A 24ª Bienal de São Paulo abre suas portas a partir de hoje para o público. Os organizadores apostam no sucesso da mostra, esperando levar mais de 400 mil pessoas ao Ibirapuera e consagrar definitivamente a Bienal paulista como uma das três maiores do planeta.
Estrelas como Vincent Van Gogh, Francis Bacon, René Margrite, Albert Eckhout, entre outros, emprestam glamour ao evento. Dos artistas nacionais, Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Hélio Oiticica e Cildo Meireles figuram como sensação.
Fundação Bienal de São PauloRené Margrite desenvolveu um vocabulário visual peculiar. Na Bienal estão expostas 30 de suas obrasTodo o evento foi amarrado dentro do conceito da antropofagia, garimpado do ‘‘Manifesto Antropófago’’ e alardeado por Oswald de Andrade em 1928. A idéia, considerada um tanto discordante, defendida pelo presidente da Bienal, Julio Landmann, é estabelecer um intenso diálogo entre artistas nacionais e estrangeiros.
Os mais de 270 artistas presentes na mostra foram escolhidos a dedo para justificar o canibalismo, a mola mestra do movimento antropofágico brasileiro. As obras foram disputadas corpo a corpo pelos curadores, exigindo muitas horas de vôo, intensas negociações e recepções em embaixadas pelo mundo afora.
O projeto dos organizadores é ‘‘contaminar’’ as inúmeras tendências, estilos e propostas. O amarelo solar do holandês Van Gogh coabita com o vermelho intenso da instalação do brasileiro Cildo Meireles. Dessa forma é estabelecida uma conversa entre os dois trabalhos. Nesta edição, o evento está estruturado em quatro segmentos: Núcleo Histórico, Representações Nacionais, Arte Contemporânea Brasileira e Roteiros, Roteiros, Roteiros, Roteiros, Roteiros, Roteiros, Roteiros.
Fundação Bienal de São PauloOutra vedete da mostra é Tarsila do Amaral, artista símbolo do modernismo e da antropofagiaMas, sem dúvida, as atenções estão focadas no Núcleo Histórico, instalado no 3º andar do Pavilhão, onde os maiores nomes internacionais e brasileiros das artes plásticas estão devidamente alojados. Mesmo fugindo do rótulo, esse segmento do evento mostra claras referências museológicas. A tendência em exibir obras contemporâneas, como aconteceu em Bienais anteriores, não será o chamariz.
O tratamento vip dado a Van Gogh, Margrite, Bacon, Giacometti e Tarsila fez com que ficassem em ambientes climatizados e rigorosamente vigiados. O público poderá ficar no máximo uma hora nesse espaço.
Albert Eckhout, pintor oficial da comitiva de Maurício de Nassau, documentou índios e negros em suas pinturas. Na Bienal, um gigantesco painel trazido da Dinamarca exigiu pedidos à realeza daquele país. Há mais de 300 anos que a obra não sai dos museus dinamarqueses. E transportá-la para um país quente e úmido seria muito arriscado.
Fundação Bienal de São PauloA maior estrela da Bienal é Van Gogh, com 28 obras expostas no espaço climatizadoEm se tratando de conjunto de obras, a curadoria venceu pelo cansaço museus e colecionadores, na complicada tarefa de conseguir 13 telas e 15 desenhos de Vincent Van Gogh. O surrealista René Margrite está com 30 obras na mostra e o prestigiado pintor irlandês Francis Bacon aparece com 14.
Na véspera da inauguração do evento, a Folha conversou com alguns artistas plásticos presentes na mostra. No segmento Representações Nacionais, a artista plástica argentina Nicola Constantino trouxe roupas confeccionadas com tecido de silicone. O efeito deste material nas mãos da argentina é o de pele humana. Nada mais canibal, de acordo com a artista. Em alto relevo mamilos masculinos, umbigos e ânus. Nicola utiliza o mesmo processo de criação de um estilista, mas suas peças são esculturas. Ligya Pape, veterana da arte concreta, trouxe a obra intitulada ‘‘O Livro do Tempo’’, no qual construiu 365 peças em madeira dedicadas a cada dia do ano. Cada dia é um quadrado de madeira reconstituído e colorido. Segundo Ligya, nesse trabalho qualquer um pode dar a interpretação que quiser, além da proposta por ela.
O alemão Mischa Kuball canibalizou lustres, visitando 70 famílias brasileiras de todas as classes sociais. Ele trocou o lustre das casas por lustres de estilo Bauhaus, criados por ele. Há possibilidade de destrocar os lustres posteriormente. Kuball vai levar algumas famílias da periferia para a abertura da Bienal.
Fundação Bienal de São PauloO artista plástico brasileiro Cildo Meireles mostra o vermelho como tônica desta instalaçãoDurante a entrevista coletiva, o curador-chefe Paulo Herkenhoff ressaltou a importância da Bienal na criação do público para a arte, na formação de olhares de novos artista e do estabelecimento de um diálogo com o mundo. Como símbolo da cidade de São Paulo, a Bienal se tornou a imagem da arte na América Latina, como também espelha a multiplicidade da cultura humana.
Mas o aspecto mais importante inserido na mostra é o projeto específico na área educacional. Visitas monitoradas, capacitação de professores, material de apoio e salas de educação fazem parte da proposta de criar agentes multiplicadores nas artes plásticas. A curadoria calcula que mais de 100 mil estudantes vão passar pelo programa.
A última babel visual e sensorial do século está calculada em 15 milhões de reais. Pelas contas do presidente da Bienal, ainda falta um milhão de reais para cobrir o orçamento. Dinheiro que deve vir do empenho do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele vai oferecer uma recepção na quarta-feira para empresários e tentar ‘‘contaminá-los’’ sobre a importância do evento.

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