. Se não podemos nos juntar a elas, vamos nos fazer de surdos, mudos e cegos no nosso tupi-guarani.

Humilhação

As estatísticas brasileiras em Cingapura foram humilhantes. Nossas exportações são zero vírgula tanto. As importações, cerca de 1%. A riqueza do mundo está no comércio mundial. Ergo, não participamos da riqueza do mundo. Só temos, como dizem, tamanho e...

Stalinlorpa ataca

A Internet no Rio está sempre com a linha ocupada. Quando se consegue linha, cai. Leva-se de cinco a dez minutos esperando linha telefônica. Stalinmotta declarou no fim de semana que o telefone vai custar entre R$ 500 e R$ 700. É caro demais e é mentira, provavelmente. Ele vem charlando isto e aquilo desde que entrou no governo Fernando Henrique, em que parece ter liberdade de ação até para mostrar publicamente sua ignorância da idade de menopausa das mulheres (que o assunto tenha entrado em discussão política define o jaez do homem). A Telerj, em especial, está criando complicações maiores, ‘‘revigorada’’, do que na sua inépcia anterior. Um exemplo concreto. Um amigo que tem um celular 984 não pode se comunicar com o telefone do seu escritório, prefixo 205. São incompatíveis por incompetência técnica da Telerj. Prédios inteiros entram em colapso telefônico. Stalinmotta parece que importou tecnologia digital para substituir minimamente a analógica. Mas a digital, essa não funciona. Mais sério e radical é que se usa no Brasil o chamado pulso nas chamadas. Em miúdos, telefone discado, coroque, coroque, coroque. O que funciona é o tone. O pulso está obsoleto há 30 anos.

Sobrevivente

A Argentina parece recuperada da recessão de 1995, quando, na esteira do colapso do México, perdeu um quinto dos seus depósitos estrangeiros e 6% do Produto Interno Bruto. A previsão de crescimento em 1996 é 3,5% e, em 1997, 5%. A produção voltou a níveis de 1994. O governo Menem resistiu em desvalorizar o peso para remediar sua conta corrente. Sobreviveu. Os depósitos bancários aumentaram de um baixo de US$ 38 bilhões para US$ 52. Em 1997, os argentinos contam em aumentar as exportações em 7,3%, investimentos devem subir 13,1%. O PNB está US$ 300 bilhões. Considerando-se as diferenças de tamanho e recursos com o Brasil, a Argentina está bem e nós, mal. O maior temor argentino é que o Brasil, com US$ 200 bilhões estrangeiros aplicados no curto prazo, entre em revertere semelhante ao do México: 1/4 das exportações argentinas vão para o Brasil.
Dior

O mundo era feio e pobre em 1947, quando Christian Dior vestiu opulentamente as mulheres, baixando-lhes as saias, rotineiramente a meio pau depois da então audaciosa semimíni dos anos 20. Nem todas as mulheres ficavam bem. O New Look, apelido jornalístico, precisava mais de 1,65m de altura de quem o vestia. Mas modelos altas e magras, como a deslumbrante Danusa Leão, fizeram nome, merecido, com Dior, que de uma pincelada tirou da moda a mulher-violão, dando vez, novamente, ao ideal grego do esguio, Artêmis suplantou por um tempo Afrodite, ressaltando pescoço e colo sobre bumbum. Desde Chanel, bem mais limitada, apesar do grande talento, nenhum costureiro conseguiu a projeção de Dior. Outro dia, no Metropolitan Museum, vimos suas criações mais famosas. Sei que a palavra ‘‘criações’’, para obra tão derivativa como costura, pode soar ridícula. Mas Dior, que morreu moço, com 52 anos, em 1957, viveu toda a grande experiência modernista dos anos 20, em que corpos de dançarinas e dançarinos eram o ideal de beleza, contra o bundão vitoriano. Seus modelos tinham, ou me pareciam ter, uma individualidade única. E me lembrou em Paris, ainda a pão e laranja, 1951, quando passava uma mulher diorizada e à altura da roupa, os ahhs e uhhss.

‘‘Lolita’’

Vem aí outro filme de ‘‘Lolita’’, de Vlamidir Nabokov. É infilmável. Não funcionou em teatro, numa adaptação de Edward Albee, com Donald Sutherland. O primeiro filme, dirigido por Stanley Kubrick, deu fim à esperança de que ele fosse um revolucionário cinematográfico. Tinha qualidades. Nosso amigo Peter Sellars era um Quilty maníaco, James Mason, waal, Albee disse que ele nasceu com 40 anos. E a menina, Sue Lyon, tinha coxas, seios, formas semidesenvolvidas. É essencial que Lolita tenha corpo de criança, de menina que pode aparecer nua em público, tipo Brooke Shields em ‘‘Pretty baby’’. Humbert Humbert tem horror a mulher feita. O romance é pedófilo. Não é ofensivo porque Nabokov inventa linguagem de alta espirituosidade. Em momento algum, baixa ao patológico, ao sofrido sentimental (detestava Dostoievski). ‘‘Lolita’’ é sobre a obsessão de sexo com crianças que, no Ocidente, dá prisão. E Lolita, sem perder o molejo infantil, é corrupta até a alma. Kubrick não passou nem rente à trave.
Foi divertido ler ‘‘Lolita’’, ainda proibido, em 1955, na edição da Olympia Press, que vinha de Paris. O que Hollywood pode fazer disso? Mostrar o sexo de adulto e criança? Como colocar em imagens a espiritualidade de Nabokov? A segunda versão, acumulando publicidade, é com Jeremy Irons fazendo Humbert Humbert, bonito demais para o papel, mas é melhor ator que James Mason; Dominique Swain é Lolita, mas tem 15 anos. O diretor Adrian Lyne fez um filme de mulher má razoável, ‘‘Atração fatal’’, mas foi só. Anos atrás, menos explícito, veríamos ‘‘Atração fatal’’ com Joan Crawford ou Bette Davis. O novo ‘‘Lolita’’ está tentando ganhar gás publicitário, anunciando-se perverso. Nem pensar.

Le Roy Ladurie

Saiu o segundo volume do ‘‘Ancien Régime, História da França’’, de Emmanuel Le Roy Ladurie, em inglês, Oxford: Blackwell, 586 págs., 30 libras, cobrindo de 1610 a 1774. Há sempre o chamado perigo Michelet, de o historiador se perder no formalismo da monarquia, com poucos detalhes conhecidos da vida como era, o método preferido pela escola de Les Annales. Ainda assim, Ladurie, a julgar pelo primeiro volume, que li, deve ter desenterrado uma quantidade enorme de evidência do desenvolvimento orgânico da sociedade francesa, dentro da sua perspectiva como historiador de que os grandes homens são peças históricas não necessariamente decisivas. A mim me é difícil imaginar a França unificada sem a clarividência de Richelieu, que soube separar o interesse nacional do dogmatismo religioso, mas, se alguém é capaz de nos convencer do contrário, é o grande Ladurie.

Justiça a Fortuna

Na biografia anedótica de Denis de Moraes sobre Henfil está que eu contava a Henfil sobre a charge de Fortuna em que São Sebastião se queixava de ser flechado por ser comunista. Contava nada. A charge saiu em 20 de janeiro de 1968, no ‘‘Correio da Manh㒒. São Sebastião, amarrado, piçudo, flechado, dizia: ‘‘Eu já disse que não sou comunista.’’ Henfil viu. Vi eu. Só quem não viu foi a periferia acadêmica, dando a sua versão em ácido carbólico.
NOVA YORK POR AÍ


  • Telefonando para um velho amigo que está na sua casa de campo, de repente começo a rir, lembrando que frequento o lugar desde garoto, fui lá a primeira vez em 1944... Não era asfaltada a estrada. Havia a promessa. Em 1984, 40 anos depois, asfaltaram, com falhas. Num acesso de modernidade, estenderam uma linha telefônica. A tecnologia é pura Telebrás. Dias há em que se ouve uma selva de insetos. Outros, em que um som de fax acompanha o telefone (que não tem ele próprio fax). Isso, notem bem, numa região do Estado do Rio onde há gente que estaria bem de vida em qualquer parte do mundo. Nos arredores das casas de campo, simples e confortáveis, algumas com antenas parabólicas e tout le comfort americain, os colonos, matutos, ‘‘camponeses’’, segundo os padres que descobriram Marx depois de defunto espiritual. São, na minha opinião, descendentes dos primitivos índios que já habitavam o País, quando os portugueses chegaram. Querem sombra e água fresca. Até a ferócia que mostravam em lutas com outras tribos sumiu com o tempo. São deferentes, servis e preguiçosos.
  • Esse amigo, ao ver um grupo tomando sopa de bambu, pouco nutritiva, ofereceu-lhes trabalho. Num, sinhô, muito obrigado. Richard Burton, o historiador e aventureiro, viu portugueses morrendo de fome em Goa por preguiça de procurar comida.
  • Até ficar mais velho e ter de tirar os documentos que a ditadura brasileira permanente exige, como Carteira de Identidade do Félix Pacheco, eu não conhecia um único funcionário público. Meu círculo incluía muitos profissionais liberais, a maioria, alguns ricos, homens de negócios. Era ponto pacífico que governo no Brasil não funcionava. O contrário não era sequer sugerido. Idem, que funcionário público tem o que Shakespeare chama de itchy palm, palma da mão que coça.
  • Esse entusiasmo por governo tem origem stalinista, a idéia de Lenin de que a centralização total garante a eficiência, o que vai contra toda a experiência humana do dia-a-dia, onde se improvisa, se experimenta, se muda tudo, como norma. Mas de onde surgiu essa gente, Stalinmotta, Dornelles? Stalinmotta, leio em ‘‘República’’, era da Ação Popular, esquerda piroquete, pré-1964, e, ao ser procurado pela repressão, fez-se de bicha e o deixaram em paz. É o que está na revista. Dornelles, invenção familiar de Tancredo Neves, parece não ter tido passagem pelo comunismo, mas é, obviamente, uma criatura de federação de indústrias, um pelego graúdo, que agora presta serviços a seus clientes de uma posição de poder.
  • Na Exposição Dior estavam mulheres como Linda Evangelista, Christie Turlington e Emanuelle B’eart, uma festa para os olhos, mas o que havia de dondoca árvore de Natal quase ofuscava essas belas, todas simplesmente vestidas a rigor.
  • E uma pergunta de que vou procurar a resposta é saber quantos sutiãs de US$ 1 milhão vão ser comprados.
  • Pode-se dizer que é uma sociedade sem poesia, em que comprar coisas parece ser o objetivo de tantas pessoas. Mas ninguém é obrigado a comprar. Morreu Vance Packard, autor de livro chamado ‘‘The hidden persuaders’’, em que atribuía grande força à manipulação do público pela propaganda. Que existe, quem há de duvidar? Ao mesmo tempo não se vende, por exemplo, filosofia, poesia, Beethoven, etc., por maior a publicidade. O infantil é vendável. Dinheiro não traz felicidade, porque não é um desejo infantil, escreveu Freud. Sim, mas dinheiro compra simulacros de desejos infantis.
  • A Verve/Polygram lançou um Tom Jobim, ‘‘O Homem de Ipanema’’, US$ 46, com músicos de jazz como Marty Paich e Stan Getz. Contém grande variedade nas maneiras de cantar. Elis Regina brilha. A voz de Tom era meio furreca, seu piano, excelente, e é melhor servido por outros cantores. Devia ter deixado João Gilberto cantar tudo que compôs. Mas no nosso tempo foi quem nos falou mais, cantava as armas e os varões assinalados da zona sul do Rio antes de se converter em feira sertaneja. É um tesouro nacional, Tonzinho, claro, e não o ‘‘maestro’’, nome de rua, O Sabiá, putz, digo, o tesouro era o Tom da Carreta de Ipanema. Entre o Rio em que ele e nossa geração viveu e se formou e o de hoje, só resta sua música.
  • ‘‘Um dia como qualquer outro ele emburrecerá, noutro ficarei cego, ficaremos surdos, teremos nascido, teremos morrido, no mesmo dia, no mesmo segundo...’’, Pozzo, ‘‘Esperando Godot’’.
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