Nova York por aí

qq Truman Capote escreveu ‘‘A Sangue-frio’’, história de um crime. Dois desocupados, no Estado de Kansas, mataram uma família de classe média, papai, mamãe, filha, filho. Nenhum animus no crime. Os assassinos, Perry e Dick, nada tinham de pessoal contra os Clutter. Apenas não queriam que sobrevivessem para acusá-los. Eram ladrõezinhos de rádios, de câmeras, passavam pequenos cheques sem fundo. E, no entanto, destruíram toda uma família, como quem mata formigas. O saldo do roubo: US$ 40. Foram presos, confessaram e morreram enforcados.
qq Capote foi ao vilarejo dos Clutter, acompanhou as investigações, conheceu e cultivou os assassinos Perry Smith e Dick Hickory. Capote descreve em minúcias a vida dos Clutter, seu mundo interiorano, onde ‘‘cleanliness is next to godliness’’, onde valores familiares, como amor entre mulher e marido, entre o casal de irmãos, e o encanto juvenil de Nancy Clutter, talentosa em muitas direções, nos são apresentados com intimidade. Os métodos da polícia nos são descritos como uma corrida de obstáculos, executada com cuidado e eficiência. Capote nos apresenta Perry Smith, semi-aleijado, cafuzo, nanico, aspirando a ser cantor folclórico, e Dick, o típico malandro fraco e vaidoso, bem-sucedido com prostitutas. Nenhuma idéia viola a personalidade dos dois, que procuram o prazer ilegal, dentro da sua visão de botequim, sem quaisquer restrições morais. Não sabem sequer o que é moral.
qq É a normalidade de tudo isso que nos cala fundo. A família Clutter morreu estupidamente. Os criminosos são estúpidos e seu crime é estúpido. A sangue-frio. É o problema de Jó. Por que tanto sofrimento gratuito? É o único problema, foi chamado pela católica Muriel Spark.
qq Quanta gente tentou imitar ‘‘A Sangue-frio’’. Norman Mailer é um, na ‘‘Canção do Carrasco’’. Mas tropeçou em retórica. Desconfiamos de toda e qualquer retórica. Já fomos iludidos por todas as variedades conhecidas. Capote narra, acumula dados, conseguiu sotopor psicologia a um nível sonhado apenas pelos criadores do noveau roman, como Robbe-Grillet. A única falha do livro é que, no final, Capote psicanalisa Perry e Dick. Bastava o que já nos tinha dado. Freud não explica Perry e Dick, ou explica de maneira irrelevante. Há muito pouca gente que evoluiu da caverna para a consciência das coisas, para um sistema de valores, para uma compreensão aristotélica do destino humano.
qq Até em Flaubert, por mais trágica a obra, havia uma congruência entre homem e natureza, entre homem e destino, entre homem e divindade. Mas Emma Bovary morre vomitando negro e o céu está brilhantemente azul. A natureza é indiferente à vida humana. Kant escreveu a respeito, e é considerado o primeiro filósofo moderno. - Houve dois filmes sobre ‘‘A Sangue-frio’’, um dirigido por Richard Brooks, humanista da velha-guarda, que é contra a pena de morte. E uma minissérie da CBS-TV, da mesma qualidade do filme, mas menos preocupada com a sorte dos assassinos. A cena de Nancy Clutter amarrada na cama, implorando a Perry que não a fuzile, é obscena, ainda que irrealizada artisticamente, ou seja, somos meros voyeurs, não sentimos terror.
qq Cinema, a não ser muito raramente, com um Bergman, é uma banalidade.
qq Capote era favorável à pena de morte. Era contra a espera, os apelos, as delongas, o tempo em que os criminosos ficam na câmara da morte. Parece que teve um xodó sexual por Perry. Não mudou de opinião sobre a pena de morte. Kennety Tynan, o crítico de teatro, atacou-o no ‘‘Observer’’ inglês (então um bom jornal), porque Capote teria explorado os assassinos para ganhar dinheiro e fama, em vez de criar um clima de opinião contra a pena de morte. Pfui. Métodos administrativos. Tiro na nuca dos assassinos depois de aprovada a culpa (os dois confessaram sem tortura). As duas contribuições de Stalin à civilização: métodos administrativos e passaporte interno.
qq Prazeres: Darci Kistle dançando ‘‘Slaughter on tenth avenue’’, do musical ‘‘on your toes’’, uma das incursões de Balanchine no popular. Divina, mas errada, a mulher deve ter quatro pares de cojones. Ainda assim dança é uma das poucas experiências que hoje não me deprimem.
qq Ouço o ‘‘Quinteto em R钒 de Schoenberg. Heavy. Iniciou a dodecafonia.
qq ‘‘Ficar em silêncio é o extremo da audácia. A vida não vale o suicídio.’’ Marcel Arland, 1928.

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