Nova York - Onde está a solidariedade da nossa esquerda com os massacrados na África Central? Pelo menos 1 milhão de mortos, milhões vivendo a agonia do exílio, fome e medo.
Não havendo intervenção dos EUA, a esquerda silencia. Sua compaixão pelos miseráveis é operacional.
Terceiro Mundo
Fidel no Vaticano é a versão moderna do imperador indo a Canossa, mas, waal, pelo que leio, há ainda excitação pela pessoa de Fidel. Sim, todo mundo reconhece que seu governo foi um desastre, mas o fato de ‘‘enfrentar’’ os EUA alegra o coração de muito ressentido. E, por trás disso, o que Louis Begley escreveu em ‘‘Infância de Mentira’’, se admira o grande vilão como Goring, ou Fidel, esquecido da legião de vítimas que deixaram na sua carreira de infâmia. Cuba, quando os espanhóis a desbravaram em 1504, produzia tabaco, melaço e açúcar. Hoje, produz tabaco, melaço e açúcar.

Flagrado

Sarney propõe emenda da reeleição para Fernando Henrique em troca do arquivamento da privatização da Vale. É um instantâneo moral de Sarney. Capta toda a sua biografia e fisiologia.

Nava

‘‘Parabéns a Pedro Nava, parabéns a Juiz de Fora’’, escreveu Drummond sobre seu grande amigo Pedro Nava, quando ele se mudou para o Rio. Nas memórias de Nava o contraste entre Rio antigo e Rio depredado emerge convincentemente. Sua tertúlia contra a medicina institucional é também persuasiva, mas também inútil, porque médicos não têm responsabilidade civil na sociedade reacionária brasileira. Waal. Ao menos compensam o tédio que é Nava criar apelidos folclóricos para todo mundo que critica. Se são malfeitores deveriam ser revelados e condenados de público.
Sua morte em 1984, suicídio, quando aos 80 anos, pode ter sido só por velhice, que é razão bastante para se matar. Quem já não pensou em suicídio é criança, insensível, ou cabeça de toucinho. Sobre Nava, me enviaram recortes de classificados de um jornal do Rio, que pareciam referentes a ele, com insinuações homossexuais. Teria havido chantagem. Ficou tudo por isso mesmo na terra da impunidade. Quem sabe o que se esconde nos corações humanos?

Aidéticos

Andrew Sullivan é dos raros articulistas políticos legíveis na mídia anglo-americana. Está com HIV positivo. Toma 23 pílulas por dia. Escreveu ‘‘Virtualmente Normal’’, publicado pela Companhia das Letras, propondo a integração homossexual nas forças armadas e na Igreja Católica, de que é membro. Sullivan tem 33 anos.
Comentei o estilisticamente brilhante ‘‘Trevas Selvagens’’, de Harold Brodkey, em que a Aids é apenas o capítulo final de uma vida literária atrofiada por um narcisismo incontrolável. Mas é muito bem escrito.
No livro ‘‘Doença, uma Experiência’’, de Jean Claude Bernadet, meu velho colega de Última Hora, Rio, de cobertura da eleição de Mitterrand, em 1981, et al. Pegou a doença e procura produzir enquanto tem tempo. Trabalha num filme. Não quer integrar-se no convencional, à Sullivan. Muito menos esbraveja contra o destino, como Brodkey.
Sullivan, por ser católico, e o mais intelectual, é talvez mais suscetível de análise. Afinal, a abstenção do prazer terrestre sempre foi uma das glórias do católico. Sullivan ignora a discussão do assunto. Também não há a menor citação de Freud, que, aceite-se ou não, livrou o homossexual da pecha de aberração, e explicou o seu porquê. Por que o silêncio?
Pagãos como Brodkey e Bernadet só têm a si próprios. Brodkey explode, Bernadet incorpora conscientemente a doença a seu destino. É a melhor pessoa.

Aborto acelerado

Grandes manchetes sobre um casal juvenil que teve um filho e matou o recém-nascido porque iria atrapalhar seus programas. Uma boa defesa seria que, como se faz o aborto de fetos aos seis meses de gravidez e quando o feto sai afaga a mão da mãe, antes que o médico lhe esmigalhe os miolos, qual é a diferença entre isso e matar um bebê que mal pisou no mundo?

Cinema 100

Vocês já viram ‘‘Wee Willie Winkle’’, com Shirley Temple, 1937? Shirley é levada ao acampamento de ‘‘Khan’’, que logo reconhecemos como Cesar Romero falando com sotaque estrangeiro, e tenta fazer a paz entre os ingleses e tribos do Curdistão. É uma história de Kipling, envolta em Schmalz de Hollywood. A idéia de Graham Greene de que Shirley fosse uma anã voluptuosa, cock-teaser, não parece exagero, porque a menina é metidíssima e naturalmente usa prendas femininas para agradar.
Redondinha, crespa, pequeninha, objeto pedófilo por excelência. O homem americano típico era apaixonado pela mãe, casava-se com uma mulher, que tinha dele uma filha que ele passava a adorar, porque lhe lembrava a mãe inocente... Shirley foi uma grande estrela.

Mal de Spielberg
Gilbert Adair escreve sobre os (supostos) cem anos de cinema, em Flickers (‘‘flick’’ é a palavra chique para cinema): ‘‘Uma Celebração Ilustrada de 100 Anos’’ (Faber, 202 págs., US$ 22,95). Admira fitas como ‘‘Detour’’, 1945, e ‘‘Passeei com um Zombie’’ (1943). É charme. Faz a habitual reverência a Cidadão Kane, 1941, mas diz que prefere ‘‘The Magnificent Amberson e Mr. Arkadian’’. Waal... Critica o que fazer cinema significa, na prática, o fragmentário, os cabos, os alfinetes, a figura ainda jovem de Steven Spielberg, e conclui que é uma maneira repulsiva de ganhar a vida. No, no, Nanette. O mal da ‘‘Lista’’ é que, no meio do massacre dos judeus, Spielberg encontrou o ‘‘lado bom’’, um alemão que salva judeus. Nas duas cenas em que poderia sair do convencional: quando os judeus entram na câmara de gás, em que lhes cai água, dando um alívio falso na platéia. Pfui. E quando Schindler conversa com um rabino que perdeu a fé religiosa, persuadindo-o a voltar a rezar. Pfui.
Spielberg me parece mais o produtor do que diretor. O nazista de Ralph Fiennes é mais verdadeiro que todas as vítimas moralmente perfeitas do nazismo. Sua perplexidade diante de sua paixão por uma judia, a quem ocasionalmente espanca porque não consegue exorcizá-la de sua imaginação, é uma das raras cenas eróticas bem-sucedidas de Hollywod. Cinema é cinema quando não pretende ser.

Ninotchka
‘‘A sua córnea é excelente’’, diz Greta Garbo a Melvyn Douglas, um gigolô aristocrático que tenta seduzi-la. Ela é emissária de Stalin, em 1939, para vender jóias da realeza confiscadas na revolução de 1917, para cobrir os buracos, ou crateras do ‘‘planejamento central’’ de Stalin.
Ernst Lubitsch, mestre da comédia, judeu muito feio (que foi usado como pôster de degenerescente por Hitler, o que o magoou muito), era muito inocente quanto a Hitler e Stalin, em 1940. Daí seu filme delicioso (‘‘To Have and Have Not’’), com Jack Benny e Carole Lombard, sobre o nazismo, e ‘‘Ninotchka’’. Esse último, claro, segue a fórmula de Hollywood, moço encontra moça, moço perde moça, moço recupera moça. Admiramos o talento de Garbo, a transitoriedade da moda feminina (ela cobiça um chapéu que seria hoje ridículo), mas mais se ri do que se comisera da escassez na URSS. O que as pessoas aguentam em silêncio, Santa Maria.

Fim de século

Vejo em laser vários trechos de filmes, alguns dos melhores, de ‘‘Persona’’ a ‘‘Fargo’’. Vem aí o fim do século. Duvido que alguém espere uma alvorada como a do western, do musical, do filme de gângster da Warner, 1930-1940, ou psicologismos mais realistas de um John Huston a Francis Coppola, ou a novidade, o frescor do primeiro Godard e Bertollucci, ou o humanismo insofisticado de Fellini, ou, principalmente, a enorme criatividade de Bergman. Ontem vi a cena em que Bibi Anderson conta suas experiências amorosas a Liv Ullmann, em ‘‘Persona’’. É muito bem escrita, representada, filmada, mas é uma arte sem uma linguagem própria, carrega nas costas teatro e literatura. Talvez houvesse uma chance de maior desenvolvimento se o cinema tivesse ficado mudo. Evelyn Waugh disse que cinema é só o narciso de se ver a gente e um mundo que se parecem tanto conosco e com o nosso. Hobsbawm, de novo, acha que jazz e cinema foram as artes do século. Jazz é culto diminuindo cada vez mais, sem nova geração, e cinema nunca realmente saiu do ciclo de produtos massificados, apesar de benditas ocasionais exceções. A esta altura os que procuram um simulacro de religião no pop já estão devassando analiticamente a televisão.

Consolos

Biografia imensa de um certo Tidié sobre Proust, 952 págs. Não vi em parte alguma que Proust tinha vergonha de ser judeu, em personagens como Bloch, mas que o caso Dreyfus fez com que ele botasse a mão na consciência. Ao mesmo tempo, o ideal de grandeza que tinha da haute gomme francesa caiu com Dreyfus. Quase todos os nobres eram anti-Dreyfus. Os comentários de Charlus a Marcel são lancinantes. Proust parou praticamente de frequentar a alta sociedade a partir de 1906, tornando-se um excêntrico, porque só assim escapava do rigor crítico dos bien-pensants. Tidié diz que Proust aceitou seu homossexualismo. Por que então não o aceita no romance? Gide queimou-se com ele por esse motivo. Charlus é uma das grandes personagens de ‘‘À la Recherche’’, mas é, à sua maneira, como o ‘‘Tamburlaine’’, de Marlowe, um horror inevitável. Nunca me interessei muito por saber se Albertine era Agostinelli, o chofer de Proust, de quem ele tinha ciúmes mórbidos. Ao contrário da maioria dos críticos acho ‘‘A Prisioneira’’ o maior estudo de ciúme em literatura. E Swann, quem não prefere Swann, o intelectual, o aristocrata inato, que superou seu handicap judaico, mas terminou escravo de uma paixão pela pérfida Odette, que gerou Gilberte, sangue ruim, delicioso que arruina o filho espiritual de Swann, Saint-Loup.
Reli os diálogos de Charlus e Marcel sobre Dreyfus. E os de Charlus com Swann, quando este, enciumado, pergunta se Charlus já dormiu. Charlus: ‘‘Não, que eu saiba’’.
Beckett acusa Proust de simetria. Pfui.

Erro de
política

Arthur Miller escreveu ‘‘The Crucible’’, para protestar contra a perseguição aos comunistas? As vítimas de The Crucible são bruxas. Não existem. Comunistas existem. ‘‘The Crucible’’ é contra a delação. Elia Kazan, diretor que fez Miller na Broadway, denunciou seu comunismo e comunistas. Miller rompeu com ele e escreveu ‘‘The Crucible’’, contra a delação, tout court. Judas está no freezer do Inferno de Dante.

Bye Bye,
Poesia

Sétimo e último número de ‘‘Poesia Sempre’’, publicação da Biblioteca Nacional, editada por Affonso Romano de Sant’anna e Emanuel Brasil, dedicado à Espanha. Os editores estão demissionários depois da razzia que Goebbels Weffort fez na Biblioteca. Aonde a ‘‘Poesia Sempre?’’NOVA YORK POR AÍ


q Legiões de brasileiros comprando aqui. Não vi ninguém cuspindo no chão, ou falando alto, como diz a Disney, que quer fazer um vídeo de maneiras e costumes para os brasileiros turistas de Disney World. Não conheço, de forma que bato mesa. Alguns amigos que levaram os filhos lá me contam que escondiam a própria nacionalidade diante dos compatriotas malcriados. Massas = cafonagem. Outro diz que a esta altura quem vai à Disney World é afro, cucaracha e japonês. Brasileiros acham que podem ‘‘pisar’’ nessa gente.
q Waal. Mas vamos e venhamos. ‘‘Os americanos comem como porcos’’, diz o diretor (O Veredito) Sidney Lumet. Outro dia fui ver em cinema normal SWINGERS, um filme de gente jovem. Mal pude chegar ao assento. Restos de comida por toda parte. Arrotos, gargalhadas animais, durante o filme, em que um grupo de jovens de pequena classe média tenta se divertir em Las Vegas. Os bares são pobres, ar de sujeira incruada. Música mal deixando os fregueses falar. Serão assim os bares dos jovens hoje em dia? As pessoas todas vestidas como molambos.
q Você já andou de metrô em Paris, no verão? Precisa de máscaras contra gases.
q O turismo facilitado, de excursões que saem mais baratas a Miami do que Rio-Salvador, teria de dar nisso.
q Nos 1960, em Roma, com uma prima, fui jantar na Taverna del’Orso. Eu estava meio chocado com a baderna turística americana. Ela me apontou discretos casais no restaurante, notando que eram americanos tranquilos. O turista bem educado paga pelo grosso.
q Turista deslumbrado é sempre fonte de humor. Mas e os de casa? Dê um pulo no Restaurante 44, no Hotel Royalton, na Rua 44 Oeste, perto do Sardi’s e New Yorker. Verá gente de olho aceso procurando abordar celebridades do pop como Tina Turner e Mick Jagger. É tão bocó quando o turista da planície bestificado pelos arranha-céus.
q ‘‘Quando se vê um estilo natural, ficamos surpreendidos porque esperávamos encontrar um autor e encontramos um homem.’’ Pascal.

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