Paulinho Tapajós lança disco novo com o objetivo de reciclar histórias antigas: ‘‘Reencontro’’, que a gravadora CID acaba de colocar no mercado, traz 15 faixas que o compositor fez ao lado de vários parceiros e que estavam guardadas há anos. Além de comemorar o fato de dar vida a canções que ele achava que não iria mais gravar, Paulinho se emociona ao lembrar da maneira que algumas delas foram criadas. Um exemplo é ‘‘Do Fundo do Armário’’, parceria dele com Nélson Cavaquinho. Os dois iriam fazer um show em São Paulo, em 1984, e pernoitavam em um hotel. Nélson acordou na madrugada e começou a balbuciar uma melodia. Acordado pelo amigo, Paulinho registrou o rompante criativo num pequeno gravador e ficou com a incumbência de criar uma letra para a canção. Como Nélson faleceu alguns meses depois, Paulinho só conseguiu atender ao pedido do amigo com 12 anos de atraso. ‘‘Na época fiquei desmotivado e resolvi dar um tempo. Agora estou contente por ter saldado esta dívida’’, garante o compositor de 53 anos.
Com 200 composições gravadas por astros da Música Popular Brasileira - como Elis Regina, Maria Bethânia, Clara Nunes, Elba Ramalho, Nara Leão, Elizeth Cardoso e Chico Buarque - Paulinho já atinge mais de mil regravações nas vozes de intérpretes nacionais e estrangeiros. A mais conhecida é ‘‘Andança’’, canção de 1968 que ficou em terceiro lugar no Festival Internacional da Canção na interpretação de Beth Carvalho e os Golden Boys. A faixa-título, ‘‘Reencontro’’ é uma referência a canção composta por Paulinho em parceira com Danilo Caymmi e Edmundo Souto. O trio resolveu se reunir novamente para compor Reencontro em homenagem aos 30 anos de ‘‘Andança’’ e chamar os mesmos intérpretes para gravá-la. ‘‘Tentamos resgatar o espírito de ‘Andança’, que tem um significado importante. É uma música que uniu a gente para sempre de uma forma natural’’, acredita Paulinho.
Outra canção do novo CD que remete a uma parceria antiga é ‘‘Patins’’. Nesta faixa, Paulinho volta a se encontrar com Cláudio Nucci, ex-vocalista do Boca Livre. Os dois já haviam composto ‘‘Sapato Velho’’, outro sucesso que obteve várias regravações e que tem letra de Paulinho. O fato de compor ao lado de artistas que caminham por diferentes tendências da MPB é visto com naturalidade pelo músico. A facilidade em se adequar a ritmos como samba, toada, valsa e bossa nova é reflexo da herança que obteve do pai Paulo Tapajós, que foi diretor artístico da Rádio Nacional. A sua casa era frequentada por estrelas da época, como Marlene, Nora Nei, Carmem Miranda e Lamartine Babo. Além de ter o privilégio de conviver com estes artistas, Paulinho contava com um acervo de discos enorme do pai. ‘‘Isso me marcou para sempre’’, conta Paulinho, que nos anos 80 também exerceu a função de produtor musical da Globo.
O compositor garante que, como letrista, é mais fácil se adequar a estilos diferentes de outros artistas na hora de fazer música. Com este pensamento, Paulinho revirou o baú e pinçou músicas para o novo trabalho. Entre elas, ‘‘Donos do Brasil’’, composta ao lado de Nonato Luiz e Raimundo Fagner, ‘‘O Campo do Chico’’, com Jerônimo Jardim, ‘‘Romântico Demais’’, melodia do ex-A Cor do Som Mu Carvalho, ‘‘Colecionador de Amigos’’, com Jorge Ben Jor, e ‘‘Nas Quebradas da Vida’’, que fez com Antônio Adolfo. A idéia de Paulinho era criar letras que falassem de temas que ele ainda não havia escrito, como os jogos de futebol que acontecem no campo do Chico.
Apesar de garantir que compõe praticamente todos os dias, Paulinho lembra que criar música no Brasil é um exercício ingrato. Com cinco LPs, um compacto duplo e dois CDs em 30 anos de carreira, o compositor reclama da desorganização que envolve a arrecadação do direito autoral no País e afirma que só continua fazendo novas músicas porque é um dom que não consegue se desvencilhar. Além de ‘‘Andança’’ e ‘‘Sapato Velho’’, ele emplacou vários sucessos, como ‘‘Cantiga Para Luciana’’, que ganhou o Festival Internacional da Canção em 1969, e fez temas para novelas, como ‘‘Irmãos Coragem’’ e ‘‘Assim na Terra Como no Céu’’. ‘‘Com apenas um sucesso nos Estados Unidos ou na Europa, o compositor já consegue viver dignamente. No Brasil vai demorar muito ainda’’, reclama Paulinho.

mockup