Paulo César Pinheiro lança seu primeiro livro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Lucas Nobile<br> Agência Estado 
Soberba e genialidade não costumam viajar no mesmo vagão. Pelo menos não no de Paulo César Pinheiro. Após 41 anos de uma consagrada carreira como compositor e letrista, ele poderia muito bem incorporar a arrogância e enclausurar-se no conforto de sua residência em Laranjeiras, Rio de Janeiro. Porém, na contramão da inércia, ele não só acaba de lançar seu primeiro romance, como já tem mais dois finalizados e um quarto idealizado na cabeça.
Aos 60 anos, com ''Pontal do Pilar'', Pinheiro atesta que uma mesma matéria-prima, neste caso, a palavra, pode resultar em uma infinidade de produtos distintos, com o mesmo rigor qualitativo. Com mais de 900 composições gravadas por grandes nomes como Clara Nunes, Elis Regina, Edu Lobo, Tom Jobim, Baden Powell e João Nogueira, o compositor e escritor dispensa o mesmo fino trato às palavras em seu romance.
O processo de feitura do livro se deu de forma estranha, como ele diz. Desde adolescente, época em que Pinheiro era um leitor voraz, já alimentava o desejo de escrever um romance. A ideia, deixada de lado, retomou de maneira inesperada em fevereiro de 2008. Na madrugada de sexta-feira para sábado, em pleno carnaval, ele levantou da cama e foi direto para sua mesa de trabalho. Ainda trôpego e aéreo pelo sono, escreveu duas páginas e voltou para a cama. No dia seguinte, ao ler o que havia escrito, concluiu que estava diante do primeiro capítulo de um romance, já com quatro personagens e a trama central desenhada. Empolgado com o surto criativo, passou a dormir poucas horas por noite, a escrever ininterruptamente, concluindo o livro em dez dias.
Pinheiro decidiu amansar a caneta. Depois de escrever ''Pontal do Pilar'', ''Matita, o Bruxo'' (que deve ser lançado na Flip em 2010) e ''Santa Meretriz'' (previsto para 2011), o autor já tem o quarto romance na cabeça. E os projetos continuam pululando. No começo de 2010, mais uma peça de teatro de sua autoria deve estrear. Ele também prepara um livro sobre suas letras, explicando a origem das canções. Com o estoque de versos cheio, o escritor também tem mais livros de poesia, entre eles um, que deve ser o primeiro a ser lançado, com 200 sonetos.
Como foi a experiência de escrever seu primeiro romance em dez dias?
Começou a vir uma cidade de cais de porto na minha cabeça, com seus habitantes. Os personagens iam chegando, trazendo seus nomes, roupas, feições, cor, e eu achando tudo muito estranho porque eu via as pessoas.
A apresentação deve ter sido longa, já que são quase 60 personagens...
É como se eu tivesse estado realmente numa cidade, conhecido seus habitantes, e tivesse ido embora sabendo que eu não ia voltar nunca mais. E mais estranho ainda, os dez dias seguintes eu fiquei meio aéreo, começou a me dar saudade das pessoas.
Ainda tem gente que considera letra de música uma arte menor?
Existe uma corrente literária que diz que letra de música não é poesia. É uma grande idiotice, até porque ela nasceu cantada. A poesia, antes da escrita nascer, já existia na boca dos menestréis, já nasceu como letra de música. Se alguém me disser que Chico Buarque é um poeta menor eu enforco.
O livro tem uma linguagem específica, folclórica e rebuscada. Você acha que consegue atingir a todos?
Minha mãe é semianalfabeta, não chegou a ter o primário completo, e ela entendeu tudo, portanto, qualquer pessoa comum entenderá.
Quando você descreve uma personagem no livro, diz que ela ''cresceu com os pés na areia e as vergonhas no sal''. É algo que você já fazia na música. Você prefere o abstrato, dizer o dito pelo não dito?
Gosto de fazer a pessoa pensar. Tem que ler de forma que viaje comigo, que vá para o país imaginário ao qual eu fui, comece a ver as pessoas como eu vi.
Você diz que desde jovem era um leitor voraz. É inegável a semelhança de sua linguagem com a de Guimarães Rosa. Leu muitas obras dele?
É minha grande influência. A primeira vez que eu li Guimarães, tinha 14 anos. Entrei no mundo dele, entendi tudo. Com 16, eu fiz uma canção chamada Sagarana. É pra mim um dos maiores escritores de todos os tempos. Acho Grande Sertão: Veredas tão importante quanto qualquer clássico mundial.
Durante a escrita de Pontal do Pilar, teve de dar um tempo na elaboração de letras de músicas?
Meus parceiros foram me abastecendo com músicas para eu colocar letra, foi crescendo uma pilha em cima da mesa lá de casa...
SERVIÇO
- Pontal do Pilar
Autor - Paulo César Pinheiro
Editora - Leya
Quanto - R$ 34,90 (136 págs.)


