Paulo Coelho lança "Verônica decide morrer" no Salão de Paris
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de março de 2000
Por Napoleão Sabóia 
Paris, 20 (AE) - Paulo Coelho costuma dizer, zombeteiramente, que o sucesso dói nos outros. Mas, nesse fim de semana, a dor sem alegorias foi amargada por ele, que teve de colocar compressas de água quente na mão direita ao concluir a tarde de autógrafos no Salão do Livro de Paris. O escritor "oficiou" então a saída de seu novo livro traduzido para o francês, "Verônica decide morrer". A primeira tiragem é de 200 mil exemplares, incomum no mercado europeu
Em mais de 4 horas, Paulo Coelho autorgrafou 1.500 livros, atendendo menos da metade do público que enfrentou as filas intermináveis no estande de sua editora Anne Carrire. A cena tende a se repetir, amanhã (21) à tarde, com a segunda sessão de autográfos. E na quarta-feira será a vez de o governo francês homenagear o escritor, concedendo-lhe a mais alta condecoração do país a "Légion dHonneur", numa cerimônia na embaixada do Brasil.
O sucesso de Paulo Coelho nunca foi tão celebrado e discutido pela mídia e pelo público quanto agora na França, país que o lançou no plano mundial em 1994, ao reservar acolhida triunfal ao seu primeiro livro "O Alquimista", com mais de 2 milhões de exemplares vendidos até agora.
Sem dúvida, "Le Monde" e "Le Nouvel Observateur", referências do jornalismo francês de qualidade, continuam evitando o autor brasileiro. Outros veículos igualmente respeitáveis como "Le Figaro", "Le Point", "Evnement", e o mais prestigioso programa literário da tv européia, "Bouillon de Culture", do crítico Bernard Pivot, já mudaram de atitude. Abriram espaço para o "Efeito Coelho". Agora, dispensam-lhe tratamento fidalgo e reverênciam também o público que o festeja mais calorosamente na Europa. Dos 26 milhões de exemplares de seus 8 livros vendidos no mundo inteiro até agora a França absorveu 5 milhões.
"Os bons sentimentos nem sempre propiciam a boa literatura, Gide já dizia, mas o que mestre não ficou sabendo é que eles podem gerar essas fortunas de que só Coelho, agora, detém o segredo", escrevia há pouco o crítico Sebastião Le Fol num rodapé de primeira página de "Le Figaro".
Na receita imaginada pela mídia francesa para o êxito fenomenal daquele que a crítica passou a chamar de " Midas da edição internacional" entram "uma talagada de espiritualidade católica temperada de budismo, uma dose de new-age, uma porção de ingenuidade e um "dedo" bem calibrado de marketing. Aliás, nesse último ingrediente, houve até inovação, com a publicidade de "Verônica..." sendo colocada na traseira e nas laterais de ônibus circulares de Paris e de mais 12 outras cidades francesas.
Mas a artilharia pesada, em matéria de promoção, acontece nos estudios de rádio e televisão em que ele é recebido
em geral, numa atmosfera de incontida tietagem. Nas entrevistas e nos diálogos com o público diretamente ou por telefone, engrena em torno dos conceitos sacramentais da "legenda pessoal", todo o leque de palavras que arejam e fortificam a noção de "realização pessoal" como "amor", "autoconfiança" "alegria de viver","esperança","energia interior", "perseverança", "liberdade".
Interpelados, seus leitores emitem basicamente a mesma opinião sobre o que os motiva a ler Paulo. Em síntese, para eles
trata-se de uma leitura que "reconforta o espírito, fornece energia interior, ajuda a pessoa a se reencontrar, a lutar pela realização de seus sonhos, é mais acessivel do que os profetas da Bíblia, Dalai Lama e os grandes filosófos com a vantagem de que nunca culpabiliza o leitor."
Para a escritora e ex-Conselheira Cultural da França no Brasil, Annick T. Melsan, "o gênio de Coelho foi precisamente este de criar uma linguagem simples, sem as angústias metafísicas de um Spinoza, facilmente digerivel, para exprimir a espiritualidade de que necessita o público dos tempos da Internet e que precisa ser satisfeita instantaneamente, em tempo real".


