O sonho do ator Paulo Betti em levar à tela o filme ‘‘Cafundó’’, baseado na vida de um ex-escravo, João de Camargo, já tem data para se tornar realidade. Se os planos não forem alterados, daqui um ano – setembro de 2001 – terão início as filmagens. No começo desta semana o ator esteve em Curitiba visitando empresas e órgãos do governo, em busca de apoio, acompanhado pelo produtor Rubens Gennaro. Em entrevista concedida exclusivamente à Folha 2, afirmou ter sido positivo o resultado da empreitada.
A trama do filme se passa no período áureo dos tropeiros que vinham do Rio Grande do Sul, passavam por Santa Catarina, entravam em Curitiba e desembocavam em Sorocaba. ‘‘Esse é o eixo econômico e da história do filme. Haverá uma partida de tropas, então teremos cenas aqui no Paraná, certamente no Teatro da Lapa, e em Guarapuava, onde ainda existe uma boa cavalhada’’, planeja Betti.
Para a captação de recursos o projeto ‘‘Cafundó’’ foi apresentado – e defendido – em 200 empresas do porte da BR Distribuidora, Eletrobras, Brasil Telecom, Antarctica, Fuji Filmes. A luta é árdua, mas não há outro caminho. ‘‘Hoje, o trabalho de alguém que quer produzir cinema é esse’’, resume o artista.
‘‘Tenho ido às empresas não só para mostrar o projeto como também para deixar claro que ele é confiável’’, observa. Isto porque os escândalos envolvendo as inadimplências milionárias de Guilherme Fontes, com ‘‘Chatô’’, e Norma Benguel com ‘‘O Guarani’’, deixaram os empresários apreensivos.
De um universo de 200 filmes surgiram apenas esses dois problemas que seriam ‘‘facilmente contornáveis’’, segundo o ator. Porém, eles foram suficientes para disseminar a desconfiança no mercado. Apesar das águas turvas criadas com esses embaraços de Fontes e Benguel, o cinema brasileiro está dando a volta por cima. Como resposta ao sufoco que foi a era Collor, uma série de sucessos nacionais vem sendo emplacada nas bilheterias do País nos últimos anos.
No momento público e crítica elegeram ‘‘O Auto da Compadecida’’, de Guel Arraes, e ‘‘Eu Tu Eles’’, de Andrucha Waddington, mas tem ainda os menos populares, e nem por isso menos importantes, como ‘‘Cronicamente Inviável’’, de Sérgio Bianchi, e ‘‘Amélia’’, de Ana Carolina, aponta Paulo Betti.
Um dos fatores que contribuiu para esta alavancada, na opinião do artista, é a Lei do Audiovisual, muito embora esteja precisando de algumas reformulações. ‘‘Hoje ela se mostra um pouco cansada’’, diz. Porém, há uma sinalização positiva do governo com a criação da Agência Nacional de Cinema, integrando vários ministérios, que cuidará do setor.
Betti defende a idéia de que a produção cinematográfica brasileira não pode ficar atrelada unicamente ao marketing empresarial, bem como certos filmes não podem depender unicamente do mercado. ‘‘Esse é o equilíbrio que o Ministério da Cultura está começando a praticar’’, avalia.
Pois bem, apesar de estar envolvido de corpo e alma com ‘‘Cafundó’’, o ator mantém-se atento ao trabalho que desenvolve na Rede Globo. Recentemente atuou na novela ‘‘Força de um Desejo’’, e nas últimas semanas deixou a barba crescer para compor o visual do personagem que fará na próxima minissérie da emissora, ‘‘Os Maias’’, baseada na obra de Eça de Queiroz, com direção de Luiz Fernando de Carvalho. Fará o brasileiro da história.
Além da televisão Paulo Betti também permanece muito próximo ao teatro. Ele está dirigindo a remontagem de ‘‘Feliz Ano Velho’’, peça que ficou três anos em cartaz, numa adaptação do livro de Marcelo Paiva. O espetáculo junta o drama do jovem que se atirou num lago e ficou tetraplégico, com o desaparecimento do seu pai, o deputado Rubens Paiva, preso pela repressão da didatura militar. A estréia acontece dia 19 de outubro no Tuca – teatro da Puc – em São Paulo.
‘‘Em relação a ‘Feliz Ano Velho’, estou numa viagem no túnel do tempo’’, brinca o artista. Montei a peça há 17 anos, e como estava trabalhando com Denise Dell Vecchio na novela ‘Força de um Desejo’, um dia encontramos o Marcos Frota, e ele sugeriu a remontagem’’, explica o diretor. Voltará à cena no elenco principal: Denise novamente será a mãe que a duras penas acolhe os baques da vida, e Frota estará na pele de seu filho. Apesar dos 42 anos, vai interpretar um garoto de 20.
Do início da década de 80 para o ano 2000 muita água rolou. Haveria alguma compatibilidade entre o episódio de um desaparecido político e o acidente de seu filho nesta mudança de século? O questionamento pegou em cheio os artistas, e a conclusão foi de que a atualidade não é muito diferente. Os acontecimentos de então ainda estão presentes, sustenta Betti:
– A peça tem a ver com nossos dias, sim. Estão aí a Operação Condor, o Pinochet, os mortos e desaparecidos do Cemitério de Perus, cujas ossadas foram para a Unicamp e até agora não se sabe de quem são... ‘‘Feliz Ano Velho’’ ainda fala de uma garra que a juventude não perdeu, e de uma história que a juventude atual precisa conhecer. Os jovens vão perguntar: ‘‘mas isso aconteceu no Brasil?’’
Mesmo tendo partido do princípio de que ‘‘existia uma partitura que eu mesmo dirigi’’, Paulo Betti avisa que o espetáculo será uma reedição ‘‘com nosso olhar de hoje’’. ‘‘Mudamos muita coisa para a peça continuar a ser a mesma, para ela ficar igual, ter a mesma pulsação’’.
A menos de três semanas da estréia, o espetáculo está devidamente delineado, mas quando decidiu-se pela remontagem o ator não tinha noção do trabalho que vinha pela frente. ‘‘Pensei que fosse mais fácil fazer uma volta ao baú’’, confessa. A trilha sonora mudou, e à exceção do núcleo central, também os atores serão outros.
Este é um tubo de ensaio. Conforme o êxito da experiência, outros sucessos que hoje estão no baú voltarão às luzes da ribalta. ‘‘Com esta montagem estou testando se existe esse baú no teatro. Se existir, preparemm-se. Aí vou refazer também ‘Na Carrera do Divino’’.
Quando levou ao palco ‘‘Na Carrera do Divino’’ Betti era um recém-formado da Escola de Comunicação e Artes, da USP, assim como praticamente todo o elenco. O trabalho levou todos os prêmios importantes da época. Poético, comovente, visceral mostrava a expulsão do homem da terra, ludibriado por oportunistas que roubavam os poucos bens que possuíam. Depois de um mergulho no dia-a-dia dessa gente, em seu cotidiano de luta, danças e cantorias, medos de assombrações e lobisomens, a realidade que dá desfecho a essas vivências é ainda mais vil: a família tímida e assustada, num vagão de trem, vê distanciar-se o lugar onde sempre morou, indo se esfacelar na cidade grande.

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