São Paulo, 22 (AE) - Enquanto os astros norte-americanos se reuniam no Dorothy Chandler Pavilion, em Santa Monica, diretores, atores e personalidades brasileiras acompanharam, com muita expectativa, a entrega do Oscar em restaurantes e cinemas de São Paulo. Entre os pontos badalados da cidade, destacam-se o Espaço Unibanco de Cinema, que teve casa cheia com festa só para convidados, e os restaurantes Spot e Quattrino, que exibiram a premiação em telões instalados em espaços visíveis para os clientes.
No Unibanco, os convidados lotaram o hall de entrada e duas salas de exibição durante a festa. Por volta das 23h30, não havia mais cadeiras vazias. A disputa por um espaço próximo ao telão era grande. Maria do Socorro Nobre, ex-presidiária que inspirou a personagem Dora, vivida por Fernanda Montenegro, sentou-se na mesa mais próxima da tela.
"A emoção de servir de inspiração para um filme tão lindo é a mesma de ter o primeiro filho", comentou Socorro, emocionada. "Mesmo depois da derrota para melhor filme estrangeiro, ainda acreditava nas qualidades de Fernanda, mas não foi desta vez," lamentou. A cada entrega de prêmio para o qual o Brasil foi indicado, Socorro era assediada por fotógrafos e câmeras de televisão.
Num dos momentos mais tensos da noite, o silêncio tomou conta do local e só sobrou espaço para os lamentos após o discurso de Sophia Loren. O anúncio de vitória de A Vida é Bela provocou reação semelhante à da derrota brasileira na final da Copa do Mundo. A resposta do público foi imeditata: gritos exaltando Central e vaias contra os italianos. Minutos depois, muitos convidados deixaram o cinema indignados.
"Sabíamos que existiam interesses econômicos e políticos que favoreciam o filme italiano", lamentou Elisa Tolomeli, produtora-executiva de Central do Brasil. "Mesmo assim, fizemos bonito com a indicação."
Durante a apresentação dos indicados para melhor ator, um coro de vaias ergueu-se contra Roberto Benigni, que foi o vencedor. Quando Helen Hunt abriu o envelope e chamou Benigni ao palco, as vaias voltaram. Seguiu-se outra debandada.
"Esse Oscar selou o futuro de Fernanda Montenegro, pois Hollywood não deixaria que dois atores estrangeiros ficassem à frente de suas estrelas", criticou o diretor Carlos Reichenbach. "A premiação também consagrou o maior clown da atualidade: Benigni." A dispersão maior ocorreu quando a estatueta de melhor atriz foi entregue a Gwyneth Paltrow e o sonho brasileiro no Oscar chegava ao fim. "Ela merecia muito, pois foi brilhante", lamentou Socorro, já contendo as lágrimas e amparada pela produtora, Elisa, que ficou ao seu lado durante todo o evento. "Devemos ter orgulho de uma atriz como Fernanda, que conseguiu levar o Brasil ao topo do cinema."
O Spot estava lotado uma hora e meia antes da apresentação da premiação. O dono do restaurante, Sérgio Kalil, resolveu instalar um telão de 100 polegadas na sexta-feira e, mesmo sem ter tido tempo de avisar os clientes sobre essa atração extra, a casa ficou cheia da noite de domingo até as 3 horas de hoje. "O movimento de domingo costuma acabar meia-noite", comentou Kalil. Ele assistiu à entrega da estatueta ao lado dos clientes, que formaram uma torcida dividida entre os candidatos.
O advogado Luís Fernando Neves, que assistiu a todos os filmes, acertou na aposta de melhor filme estrangeiro. "A Vida É Bela é muito mais cinema", observou Neves, que antes do começo da entrega só tinha uma certeza: a vitória de Fernanda Montenegro. Cláudio Andrade, que pediu a conta quando Sophia Loren anunciou a vitória do filme de Roberto Benigni, ficou indignado com o resultado já previsto no momento em que a atriz italiana subiu ao palco. "A Vida É Bela é um filme bobo; Central é um filme importante, um documento sobre o Brasil em linguagem cinematográfica", comentou. "O maior prêmio para Walter Salles são os aplausos brasileiros e não esse reconhecimento internacional, que é uma grande armação."
A vitória da Gwyneth Paltrow rendeu a grande vaia da noite, sucedida pela debandada dos clientes, que, além de irritados com os resultados do Oscar 99, tinham de trabalhar hoje pela manhã. O admistrador de empresas Luís Pereira, que prometeu champagne a todos depois da vitória de Fernanda Montegro, abandonou o drinque na mesa e deixou o Spot emburrado: "A academia deve pensar que já fez uma grande concessão aos chicanos indicando a Fernanda", esbravejou, perto do chafariz que fica ao lado do restaurante. "Eles gostam de palhaços e menininhas bonitinhas, que falem, de preferência, a língua inglesa."
Já o público do Quattrino não se envolveu com o Oscar. As pessoas não assistiram a todas as premiações e muitas foram embora antes da entrega de melhor filme estrangeiro. Cerca de 70 pessoas se reuniram no início da festa. Raul Gazola e Oscar Magrini foram participantes ativos da festa. Gazola gritou, torceu e ficou emocionado com o resultado. Foi embora logo em seguida.
A atriz Leila Lopes, depois da entrega de melhor filme estrangeiro, aproximou-se e disse: "Falei que eles não são justos, são muito previsíveis." Indignação geral. Impossível ver e ouvir o Oscar. As pessoas só se calaram em dois momentos: na entrega dos prêmios de melhor filme estrangeiro e melhor atriz. E o clima de euforia inicial acabou em desânimo e inconformismo.

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