Nova York - Não é crime ter conta na Suíça. Pode-se ter conta em muitos refúgios fora do nosso âmbito fiscal. Eu disse em televisão que todos os diretores da Petrobrás tinham conta na Suíça. No fragor da polêmica nem pus o preventivo ‘‘quase’’ todos. Acredito que haja diretores e funcionários graduados que sejam catões. E é provável que o delinquente pessoal seja, como notou o sr. Delfim Netto, ladrão de galinha. Considero o assunto secundário. Furto puro e simples não é o que faz mal ao Brasil na Petrobrás. É a própria existência da companhia, impedindo que o País se torne auto-suficiente em petróleo, obrigando o povo a pagar US$ 3 bilhões anuais de importação de combustível, que a Petrobrás não pague os impostos que deveria pagar ao Estado do Rio, de onde tira 60% de seu petróleo, que recolha menos ao Tesouro do que investe nas pensões de seus funcionários. Não há pessoa letrada que não saiba que a Petrobrás é um arcaísmo custoso ao Brasil, o maior entrave ao nosso arranque econômico e uma sangria desatada na bolsa do brasileiro.

Liberdade ainda que tardia

A Bolívia vendeu sua estatal de petróleo por US$ 835 milhões. São 50% do controle acionário mais controle administrativo total. Em miúdos, as companhias vão poder prospectar petróleo à vontade, mas pagando um bakshih aos pelegos bolivianos do ‘‘petróleo é nosso’’. É sujo, mas vale a pena. A Bolívia, como o Brasil, deve ter reservas imensas de petróleo, até hoje inexploradas por incompetência, preguiça e retardo tecnológico do monopólio estatal. A Enron, EUA, e a Shell, anglo-holandesa, têm maioria, batendo por US$ 50 milhões a oferta da Nova Gas do Canadá e Williams dos EUA. Foi concorrência pública. Fernando poderia pôr em leilão a Petrobrás. Não daria muito, mas livraria o Brasil das nádegas acachapantes desse dinossauro.

Vácuo

8,5 milhões de quilômetros quadrados, língua única, homogeneidade étnica e religiosa, população média, sem os problemas horrendos da China e da Índia, uma entrada desde os seus primórdios na civilização ocidental, com grandes surtos e imigração européia, recursos que se imaginam entre os maiores na Terra, não que se saiba ao certo, pois predomina o reacionarismo índio de que é preferível não saber o que se tem a deixar que o estrangeiro desbrave. Muita preguiça, com mais feriados do que qualquer país engatinhado em prosperidade, a absoluta falta de conceituação de uma identidade nacional. Este é o Brasil que vai entrar à matroca no ano 2000. Sem nenhuma presença política ou econômica no mundo. Batido facilmente por vários países asiáticos que tinham a desvantagem de ser colônias até este século. Um toco de país, como a Coréia do Sul, tem cinco vezes a renda per capita do Brasil e compete mundialmente em sete setores econômicos importantes. Se o Brasil cessasse de existir amanhã, ninguém, fora daí, notaria. Os exportadores de petróleo, a Opep, causaram um enorme sacolejo na economia mundial, a queda do Muro de Berlim e o fim do império colonial soviético tornaram praticamente inevitável a globalização econômica do universo, e a revolução tecnológica americana, em que eficiência, rapidez, vastos investimentos de capital deram resultados imediatos que hoje refletem a dianteira do progresso; nada disso tocou as vetustas instituições políticas e econômicas do Brasil. Ficamos à margem, sem o menor input, participando apenas pelo que nos veio do contrabando. O vácuo é nosso.

Uma
primeira etapa

A ONU hoje é uma maloca tamanho família. Boutros Boutros-Ghali, o secretário-geral, foi defenestrado pelos EUA. É africano e até mais ilustrado que a maioria (é um milionário egípcio-cristão. Se voltar ao Cairo, pode morrer assassinado). Mas EUA e grandes potências continuam reconhecendo o direito de a África escolher o secretário-geral, desde que não o indigitado BuBu.
Por quê? Para quê? A África vive em guerra civil. É uma colcha de retalhos tribais. Não representa futuro para a civilização. Ao contrário, lembra os primórdios mais negros da história humana. É uma falsa liberalidade e ainda mais falsa igualdade de direitos que aloca a escolha do secretário-geral da ONU ao continente-capenga e informe. Quando era a vez da América do Sul, Perez de Cuellar, dorminhoco, chegado a um croquete, com o apelido de ‘‘pair o qaaludes’’, dormiu no cargo oito anos.
Não seria útil uma reunião de potências com poder de fogo e econômico em que se traçasse um programa mínimo para a ONU e para o mundo? Item 1: não vender armas a tribos homicidas. Os ingleses, por exemplo, fornecem pilhas de armas aos contendores no Zaire. É um bom negócio. É uma desumanidade. A ONU, calçada pela maioria das potências, teria poder para impedir que qualquer nação venda. Seria um primeiro passo, fora da estaca zero.
Diários
de Lenin

Richard Pipes, de Harvard, judeu russo emigrado para os EUA, especialista em história russa como há poucos, está fazendo nome com suas críticas dos bolcheviques, na Rússia pré-1917 e durante o reino de Lenin-Stalin. Agora editou os ‘‘Diários de Lenin’’, Yale, 204 págs., US$ 27,50. Os documentos são legítimos. Pipes enfatiza demonstrativamente a amoralidade de Lenin, a idéia de os meios justificarem os fins, sejam quais forem. Chama Lenin de covarde físico, o que é difícil de acreditar, pela profissão que escolheu, e de misantropo. Mas não aceita que Lenin tinha objetivos salvacionistas e queria impô-los a ferro e fogo. Seu Lenin é um bandido exclusivamente voltado para o poder. Uma análise mais séria demonstraria o grande equívoco da ideologia de Lenin, sem negar-lhe sinceridade, pois é isso que torna o desastre soviético tão total, tão carente de qualquer fruto ou esperança.

Esboços
de Matisse

‘‘Estudo de uma Jovem’’, ‘‘Modelo Sentada (Lydia)’’, ‘‘Mulher Nua’’ são alguns dos desenhos a carvão, a bico de pena e até a pincel reunidos numa exposição na galeria C & M, na Rua 78, 45 Leste. O organizador, Robert Pincus-Witten, chama a exposição de ‘‘Henri Matisse: Estudo dos seus Desenhos’’. A California Press publicou conjuntamente o volume ‘‘Matisse sobre Arte’’, que inclui, do artista, seu raro e precioso ‘‘Notas de um Pintor sobre seus Desenhos’’.
Matisse considerava esses desenhos estudos das pinturas que faria. Mas é difícil imaginar que sua arte possa se expressar melhor do que em ‘‘Modelo Sentada, Lydia’’, feito a carvão, que estava na C & M. Não é erótico. Nem o nu de ‘‘Mulher Nua’’. Matisse é menos erótico do que Degas. O que lhe interessa é um traço definitivo, que nada tenha que ver com nossas noções do que é clássico ou abstrato. Preferiu sempre o figurativo, apesar de incursões geométricas no abstracionismo. Suas cores desinibidas e opulentas é que fazem dele um artista tão popular. Mas é nos desenhos, me parece, que se pode distinguir mais nitidamente que ele quer de suas personagens uma vida auto-suficiente e finalizada como arte, nada mais. Algumas mulheres de Picasso, todas nas fases em que ele estava enamorado delas, mexem conosco sensualmente. Matisse prefere contemplar o objeto erótico e transmutá-lo em arte. Lydia está sentada, tem um rosto mais jovem de si própria desenhado à direita de quem o olha, são dois rostos, que se completam em repouso, o mais jovem mais aberto ao que pode vir, e o outro a realização final, auto-suficiente na sua forma perfeita. Num ano rico de retrospectivas, esse Matisse, por não ser tão conhecido, é a melhor surpresa.

Melhores
do ano

Época das listinhas. Muita coisa boa, mas não necessariamente nova ou estimulante. Acho difícil sugerir livro mais bem escrito do que ‘‘Sabbath’s Theatre’’, de Philip Roth, que é um ‘‘Queixa de Portnoy’’ com gosto de morte e de um azedume que só uma paixão literária pelo estilo de Roth nos faz digerir. O segundo volume de Picasso, de John Richardson, 1907-1917, ou seja de ‘‘Les Demoiselles de Avignon’’ ao cubismo, é imperdível. Compro um bocado de livros por ano, mas, em 1996, só vejo à minha volta coisa antiga. Eu abriria uma exceção para ‘‘O Último Modernista’’, de Anthony Cronin, 621 págs., HarperCollins, 25 libras, um ensaio biográfico e crítico sobre Samuel Beckett que, sem tentar desmontá-lo moralmente, como é praxe tediosa entre os biógrafos atuais, tira muito do lustro de santidade da personagem, tão pecador quanto nós outros.
Ver Maria Kowrosky dançar, um filé Rossini, madalênico, no Perigord, Marie Therese, quando Picasso a amava, um CD de Régine Crespin, laser de Sophie Anne Mutter no ‘‘Concerto de Violino’’ de Bach, foram meus alumbramentos.
NOVA YORK POR AÍ


q O fã típico é aquele satisfeitíssimo consigo próprio porque admira outra pessoa.
q Falei com Geraldo Queiroz em Pernambuco. Um dos nossos mais inteligentes homens de teatro. Me disse que vê 25 videocassetes por mês. Viaja sempre que pode, pelo Brasil, Europa e EUA. Ele e eu, e tipicamente esqueci de perguntar ao telefone maiores detalhes, vimos no Teatro Regina um show único de Renata Fronzi, comediante exímia, em cenas francesas de cabaré, que, Geraldo, parisiense alguns anos, aprovou 100%. O forte brasileiro é a comédia. Nossos dramas tendem ao melodrama e particularmente à empolação. Drama exige autoconfrontação, mais difícil para um brasileiro bom-moço do que confrontar o próximo, criticamente. Um espetáculo inteiro de Dercy Gonçalves poderia desandar em vulgaridade demais. Mas a vulgaridade de alguns minutos reluzia e era ouro. Um Fellini teria levado Dercy a expressar toda a sua rica personalidade.
q Ouvi o último CD Arturo Benedetti Michelangeli. Seu Debussy, ‘‘Reflets dans l’Éau e Hommage à Rameau’’, e os dois prelúdios ‘‘Canope e Bruyere’’ só têm rival na interpretação de Walração de críticos brasileiros? Vai todo mundo mergulhar em sono no berço esplêndido que é o Brasil de Fernando Henrique?
q Na comemoração do aniversário também a Companhia das Letras nos dá um inédito de Rubem Fonseca, ‘‘Uma História de Amor’’, 77 págs. É um noir-humorístico. Vieira Souto quer matar Paula Freitas. Um dos fortes da Companhia das Letras é ter os melhores escritores brasileiros como Rubem. O estrangeiro se lê no original. E o crítico brasileiro deve comentar principalmente o que se faz no Brasil. Santa Maria, cheguei à mesma conclusão quando crítico de teatro em 1957, quando Inês era Marta. Nossos Pirandellos e O’Neills eram postiços. Só formaremos nossa identidade com o autor brasileiro. Os jornais de hoje ficam no populismo rasteiro do cinema de Hollywood ou da batucanalha do pop. Daí pulam ao ininteligível, ao jargão. Na primeira instância, é uma irresponsabilidade infantil, quando não ditada por um analfabetismo visceral. No segundo caso, é uma fuga da realidade, vergonha do nosso país. Atacar o Brasil é uma forma de se preocupar com seu destino.
q ‘‘Para os puros, tudo é puro.’’ São Paulo, apóstolo.

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