PAULO AUTRAN NUM CURTA-METRAGEM
Ubiratan Brasil
Agência Estado
Um escritor rico e famoso, preso a uma cama de hospital graças a doença terminal, enfrenta a solidão e a chegada da morte. Durante cinco dias, enquanto aguarda o fim, esbraveja sozinho e ajusta suas contas finais, desfiando sua filosofia, ironia, amargura, lembranças, até chegar ao limite da existência. Os derradeiros momentos de Pedro, o escritor, serão vividos pelo ator Paulo Autran que, no próximo mês, passará três dias gravando o curta-metragem Naftalina, primeiro roteiro a ser filmado do jornalista Angelo Schincariol. O texto foi escrito a pedido de Autran, que se interessara por outra obra de Angelo, Casa do Sol, inspirado nos escritos de Hilda Hist.
Paulo não deu detalhes sobre o que queria, pediu apenas que escrevesse sobre um velho, conta Angelo que, escritor introspectivo, decidiu-se por retratar os dias derradeiros de um doente. O ator, que poucas vezes utilizara tão poucos recursos físicos para interpretar (acamado, o personagem exige atuação dos braços e, principalmente, da expressão facial) maravilhou-se com o desafio e a densidade do texto. Apesar de ainda jovem, Angelo conseguiu construir um roteiro inteligente ao conceber uma figura forte, egoísta, agressiva, mas extremamente humana de um velho, comenta o ator de 77 anos, que recentemente encerrou a temporada paulista da peça Quadrante e, enquanto inicia sua nova produção (estréia, neste mês, no espetáculo Visitando Sr. Green), vai dedicar três dias para as filmagens do curta.
O ator já experimentara o gosto de participar em produções curtas em O Enfermeiro, filme de Mauro Farias em que contracenou com Matheus Nachtergaele e exibido por uma emissora de canal a cabo. Autran garante que não utilizará uma interpretação típica de televisão, apesar de boa parte das imagens do curta focalizarem praticamente só seus membros superiores. Embora a necessidade de alguns closes possa lembrar uma produção de tevê, espero transmitir outro tipo de emoção, que caracterize um trabalho cinematográfico, justifica.
Pedro, o escritor doente, vocifera contra o mundo: a igreja, seus amores, a fama. Estaria sozinho no quarto não fosse a presença de uma freira, inteiramente vestida de negro, que nada fala, apenas acompanha o discurso catártico do escritor como se fosse a própria morte, esperando o momento certo de buscar mais um ser. A possibilidade de dialogar com uma representação da morte empolgou o ator.
Em alguns momentos, Pedro tem a mesma agressividade verbal que o Rei Lear, de Shakeaspeare, ou de Coriolano, comenta Autran. No início do ano, o ator fez apenas duas leituras despretensiosas de Naftalina, no sofá de seu apartamento, nos Jardins, antes de realmente estudar o personagem. Mas foram momentos muito fortes, quando Paulo realmente incorporou toda a raiva do escritor, relembra Angelo.
No projeto inicial, Naftalina deveria ser um longa, mas a densidade do texto perderia sua força em tantos minutos de projeção. Decidiu-se, assim, pela concepção de um curta, que deverá ter a duração média de 15 minutos. Angelo, que também é produtor-executivo do projeto, participa da busca pelas locações que deverão ser definidas ainda neste mês.
Todo o projeto está orçado em incríveis R$ 700,00, que bancarão apenas custos de transporte e alimentação da equipe. Colaborou para um parco orçamento o fato de Paulo Autran abrir mão de qualquer cachê. O encantamento com o texto foi mais forte e me convenceu a participar, explica o ator. Também foi decisiva a opção por se utilizar câmeras digitais, que se tornaram ferramentas essenciais para produções modestas em todo o mundo - as câmeras custam, em média, US$ 3.500 e modelos de alta fidelidade podem custar até US$ 500 em lojas de descontos nos EUA, centro principal dos filmes de baixo orçamento.
Isso possibilita a exibição tanto em TV como pela Internet, comenta Angelo, atento à cobiça dos sites de entretenimento, que precisam de conteúdo produzido com custos baixos - apesar de a produção ainda não ter começado, já há contatos com emissoras de tevê a cabo, interessadas no projeto. Há ainda a possibilidade de Naftalina ser vertido para o celulóide, o que permitirá sua exibição em cinema. Como o custo é excessivo (são cobrados cerca de R$ 500,00 para se copiar um minuto), o processo vai depender do auxílio de patrocinadores.
O curta será dirigido por Kiko Araújo, com experiência na direção de videoclipes, e o papel da freira será interpretado por Cristina Cavalcanti, atriz que já participou de longas como Dois Córregos e Ação entre Amigos. O título deste filme de Beto Brant, aliás, resume bem o espírito da equipe. Todos estão dispostos a conseguir o máximo de qualidade mesmo sem ganhar nada, conta Angelo, que terá outro texto encenado - o ator Cassio Scarpin já decidiu montar, no teatro, o monólogo Miranda, escrito pelo jornalista.Ator prepara-se para filmar Naftalina no qual vai interpretar um escritor de prestígio que agoniza solitário
Arquivo FolhaPaulo Autran: Algumas vezes, meu personagem tem a mesma agressividade de Rei Lear de Shakespeare





