Nova York - A obrigação das pessoas de visão que querem tirar o Brasil da entaladela estatal, atraso crônico, miséria penosa, é procurar um candidato capaz de bater Fernando Henrique Cardoso em 1998.
Conversa fiada

É o debate sobre nacionalização da Vale. Ou Petrobrás. Ou Eletrobrás. Escolham um nome. Bastaria que esse senhor em que 54% dos eleitores votaram aparecesse em rede nacional de televisão com os números, custo e benefício, das estatais, todas, todinhas, falidas, vivendo dos cofres públicos, ou seja, de quem paga impostos no Brasil, sem retorno algum.
O público não sabe que a Petrobrás investe 500% nas suas pensões mais do que paga ao Tesouro, ao brasileiro colhido pelo Fisco.

Dos jornais

O Financial Times dá em 29 de novembro que o governo federal vai entrar com R$ 37 bilhões para reestruturar os débitos do Banespa. Depois, tomará 51% das ações do Banco e o privatizará. Podia ter feito isso um ano e meio atrás. O custo extra ao contribuinte é de 30%. Uma oportunidade perdida. Covas, o mandante, tem centenas de obras paralisadas no Estado de São Paulo que beneficiariam o público para manter o seu curral no Banespa. Dizem-no honesto. Pobre Brasil. Como diria Hamlet, ‘‘beasts that want discourse of reason would have mourned longer’’.

Tedium vitae

Confesso meu desinteresse crescente por esses assuntos, tão passíveis de solução a meu ver, como Bósnia, Zaire e outros drecks mundiais. Paz em Israel, na Irlanda do Norte, ou na África do Sul, onde nosso presidente lamentou que nós, negrinhos físicos ou espirituais do pastoreio, não estejamos preparados para a globalização da economia.
Se não tivesse sido o apartheid, a África do Sul seria a mesma selva espessa, impenetrável, pré-histórica do resto da África Negra. Roberto Mugabe, com quem conversei na London School of Economics, onde criticou o voluntarismo disfarçado de marxismo de Lenin e Trotski, hoje parece um Kurtz negro na sua Zimbábue. Vi-o chegar em Paris de sarongue, ele que, antes, se vestia em Saville Row, e acompanhado por capangas cuja função era carregar gigantescas fatias de carne de vaca para o deleite do líder. Em Nova York, jantei em grupo com um jovem médico da África do Sul. Veio para cá anos antes da queda do apartheid. Era um liberal em raças. Foi aceito imediatamente por um dos principais hospitais de Nova York. Triste, contou que seus colegas que agora aparecem, sob o beneplácito da nova ordem de Mandela, não sabem ler uma radiografia e a diferença entre um fêmur e uma tíbia.

Entretenimentos

Vou dar uma olhada no ‘‘Jardim dos Finzi-contini’’. Dominique Sanda, um doce de coco, mas, ah!, a música sentimental, e impossível não rir porque vi esse filme com Lena Chaves, que não parava de rir porque o filme lhe soava ‘‘finzi-pompini’’, trabalho de sopro em italiano. Vou ver Kurt Mazur tocar Vivaldi. Água e água dão água choca. E toca também a suíte de ‘‘Lago dos Cisnes’’, de Tchaikovski. A Filarmônica de Nova York hoje é um adendo da máfia, da família Luchese, diz Joan Didion.

Bruxuleios

Arthur Miller escreveu ‘‘The Crucible’’, em resposta à delação de Elia Kazan de comunistas festivos de Hollywood. Os dois tinham sido colaboradores íntimos. Quando Kazan rastejou diante da Comissão de Atividades Antiamericanas da Câmara, Miller rompeu com ele. Kazan, tecnicamente, não dedou ninguém. O que se tinha de fazer perante a comissão é mencionar alguns comunas de carteira do Ministério do Trabalho, como Jerome Jerome, secretário da célula de Hollywood, Gale Sondergaard, a vilã de ‘‘A Carta’’, com Bete Davis, e pronto, se era recebido de volta ao conformismo democrático. Era um auto-de-fé. Miller se recusou a fazer isso. Tiraram-lhe o passaporte. Marilyn Monroe pediu-o de volta. Deram. Imaginem como seria essa cena na URSS de Stalin. Todo mundo fuzilado por métodos administrativos.
Mas ‘‘The Crucible’’, em toda parte do mundo, é tido como ‘‘antimacarthista’’. Nota breve: o senador Joe McCarthy nada tinha a ver com a Comissão de Atividades Antiamericanas que investigou Hollywood. Procurava peixes mais graúdos.
Em ‘‘The Crucible’’, John Proctor tem um caso com uma menina. Abigail. Morre de desejo por ela. Mas, quando a ‘‘zinha’’ quer que deixe a mulher, o homem se recusa. A menina denuncia o casal como feiticeiro. É mais um drama passional que adquiriu uma presença teleológica sem pé nem cabeça.
Paul Scofield é o juiz puritano. Diz que fará o que for necessário para tornar a Terra pura para os predestinados à salvação. Troque os puros por classe operária, povo eleito, etc., e estamos falando da mesma coisa.
Santa punk

Sandrine Bonnaire está fazendo Jeanne D’Arc, versão Jacques Rivere, um dos inventores da nouvelle vague. Ela é da pesada. Adoro Jeanne, em Soulier de ‘‘Satin’’, de Claudel, ‘‘A Cotovia’’, de Anouilh, Santa Joana, de Shaw. Mas Jeanne inarticulada, tentando mobralizar a santidade, é dose para cheval. Sandrine tem uma cara bronca e faz uma santa punk. Rivere é quase tão chato quanto Tarkowski. Quatro horas de filme. Vi 14 minutos e me mandei. Basta, fora, chega. É velho, velho, velho. Maria Korowski é a salvação. Vê-la-ei (epa) em AGON, no City Ballet. Que gâmbias. Mágicas.

Henfil

Dênis de Moraes escreveu uma biografia ampla e generosa de Henfil, o humorista, ‘‘O Rebelde do Traço’’ José Olympio, 579 págs. O livro é rico em ilustrações, e Dênis falou com todo mundo que conheceu nosso Henriquinho, que a Aids levou num sangue contaminado que Henfil recebeu no seu tratamento de hemofilia, aos 44 anos, em 1988. Alguém punido?
Henfil deixou de fazer carreira nos EUA como humorista, foi publicado em Playboy, suas tiras saíram em vários jornais, porque insistiu em pregar a rEvolução social. Se ficasse gozando a condição humana, seria hoje célebre aqui, não teria voltado ao Brasil e talvez não se houvesse contaminado. Seu agente me disse que foi o desinteresse político dos fregueses de cartum nos EUA que o tornou difícil de vender, e não censura política. Duvido que ele acreditasse nisso.
Fetichista, um tanto maníaco nas afeições e ódios, mas, noves fora, criatura amorosa e sem deixar que o seu narcisismo cortasse o interesse pelos amigos e a vida, Henfil aguentava com humor os impedimentos da hemofilia, em que qualquer sangria pode ser hemorragia, que obriga a uma vida semi-imóvel, a menos que, à maneira de Richard Burton, o ator, se tome um preparado, que, na época, saía por US$ 1 mil a dose. Era humorista primitivo e feroz. Media-se contra Millôr Fernandes, o ‘‘Édipo’’ dos nossos humoristas, porque intelectualmente espirituoso. Mas há entre os humoristas tanta rivalidade como solidariedade. Dênis de Moraes dá a visão simpática de Henfil. Há outra, ou outras, mas a de Dênis prevalece. Henfil era boa-gente e dotado de muito talento.

Humoristas

Humor é desconcertante. Mexe com as nossas certezas e inseguranças. É mais fácil sentir piedade e terror do que aceitar o ridículo de que somos passíveis. Sofrer dói menos. Daí a hostilidade filistina: começa com Aristófanes (pondo no mundo da lua o divino Sócrates), vai a Voltaire, ao simples chiste que nega e vira do avesso nossas mais queridas ilusões.

Lobby da morte

Televisões e jornais lotados de descrições sobre o combate ao HIV, à Aids. Mas é significativo que ninguém proponha a abstenção, como se faz de tabaco, por exemplo. Mil campanhas públicas sobre os efeitos cancerígenos de uma simples pitada, até passiva. Mas não há palavra sobre os efeitos da sodomia masculina. Procura-se um remédio, já dei notícia de vários, que contenha o HIV. Mudar de vida, neca dulcineca. Há mais nisso do que o poder do lobby afetado, do que o desdém pelo que as maiores religiões do mundo condenam. Sodoma e Leviticus, da ‘‘Bíblia Judaica’’, e São Paulo, em ‘‘Epístola aos Romanos’’, a profissão de fé mais influente do Cristianismo. Acho que o lobby de Tâtanos, o instinto da morte, fala mais alto, ainda que inconsciente. Nunca cena dramática de ‘‘Angels of America’’, um jovem homossexual se horroriza em ver o amante marcado pela doença. Na cena seguinte caça homens no Central Park. Kushner, o autor de ‘‘Angels of America’’, apesar de militante, não falsificou a realidade.
Nova York por aí

qq Claudia Schiffer, com o sutiã de diamantes do valor de US$ 1 milhão da Victoria’s Secret, que quer fechar o mercado em lingerie. Hoje tem loja na 57 perto da Tiffany, e seus catálogos são a melhor pornografia soft do mercado. Modelos de primeira classe física. La Schiffer tomou de assalto o catálogo de Natal. Devem lhe ter pago pelo menos o valor do sutiã. Domina as principais páginas. É uma Brigitte Bardot, mais alta do que BB, mais atlética, sem o molho francês, traindo para o connoisseur o traço biológico da Hausfrau. Uma alegria para os olhos, apesar de tudo. E, fora do Oriente, quem gastará US$ 1 milhão num sutiã?
qq Bernard Shaw, que era lamarckiano, acreditando em características adquiridas, diria que a mãe de Cláudia sonhou em ter uma filha como Brigitte Bardot.
qq Kierkegaard escreve que ‘‘O homem tem um medo inato de andar no escuro - não espanta que ele tenha terror inato do incondicional, de se envolver com o incondicional, do qual é verdade que ‘noite nenhuma é metade tão escura’, quanto essa escuridão e essa noite em que todos os objetivos, onde todos os sinais de atenção recíproca quando mesmo os mais ternos e profundos sentimentos de afeição são extintos, porque se não forem não estaremos lidando como o Incondicional’’. Não tenho medo de andar no escuro. Ganhei bom dinheiro em Petrópolis atravessando o cemitério municipal, que é uma rua aberta (apostadores pró e contra ficavam na entrada e saída do cemitério). Me admira alguém com Kierkegaard ter medo do escuro. Na terra dele, no inverno, o sol só aparece às 8h30 da manhã e às 2 da tarde é noite.
qq O Incondicional é Deus, quer dizer, é um mistério que temos de enfrentar, deixando de lado todo o sentimento e sentido humanos. Uma lavagem espiritual da alma. Uma aceitação do cosmos e nossa integração nele. Quando era criança, li São João da Cruz, achei interessante. Mas o diabo que mora ao lado me perguntou: para que esse trabalho todo? Por que ficamos sabendo da variedade, imperfeições e crueldades do mundo? Deveríamos voltar à pureza inocente, por assim dizer, do que é humano em nós.
qq ‘‘Mentir é uma ciência.’’ Diz o Diabo, de Kierkegaard. ‘‘Ciência é uma mentira. A verdade é um paradoxo.’’ Mais fácil de conviver com essa idéia, porque não me ocorre refutação imediata. É delicioso procurar entender os filósofos. Mas é um ato religioso? Acho que não.
qq Mas é só o que leio por prazer hoje em dia. Alguma poesia, ‘‘Moose’’, de Elizabeth Bishop.
qq De 1350 a 1480 foi a era de ouro de prostituição. Prostíbulos eram licenciados em todas as cidades européias. Tarascon, com cerca de 600 famílias, patrocinava dez bordéis. A Igreja Católica aceitava, porque preferia o que se chamava Zona, no Rio, para manter as coisas sob controle. Prostitutas cansavam os desordeiros e os impediam de incorrer em sodomia. Foram os protestantes que começaram a querer reeducar as prostitutas, desatando a Nelson Rodrigues, que disse: ‘‘Mulher é p... porque gosta.’’
qq Dante botou todos os amigos no céu e todos os inimigos no inferno, como notou Aldous Huxley. É meio vetusto, poeticamente, como notou Eugenio Montale, mas estive lendo sua apologia do vernáculo contra o latim, ‘‘De vulgari eloquentia’’, e quase acredito que o vernáculo é acessível.
qq Basta ouvir a gravação da Embratel para os fregueses, que se muda de idéia. Telefonista virou operadora. Prefixo virou código. Se fizermos tudo direitinho, ‘‘agilizam’’ o ‘‘completamento’’ da ligação. Quando a Embratel descobriu a gravação (digo a legal), havia uma mulher feroz que nos cortava chamadas incorretas, berrando ‘‘Embratel! Mensagem número 5!’’ e nos expunha o erro. Conheço gente que tremeu pensando que era o dia do Juízo Final. Millôr Fernandes e eu gozamos. Parou. Agora, recuperou o emprego. Para chamadas automáticas, sem ‘‘operadora’’, você tem de discar 1 e o ‘‘código’’ e número da cidade. Isso feito, uma voz de Gorgona nos arremessa. ‘‘Você discou tal e tal’’. Cada palavra é como se fosse uma sentençca de morte. E termina com o eufemismo mais tolo da língua portuguesa: ‘‘Aguarde’’! Por que não ‘‘espere’’? A explicação que me deram é que para suburbanos ‘‘espere’’ é vulgar, indelicado.
qq ‘‘As outras pessoas são cul-de-sac. Temos de depender mais e mais de nós mesmos’’. Louis Auchinclos.

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