Paulo Francis
Nova York - Uma proposta modesta: reeleição só com o voto não obrigatório. Esta seria uma grande reforma, ainda que indireta: impedir que um eleitorado desproteinizado seja arrebatado em leilão por míseros reais. Coronéis mil viveram e vivem dessa carniça.
Terra produtiva
A idéia de tributar progressivamente a terra improdutiva está na Constituição de 1967, elaborada por Roberto Campos. Vai fazer 30 anos de solidão, inapetência, safadeza. Poderia ser acrescida de capitalização. O governo estimularia a produção, responsabilizando-se por alocá-la. Mataria a fome. Mas só ocorre o punitivo aos nossos políticos. Nunca o produtivo. Galbraith escreveu que uma das razões da riqueza nos EUA é a inter-relação entre governo e agricultura privada. Nossa intelligentsia preferiu Lenin e Mao, que só sabiam acionar o coldre de um revólver, na frase do último, esquecidos da frase de Napoleão de que não se pode sentar em baionetas.
Iraque & Araque
O Iraque voltou a vender petróleo. Os preços mundiais caíram. A Petrobrás anuncia: a) aumento de combustíveis de 5%; b) novas reivindicações salariais. Esperemos que deputados e senadores corajosos peçam vista dolhos nas faturas de importação da Petrobrás e enviem emissários ao spot marker para comparar preços.
Retorno do reprimido
José Serra levantou uma questão importante com esse Fontoura, que teria tentado entregá-lo sem passaporte a Pinochet, nos anos 70, quando Serra estava exilado no Chile. Mas Fontoura era um mero segundo-secretário, talvez um entusiástico vocacional do sabujismo, como tantos de nossos patrícios. Quem estava por trás? Que tal abrir uma comissão de inquérito sobre a política do Itamaraty naqueles tempos?
O atual secretário de Assuntos Estratégicos, Sardenberg, por exemplo, exala um cheiro que pede investigação. Como dizia Dreyfus, liberto, na aposentadoria: Onde há fumaça há fogo.
Bocas
A omelete do grill do Four Seasons continua a melhor que comi em restaurante. Li em Rex Stout que Fritz, o cozinheiro de Nero Wolfe, vira 32 vezes a omelete antes de declará-la edível. O Bice tem o champanhe mais bem gelado da cidade. Sua lasanheta cai bem. O bass, garoupa de alto-mar, do Le Cirque, é uma experiência. O pão do Café de Paris é, ou deveria ser, o que chamavam de douce france. A lasanha e o fettucini do Bravo Gianni são imperdíveis. Passo dias a salsicha polonesa e sorbet. É uma questão de gosto. Poloneses sabem fazer salsichas e pôsteres. Chopin deve ter sido geração espontânea. Vou a restaurantes chineses e japoneses para comer arroz. A patisserie dos melhores restaurantes é boa, em média, mas sem grande imaginação. A mousse do Daniel é recomendável. O restaurante continua feio e almoçando lá com amigo big shot, salamaleques, etc., o único prato apetitoso era Sigourney Weaver, em outra mesa, e não se ofereceu a nós. Minha faxineira diz que toda mulher alta é boba.
Mas um cheesecake, pastrami ou cornbeef, em deli judaica, estes com pão rye e mostarda, são pitéus. Comida de pobre é feita com amor. O nosso sanduíche de pernil, de beira de estrada, de alguns botequins selecionados, era uma das maravilhas do universo. Li que foi destruído pela Liga Antivida, que atende pelo eufemismo de ecologista. O hambúrguer do 21 é uma iguaria. Mas, mais barato, se pode comer um bacon cheeseburger no P. J. Clarkes, bem emagrecido, sem perder gosto. Coma com a mão. Garfo-e-faca é um no-no. Uma lasanha no Gianni, sirloin no Palm, não é preciso mais. A cozinha americana, excetuando as variações regionais, é carne assada, rosbife, malpassado, batatas coradas e a alface-rainha que brota neste continente. Gosto não é o forte. As etnias é que deram o molho. Podem ir ao Jojo, francês. Regence é o meu favorito.
Abriram 268 restaurantes em Nova York, em 1996, segundo Zagat. É praticamente um por dia.
Nova York por aí
qq Lendo Luís Filipe Alencastro sobre o Michelet dos pobres, George Duby, em Veja, pondero que a imprensa brasileira poderia ser bem escrita. Alencastro não só faz sons agradáveis ao ouvido, como diria Ravel, como sabe do que está falando. Dá um escorregão incaracterístico, escrevendo cruel ironia do destino, que poderia deixar para a nova presidente da Academia Brasileira de Letras, Nélida Patotaço Pi¤on e similares. Não há um órgão de imprensa que se dedique à crítica cultural séria. Os cadernos críticos ou mergulham no túrgido acadêmico, o que é uma forma de fugir, de fechar os olhos à realidade brasileira, ou se prostram diante dos press releases de gravadoras e distribuidoras de cinema. O Brasil é o único país em que um novo CD popular ganha página inteira, incluindo entrevistas com o medalhão, que é invariavelmente bajulado.
qq Jornalistas desse setor se sentem fósseis diante de 500 canais de televisão e do computador. A saída mais comum é a vulgarização, o jornalismo de comadres, de personalidades, de fofocas. Grande parte da imprensa mundial tende para isso. É normal, mas a competição é tal que tudo se dilui. Um jornal honesto que desse nome aos bois teria um público certo. Alencastro e uns poucos mais fariam o serviço. Nunca entendi o tamanho das redações modernas. Se o objetivo é dar emprego à juventude, ok. Se é eficiência, qualidade, melhor usar Winston Churchill: Nunca tantos dependeram de tão poucos.
qq Quando eu tinha 30 anos, todos os medalhões da época tinham recebido bigodes e outras pulhas de jovens críticos irreverentes. O conformismo de hoje, em que um número considerável de embusteiros continua tendo pelo menos o benefício da dúvida, é inédito na minha experiência. Ecos e banzo dos tempos de regime militar. A censura, contra que tantos protestaram, foi, em verdade, para a maioria, uma excelente justificativa de cruzar os braços.
qq Custa crer que Godard e Pasolini foram tidos como artistas. Revi outro dia Salo, a versão de Pasolini de Cem dias de Sodoma e Gomorra, do marquês de Sade. É difícil imaginar maior dissensibilização do que na cena em que o sádico faz na sala e manda a lourinha, nua, comer. Não sentimos horror moral, nojo físico, ou até, se sádicos, erotismo. É amadorismo puro.
qq Sade é pai-mãe da avant-garde da moda. As pessoinhas aparecem no palco e fazem traquinadas. Filhos simulam copular com as respectivas mães. Sim, mas onde está a lavra do ato, seja estética, erótica, seja horrorosa e estilizada? Godard desconstruiu tanto que se reduziu a zero e, ao menos, hoje, tem o bom senso de rir de si próprio.
qq Contra Woody Allen: Todo mundo diz que você me ama. Ser amado é uma aspiração compreensível de um senhor de 60 anos cujo nome foi pichado pelos tablóides porque se afastou de uma atriz com quem vivia, mas não era casado, por uma filha adotiva da dita-cuja, porque esta lhe fazia o que Marco Antônio e Groucho Marx mais desejavam na vida: provia-lhe uma ereção. Marco Antônio, quando Cleópatra ficou incomodada na Batalha de Actium, que ele Marco Antônio estava ganhando de Otávio, abandonou suas tropas e foi ter com ela na cama. Otávio ganhou a guerra e Antônio e Cleópatra se suicidaram.
qq É bem mais do que Woody deixar Mia.
qq Mas esse filme me ficou atravessado na garganta por outros motivos. O bom gosto de Woody em música popular é reconhecido. Mas está abusando. Põe no filme gente como Alan Alda e Goldie Hawn cantando. Taquaras rachadas.
qq Americano não tem vergonha cultural. Na Europa, não há música popular, praticamente, porque os compositores não conseguem sair debaixo de Wagner e Debussy. Nos EUA, essa tradição inexiste. Metem a cara em qualquer casa. Há delícias, de Gerswhin a Cole Porter. Mas deveria haver limites. Chega de amadorismo.
qq Dos seis componentes da tragédia, entrecho, caráter, pensamento, espetáculo e música.
qq Dos seus componentes da tragédia, entrecho, caráter, pensamento, espetáculo e música - Aristóteles dá maior importância a entrecho, aqui sinônimo de uma vida completa. A arte moderna recusa-se a admitir que uma vida possa ser completa. Substituiu destino por acidente, casualidade, imprevisibilidade. Matou o sentido e a poesia da vida.





